Quando aprender vira adaptação: por que as pedagogias atuais esvaziam o ensino na Educação Profissional e Tecnológica

Há algo curioso – e perigoso – no discurso pedagógico contemporâneo: quase tudo soa progressista. Fala-se em autonomia, protagonismo, criatividade, aprendizagem significativa, resolução de problemas. Um vocabulário sedutor, aparentemente incontestável.


Mas, como alerta Newton Duarte, por trás dessa superfície moderna há um movimento silencioso: o esvaziamento do ensino e a descaracterização do trabalho docente.

Na Educação Profissional e Tecnológica (EPT), onde o fazer concreto ocupa lugar central, esse esvaziamento produz efeitos ainda mais profundos. Porque quando se esvazia o ensino, não se liberta o estudante adapta-se o sujeito.

A pedagogia do “aprender a aprender”: Quando ensinar vira quase um problema

Duarte identifica uma hegemonia clara nas últimas décadas: as chamadas pedagogias do aprender a aprender.
Construtivismo, pedagogia das competências, professor reflexivo, projetos, multiculturalismo – diferentes nomes, uma mesma lógica.

O traço comum não está apenas no método, mas naquilo que todas rejeitam:

  • o ensino sistemático;
  • o conhecimento historicamente elaborado;
  • a centralidade do professor como mediador cultural.

O ensino passa a ser visto como algo suspeito, quase autoritário. Ensinar conteúdos universais torna-se sinônimo de “educação tradicional”. O professor deixa de ensinar para “organizar experiências”.

Na EPT, isso aparece de forma cristalina:

  • não se ensina o processo produtivo como totalidade, mas situações pontuais;
  • não se estuda o trabalho como categoria histórica, mas tarefas contextualizadas;
  • não se forma para compreender o sistema, mas para operar dentro dele.

Aprender, aqui, não é compreender é adaptar-se.

O cotidiano como critério: Quando o imediato vira limite

Uma das críticas mais contundentes de Duarte é à supervalorização do cotidiano. Aquilo que o estudante já vive, já conhece, já faz, passa a ser o critério central de relevância do conhecimento.

À primeira vista, isso parece respeitoso. Na prática, é limitador.

Quando o cotidiano vira parâmetro absoluto:

  • o conhecimento deixa de ampliar horizontes;
  • o currículo se fragmenta;
  • o acesso ao saber universal é restringido;
  • a escola perde sua função histórica de mediação cultural.

Na EPT, isso se traduz em currículos “enxutos”, “práticos”, “flexíveis”, mas incapazes de oferecer uma leitura ampla do trabalho, da tecnologia e da sociedade.

Ensina-se aquilo que é imediatamente útil. E o que não parece útil agora simplesmente desaparece.

O resultado é perverso: forma-se para o presente estreito, não para a compreensão crítica do mundo.

Conhecimento Tácito: Quando a experiência vira substituta do saber

Outro deslocamento apontado por Duarte é a valorização do conhecimento tácito – aquele saber pessoal, implícito, aprendido pela experiência direta.

Experiência é importante. Mas não é suficiente.

Na EPT, o problema surge quando:

  • o saber científico cede lugar à vivência profissional;
  • a teoria passa a ser vista como acessória;
  • o estudante aprende a fazer, mas não a explicar, analisar ou transformar o que faz.

O professor, nesse cenário, deixa de ser mediador do conhecimento sistematizado e passa a ser facilitador de experiências. Seu trabalho se empobrece, ainda que o discurso diga o contrário.

Forma-se alguém capaz de agir, mas não necessariamente de compreender. E agir sem compreender é uma forma sofisticada de alienação.

O trabalho do professor em risco: quando ensinar perde valor

Talvez uma das críticas mais incômodas de Duarte seja esta: as pedagogias contemporâneas, ao afirmarem valorizar o professor, acabam por esvaziar sua função essencial ensinar.

Ensinar passa a ser visto como transmissão mecânica. Pensar vira sinônimo de refletir sobre a própria prática, não de apropriar-se de conceitos e teorias capazes de explicar a realidade.

Na EPT, isso se agrava:

  • o professor deixa de ajudar o estudante a compreender o trabalho como prática social complexa;
  • passa a apenas acompanhar trajetórias individuais de aprendizagem.

O ensino desaparece. A formação se dilui. A crítica se enfraquece.

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Educação Profissional e Tecnológica: adaptação ou formação?

Duarte é direto: essas pedagogias não oferecem uma perspectiva de superação das contradições sociais. Elas operam dentro da lógica do capital, não contra ela.

Na EPT, isso se manifesta como:

  • formação para a empregabilidade;
  • adaptação às mudanças do mercado;
  • flexibilização permanente;
  • responsabilização individual pelo sucesso ou fracasso.

O discurso é pedagógico. O efeito é político.

Forma-se o trabalhador flexível, não o sujeito capaz de compreender e intervir nas condições de trabalho.

O convite: Devolver o ensino à Formação Profissional

O que Newton Duarte propõe não é um retorno nostálgico ao passado, mas uma ruptura com o esvaziamento contemporâneo do ensino.

Recuperar o ensino significa:

  • recolocar o conhecimento sistematizado no centro da formação;
  • reconhecer o professor como mediador cultural;
  • compreender o trabalho como categoria histórica, não apenas prática cotidiana;
  • permitir que a EPT seja formação crítica, não apenas adaptação funcional.

Aprender não pode ser apenas aprender a se virar. Ensinar não pode ser um verbo constrangedor.

Na Educação Profissional e Tecnológica, formar é ampliar a leitura de mundo, não apenas ajustar o sujeito às engrenagens já em movimento.

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