Autonomia, protagonismo, competências e aprender a aprender parecem objetivos difíceis de contestar. O problema surge quando essas ideias colocam em segundo plano o conhecimento sistematizado e o trabalho de ensinar. Na EPT, a discussão toca uma pergunta central: formar para compreender o trabalho ou apenas para adaptar-se a ele?
Série: EPT em Debate
1. O Conceito: Quando a tecnologia vira mito
2. A Estrutura: A promessa da neutralidade
3. A Raiz: O saber que vira técnica
4. A Sala de Aula: Quando aprender vira adaptação ← você está aqui
“Aprender a aprender” parece uma ideia impecável
Quem seria contra ensinar alguém a continuar aprendendo?
Em um mundo no qual profissões, tecnologias e conhecimentos mudam, desenvolver autonomia é evidentemente desejável.
A discussão começa quando “aprender a aprender” deixa de complementar o ensino e passa a ocupar o lugar dele.
É nesse ponto que entra a crítica de Newton Duarte.
No capítulo O debate contemporâneo das teorias pedagógicas, Duarte reúne sob a expressão pedagogias do “aprender a aprender” correntes diferentes, como construtivismo, pedagogia das competências, pedagogia de projetos e professor reflexivo.
Essa classificação pertence à perspectiva teórica do autor. Não significa que essas abordagens sejam idênticas nem que todo o campo da educação concorde com essa leitura.
O argumento de Duarte é mais específico: apesar das diferenças, essas perspectivas tenderiam a valorizar a aprendizagem construída pelo próprio indivíduo, a experiência imediata e a capacidade de continuar aprendendo, enquanto o ensino sistemático e a transmissão do conhecimento historicamente produzido perderiam centralidade.
O capítulo pode ser consultado gratuitamente na coletânea da Editora UNESP: O debate contemporâneo das teorias pedagógicas.
O problema não é colocar o estudante em atividade
Aqui é fácil criar uma falsa oposição.
De um lado, professor falando. Do outro, estudante fazendo.
Como se fosse preciso escolher.
Não é.
Projetos, problemas reais, estudos de caso, pesquisa e atividades práticas podem perfeitamente fazer parte de uma formação intelectualmente exigente.
Na EPT, aliás, seria estranho imaginar uma educação profissional sem situações concretas de aplicação.
A questão é outra:
o que o estudante está mobilizando enquanto faz?
Uma atividade pode exigir:
- conceitos científicos;
- conhecimento histórico;
- fundamentos técnicos;
- comparação de alternativas;
- interpretação de dados;
- tomada de decisão fundamentada.
Ou pode simplesmente ensinar alguém a resolver a situação que está diante dele.
Por fora, as duas aulas parecem ativas.
Por dentro, podem oferecer formações muito diferentes.
Quando o cotidiano vira o limite
Valorizar aquilo que o estudante já conhece é uma boa porta de entrada.
O problema aparece quando também vira porta de saída.
Imagine uma aula sobre logística.
Começar pela experiência de receber uma encomenda em casa pode ajudar a construir o assunto. Mas a formação não precisa terminar naquilo que já é visível ao estudante.
A escola pode levá-lo a compreender:
- redes de distribuição;
- modais de transporte;
- custos e estoques;
- infraestrutura;
- relações de trabalho;
- tecnologias de rastreamento;
- decisões econômicas envolvidas no processo.
O cotidiano inicia a pergunta.
O conhecimento permite ultrapassá-lo.
Essa é uma das funções que a crítica de Duarte procura preservar para a escola: oferecer ao estudante acesso a conhecimentos que dificilmente seriam produzidos apenas por sua experiência imediata.
E onde entra a EPT?
Na Educação Profissional e Tecnológica, essa discussão ganha uma camada adicional.
Formar para uma profissão exige, inevitavelmente, dialogar com o mundo do trabalho.
A dificuldade está em decidir até onde esse mundo deve determinar aquilo que se ensina.
Em 2023, Leandro Pelissari publicou na Educação em Revista uma análise de mecanismos jurídicos e curriculares relacionados às reformas da EPT entre 2016 e 2021.
Na interpretação do pesquisador, a pedagogia das competências ganhou espaço crescente nesses documentos e passou a relacionar a formação a ideias como empregabilidade, flexibilidade e capacidade de responder às demandas do cotidiano profissional.
O artigo A reforma da Educação Profissional e Tecnológica no Brasil apresenta a análise completa.
É importante dizer exatamente isso: trata-se da interpretação crítica do pesquisador sobre essas políticas.
Mas ela ajuda a tornar concreta a pergunta que estamos fazendo.
Se o currículo for organizado principalmente a partir daquilo que o trabalhador precisa executar agora, o que acontece com conhecimentos cuja utilidade não é imediatamente visível?
Competência para quê?
A palavra competência, sozinha, não resolve a discussão.
Ser competente é obviamente desejável. O problema está no significado atribuído a ela.
Compare duas situações.
Situação A
O estudante aprende a executar corretamente determinado procedimento porque aquela operação será exigida no trabalho.
Situação B
O estudante aprende o procedimento, seus fundamentos, seus limites e as razões pelas quais determinada solução técnica foi adotada.
Nos dois casos existe competência.
Mas o segundo oferece algo a mais: capacidade de compreender o processo e agir quando ele muda.
E processos mudam.
Tecnologias eliminam tarefas, criam outras e alteram qualificações profissionais. Isso aparece claramente na discussão sobre Inteligência Artificial no Mercado de Trabalho: ameaça ou oportunidade?
Há uma ironia aí.
Uma formação excessivamente preocupada em adaptar o estudante às exigências imediatas do mercado pode prepará-lo muito bem para um mercado que já está mudando.
E o professor? Ainda precisa ensinar?
Precisa.
Mas ensinar não significa transformar o estudante em recipiente.
Um professor pode explicar, demonstrar, questionar, organizar problemas, propor experiências, corrigir, provocar comparações e orientar pesquisas.
Tudo isso é ensino.
O que não parece razoável é imaginar que colocar o estudante no centro da aprendizagem exija colocar o professor fora dela.
- Há conhecimentos que o estudante dificilmente descobrirá sozinho.
- Há erros conceituais que precisam ser identificados.
- Há relações entre fenômenos que dependem de repertório.
- Há perguntas que só aparecem depois que alguém apresenta algo que o estudante ainda não conhece.
O professor não precisa escolher entre ensinar e promover autonomia.
Uma das finalidades do ensino pode ser justamente criar as condições para que a autonomia intelectual cresça.
Adaptação também é necessária
Aqui cabe outro cuidado.
Adaptar-se não é um defeito.
Um profissional precisa aprender novas ferramentas, lidar com mudanças e rever conhecimentos. Ser incapaz de adaptação seria uma péssima preparação para quase qualquer profissão.
O problema aparece quando adaptação vira horizonte final da formação.
A diferença pode ser resumida assim:
- adaptar-se é conseguir atuar diante de uma mudança;
- compreender é também conseguir perguntar por que ela aconteceu, o que ela modifica e se existem outras possibilidades.
A EPT precisa da primeira capacidade.
Mas pode oferecer a segunda.
Formar para o trabalho sem reduzir a formação ao trabalho imediato
Chegamos, então, à tensão que atravessa este último texto da série.
O estudante precisa sair da EPT sabendo fazer coisas. Isso não está em discussão.
Mas pode sair também sabendo:
- por que faz;
- como aquilo se tornou necessário;
- que conhecimento sustenta a prática;
- o que muda quando a tecnologia muda;
- como avaliar outra solução;
- quando um procedimento precisa ser questionado.
É aí que a diferença entre formação e adaptação fica mais visível.
Aprender a aprender continua sendo importante. Aprender conteúdos também.
Resolver problemas importa. Ensinar também.
A dificuldade começa quando uma dessas ideias precisa desaparecer para que a outra pareça moderna.
Fechando a série: quatro maneiras de estreitar a formação
Ao longo destes quatro textos, vimos quatro riscos diferentes:
- Quando tecnologia vira destino, o estudante aprende a seguir a máquina.
- Quando decisões técnicas parecem neutras, suas finalidades deixam de ser discutidas.
- Quando trabalho vira apenas tarefa, desaparecem experiência, interpretação e atividade humana.
- Quando aprender vira apenas adaptação, o conhecimento corre o risco de valer somente por sua utilidade imediata.
Nenhum desses problemas exige abandonar tecnologia, prática profissional, competências ou autonomia.
Exige apenas colocá-las dentro de uma pergunta maior:
que tipo de profissional estamos formando quando ensinamos alguém a trabalhar?
A EPT pode preparar uma pessoa para ocupar um lugar já existente. Pode também ajudá-la a compreender o lugar que ocupa.
E essa pequena diferença muda quase tudo.
Fim da série EPT em Debate
Se conhece alguém que acha que “ensinar” virou uma palavra antiquada, compartilhe este texto. Há ideias que parecem antigas apenas porque esquecemos por que ainda são necessárias.
