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Autonomia, competências, aprender a aprender: objetivos difíceis de contestar. O risco é quando empurram para segundo plano o conhecimento sistematizado e o trabalho de ensinar. Na EPT, a pergunta é: formar para compreender o trabalho ou só para se adaptar?
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Série: EPT em Debate – A Sala de Aula
“Aprender a aprender” parece uma ideia impecável
Quem seria contra ensinar alguém a continuar aprendendo?
Em um mundo no qual profissões, tecnologias e conhecimentos mudam, desenvolver autonomia é evidentemente desejável.
Mas a discussão começa quando “aprender a aprender” ocupa o lugar do ensino em vez de complementá-lo. E é nesse ponto que entra a crítica de Newton Duarte.
No capítulo O debate contemporâneo das teorias pedagógicas, Duarte reúne sob a expressão pedagogias do “aprender a aprender” correntes diferentes, como construtivismo, pedagogia das competências, pedagogia de projetos e professor reflexivo.
Essa classificação é do autor: não significa que as abordagens sejam idênticas nem que todo o campo concorde com a leitura.
O argumento de Duarte é mais específico: apesar das diferenças, essas perspectivas tenderiam a valorizar a aprendizagem construída pelo próprio indivíduo, a experiência imediata e a capacidade de continuar aprendendo, enquanto o ensino sistemático e a transmissão do conhecimento historicamente produzido perderiam centralidade.
O problema é colocar o estudante em atividade?
Aqui é fácil criar uma falsa oposição.
De um lado, professor falando. Do outro, estudante fazendo. Como se fosse preciso escolher. Mas, não é.
Projetos, problemas reais, estudos de caso, pesquisa e atividades práticas podem perfeitamente fazer parte de uma formação intelectualmente exigente.
Na EPT, aliás, seria estranho imaginar uma educação profissional sem situações concretas de aplicação.
O ponto é outro: o que o estudante está mobilizando enquanto faz?
Uma atividade pode exigir:
- conceitos científicos;
- conhecimento histórico;
- fundamentos técnicos;
- comparação de alternativas;
- tomada de decisão fundamentada.
Ou pode simplesmente ensinar alguém a resolver a situação que está diante dele.
Por fora, as duas aulas parecem ativas. Mas, por dentro, podem oferecer formações muito diferentes.
Quando o cotidiano vira o limite
Valorizar aquilo que o estudante já conhece é uma boa porta de entrada. O problema aparece quando também vira porta de saída.
Imagine uma aula sobre logística.
Começar pela experiência de receber uma encomenda em casa pode ajudar a construir o assunto. Mas a formação não precisa terminar naquilo que já é visível ao estudante.
A escola pode levá-lo a compreender:
- redes de distribuição;
- modais de transporte;
- custos e estoques;
- infraestrutura;
- relações de trabalho;
- tecnologias de rastreamento;
- decisões econômicas envolvidas no processo.
O cotidiano inicia a pergunta. Porém, é o conhecimento que permite ultrapassá-lo.
Essa é uma das funções que a crítica de Duarte procura preservar para a escola: oferecer ao estudante acesso a conhecimentos que dificilmente seriam produzidos apenas por sua experiência imediata.
E onde entra a EPT?
Na Educação Profissional e Tecnológica, essa discussão ganha uma camada adicional.
Formar para uma profissão exige, inevitavelmente, dialogar com o mundo do trabalho. A dificuldade, portanto, está em decidir até onde esse mundo deve determinar aquilo que se ensina.
Em 2023, Leandro Pelissari publicou na Educação em Revista uma análise de mecanismos jurídicos e curriculares relacionados às reformas da EPT entre 2016 e 2021.
Na interpretação do pesquisador, a pedagogia das competências ganhou espaço crescente nesses documentos e associou a formação a ideias como empregabilidade, flexibilidade e capacidade de responder às demandas do cotidiano profissional.
Vale frisar que é a interpretação crítica do pesquisador sobre essas políticas, e ela torna concreta a pergunta que fazemos.
Se o currículo for organizado principalmente a partir daquilo que o trabalhador precisa executar agora, o que acontece com conhecimentos cuja utilidade não é imediatamente visível?
Competência para quê?
A palavra competência, sozinha, não resolve a discussão.
Ser competente é obviamente desejável. O problema está no significado atribuído a ela.
Compare duas situações.
Situação A
O estudante aprende a executar corretamente determinado procedimento porque aquela operação será exigida no trabalho.
Situação B
O estudante aprende o procedimento, seus fundamentos, seus limites e as razões pelas quais determinada solução técnica foi adotada.
Nos dois casos existe competência. Mas o segundo oferece algo a mais: capacidade de compreender o processo e agir quando ele muda. E processos mudam constantemente.
Tecnologias eliminam tarefas, criam outras e alteram qualificações profissionais. Isso aparece claramente na discussão sobre como a automação muda ocupações e qualificações
Há uma ironia aí.
Uma formação excessivamente preocupada em adaptar o estudante às exigências imediatas do mercado pode prepará-lo muito bem para um mercado que já está mudando.
E o professor? Ainda precisa ensinar?
Precisa.
Mas ensinar não significa transformar o estudante em recipiente.
Um professor pode explicar, demonstrar, questionar, organizar problemas, propor experiências, corrigir, provocar comparações e orientar pesquisas.
Tudo isso é ensino.
O que não parece razoável é imaginar que colocar o estudante no centro da aprendizagem exija colocar o professor fora dela.
- Há conhecimentos que o estudante dificilmente descobrirá sozinho.
- Há erros conceituais que precisam ser identificados.
- Há relações entre fenômenos que dependem de repertório.
- Há perguntas que só aparecem depois que alguém apresenta algo que o estudante ainda não conhece.
O professor não precisa escolher entre ensinar e promover autonomia. Uma das finalidades do ensino pode ser justamente criar as condições para que a autonomia intelectual cresça.
Formar para o trabalho sem reduzir a formação ao trabalho imediato
O estudante precisa sair da EPT sabendo fazer coisas. Isso não está em discussão.
Mas pode, e deve, sair também sabendo:
- por que faz;
- como aquilo se tornou necessário;
- que conhecimento sustenta a prática;
- o que muda quando a tecnologia muda;
- como avaliar outra solução;
- quando um procedimento precisa ser questionado.
É aí que a diferença entre formação e adaptação fica mais visível. Aprender a aprender continua sendo importante. Aprender conteúdos também.
Resolver problemas importa. Ensinar também.
A dificuldade começa quando uma dessas ideias precisa desaparecer para que a outra pareça moderna.
Fechando a série: quatro maneiras de estreitar a formação
Ao longo destes quatro textos, vimos quatro riscos diferentes:
- Quando tecnologia vira destino, o estudante aprende a seguir a máquina.
- Quando decisões técnicas parecem neutras, suas finalidades ficam fora da discussão.
- Quando trabalho vira apenas tarefa, desaparecem experiência, interpretação e atividade humana.
- Quando aprender vira apenas adaptação, o conhecimento corre o risco de valer somente por sua utilidade imediata.
Nenhum desses problemas exige abandonar tecnologia, prática profissional, competências ou autonomia.
Exige, sim, apenas colocá-las dentro de uma pergunta maior: que tipo de profissional estamos formando quando ensinamos alguém a trabalhar?
A EPT pode preparar uma pessoa para ocupar um lugar já existente. Pode também ajudá-la a compreender o lugar que ocupa.
E essa pequena diferença muda quase tudo.
Série concluída. Voltar ao início: Quando a tecnologia vira mito.
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Se conhece alguém que acha que “ensinar” virou uma palavra antiquada, compartilhe este texto. Há ideias que parecem antigas apenas porque esquecemos por que ainda são necessárias.