Quando a tecnologia vira mito: por que a EPT precisa devolver o humano ao centro?

A Educação Profissional e Tecnológica vive cercada por máquinas, sistemas e inovação. Mas compreender tecnologia exige olhar além dos equipamentos. Quando a ferramenta começa a determinar sozinha o que deve ser ensinado, a educação corre o risco de transformar meio em finalidade.


Série: EPT em Debate
1. O Conceito: Quando a tecnologia vira mito ← você está aqui
2. A Estrutura: A promessa da neutralidade
3. A Raiz: O saber que vira técnica
4. A Sala de Aula: Quando aprender vira adaptação


Afinal, o que chamamos de tecnologia?

Na Educação Profissional e Tecnológica (EPT), a palavra aparece por toda parte.

Laboratórios tecnológicos | Inovação tecnológica.
Competências tecnológicas | Tecnologias digitais.

É compreensível que tecnologia acabe sendo associada principalmente a máquinas, softwares e equipamentos modernos.

Só que essa definição é estreita.

Álvaro Vieira Pinto propôs uma reflexão muito mais ampla.

Para ele, compreender tecnologia exige pensar também a técnica como atividade humana, historicamente produzida e relacionada às condições concretas de uma sociedade.

Gildemarks Costa e Silva sistematiza essa contribuição no artigo Tecnologia, educação e tecnocentrismo: as contribuições de Álvaro Vieira Pinto.

A mudança parece filosófica, mas produz consequências bastante práticas.

Se tecnologia é vista apenas como artefato, a pergunta tende a ser:

Qual equipamento precisamos ensinar o estudante a utilizar?

Quando ampliamos o conceito, aparecem outras:

  • quem criou essa tecnologia?
  • qual problema ela procura resolver?
  • que conhecimentos estão incorporados nela?
  • quais formas de trabalho ela modifica?
  • quem decide como será utilizada?
  • quais alternativas poderiam existir?

A ferramenta continua importante. Só deixa de explicar tudo sozinha.

Quando a tecnologia passa de ferramenta a destino

É nesse ponto que surge o tecnocentrismo.

Ele aparece quando atribuímos à tecnologia uma capacidade de determinar quase automaticamente o rumo da educação, do trabalho ou da própria sociedade.

Na EPT, alguns sinais são reconhecíveis:

  • comprar equipamentos antes de definir claramente seu papel pedagógico;
  • atualizar currículos apenas porque determinada ferramenta entrou no mercado;
  • tratar inovação como sinônimo de adoção tecnológica;
  • apresentar mudanças técnicas como inevitáveis;
  • medir modernização pela quantidade de máquinas, plataformas ou sistemas disponíveis.

Nenhuma dessas ações é necessariamente ruim.

Um laboratório atualizado pode ser excelente. Um software novo pode ampliar enormemente o que se consegue ensinar.

Mas laboratório novo não vem com projeto pedagógico pré-instalado.

O problema começa quando a presença da tecnologia passa a substituir a discussão sobre sua finalidade.

O alerta de Vieira Pinto continua atual?

Aqui aparece algo interessante.

O artigo de Silva que recupera Vieira Pinto foi publicado em 2013 e trabalha uma obra cuja reflexão é ainda anterior. Seria razoável perguntar se o diagnóstico continua servindo para a EPT atual.

Uma pesquisa publicada em 2025 oferece uma pista importante.

Luciana Garcia dos Reis e Luciana dos Santos Rosenau analisaram dissertações do ProfEPT produzidas entre 2017 e 2023 para investigar justamente como o conceito de tecnologia vinha sendo utilizado.

As autoras encontraram predominância de abordagens com pouco aprofundamento crítico e epistemológico da tecnologia.

Segundo a análise, uma compreensão limitada do conceito também restringe a possibilidade de pensar formas alternativas de desenvolvimento tecnológico.

O estudo sobre tecnologia nas dissertações do ProfEPT mostra que a discussão conceitual não ficou presa aos livros antigos.

Ainda há razão para perguntar o que queremos dizer quando falamos em tecnologia na EPT.

Tecnologia também é cultura

Há outra consequência da leitura de Vieira Pinto: tecnologia pertence à história humana.

Ferramentas, métodos e sistemas surgem em sociedades concretas, respondem a necessidades, incorporam conhecimentos e alteram maneiras de viver e trabalhar.

Logo:

  • Uma enxada é tecnologia.
  • Um torno mecânico também.
  • O contêiner marítimo também.
  • Um sistema de inteligência artificial também.

No texto Tecnologia não é só tela e algoritmo, essa história aparece por outro caminho: tecnologias existem muito antes do digital e frequentemente reorganizam sociedades inteiras.

Para a EPT, essa perspectiva é especialmente importante.

O estudante não encontra apenas objetos técnicos. Ele encontra formas historicamente construídas de fazer alguma coisa.

E pode aprender a:

1. operar; 2. compreender; 3. avaliar; 4. adaptar; 5. criar.

    Uma formação que para no primeiro verbo oferece muito menos do que poderia.

    O profissional como operador ou como sujeito da técnica?

    Imagine alguém aprendendo a utilizar determinado sistema industrial.

    Uma formação estritamente operacional pode ensinar:

    • onde clicar;
    • qual sequência executar;
    • quais parâmetros inserir;
    • como reconhecer uma falha.

    Tudo isso importa.

    Mas uma formação tecnológica mais ampla pode acrescentar:

    • por que o processo funciona daquela maneira?;
    • que conhecimentos científicos o sustentam?;
    • quais decisões foram automatizadas?;
    • que riscos o sistema introduz?;
    • quais limitações possui?

    O profissional continua sabendo operar.

    Só que agora consegue também interpretar e tomar decisões.

    Essa diferença ganha ainda mais importância quando equipamentos e softwares mudam rapidamente.

    Formar alguém apenas para uma ferramenta específica pode produzir uma competência com prazo de validade curto.

    Compreender processos, princípios e relações amplia a capacidade de trabalhar inclusive com tecnologias que ainda serão desenvolvidas.

    Nem deslumbramento, nem rejeição

    Uma crítica ao tecnocentrismo pode ser mal interpretada como resistência à tecnologia.

    Seria um erro.

    A EPT tem uma relação constitutiva com técnica, ciência e tecnologia. Questionar como elas são incorporadas à formação não significa desejar menos tecnologia.

    Significa exigir mais compreensão sobre ela.

    Há duas respostas igualmente pobres:

    • deslumbramento: “é novo, portanto precisamos adotar”;
    • rejeição: “é novo, portanto ameaça a formação”.

    Entre as duas existe trabalho intelectual.

    • O que essa tecnologia permite?
    • O que modifica?
    • Que conhecimento exige?
    • Que dependências cria?
    • Que finalidade educacional atende?

    É aí que a tecnologia volta ao tamanho certo.

    Devolver o humano ao centro

    O título deste texto pode sugerir uma disputa entre pessoas e máquinas.

    A questão é outra.

    Máquinas, técnicas e sistemas fazem parte justamente da capacidade humana de transformar o mundo.

    Colocar o humano no centro significa reconhecer quem cria, escolhe, utiliza, modifica e atribui finalidade à tecnologia.

    Na Educação Profissional e Tecnológica, isso muda bastante a formação.

    O estudante deixa de encontrar a tecnologia como algo pronto diante do qual resta apenas aprender a obedecer.

    Ele pode aprender também a interrogá-la.

    E talvez essa seja uma boa medida para distinguir formação tecnológica de simples treinamento: saber usar uma ferramenta importa muito.

    Saber por que, para quê e até quando usá-la importa ainda mais.


    Próximo texto da série:
    A promessa da neutralidade: por que a EPT nunca foi apenas técnica?

    Se conhece alguém que ainda mede inovação educacional pela quantidade de equipamentos novos no laboratório, compartilhe este texto.


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