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Para a Organização Internacional do Trabalho, a IA generativa tende mais a transformar empregos do que a eliminá-los, mas atinge primeiro funções administrativas, ocupadas sobretudo por mulheres. O resultado dependerá das políticas que acompanharem a tecnologia.
SÉRIE · Quem fica com os ganhos da tecnologia?
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O que a OIT diz sobre IA e emprego?
Em fevereiro de 2025, o diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho, Gilbert Houngbo, deu uma entrevista à jornalista Lisa Louis, da Deutsche Welle, sobre inteligência artificial e trabalho.
A posição dele cabe numa frase: a IA vai eliminar empregos, também vai criar outros, e o saldo depende das políticas que acompanharem a transição.
Três meses depois, a própria OIT publicou, com o instituto polonês NASK, o estudo mais detalhado até então sobre exposição de ocupações à IA generativa, com cerca de 30 mil tarefas analisadas.
Os números dão escala ao que Houngbo dizia:
- um em cada quatro empregos no mundo tem algum grau de exposição à IA generativa;
- nos países de renda alta, a proporção sobe para 34%;
- as ocupações administrativas são as mais expostas, seguidas por funções digitais em mídia, software e finanças;
- a conclusão geral é de transformação mais do que de substituição: muitas tarefas ficam mais rápidas, mas continuam exigindo gente.
Por que as mulheres são mais afetadas?
O dado que mais chama atenção no estudo é o de gênero.
Nos países de renda alta, 9,6% dos empregos ocupados por mulheres estão na faixa de exposição mais alta, contra 3,5% dos ocupados por homens.
A explicação está no tipo de função. Houngbo citou, na entrevista, os postos mais vulneráveis à automação imediata, majoritariamente femininos:
- secretariado: agendamento, organização de documentos, comunicação de rotina;
- recrutamento inicial: triagem de currículos e entrevistas preliminares;
- interpretação e tradução: já substituídas em parte por sistemas automáticos em organizações internacionais, segundo ele;
- produção de textos padronizados.
Automatizar essas funções sem requalificação direcionada tende a ampliar desigualdades que já existem.
Que risco é menos visível?
O deslocamento de empregos pela IA é gradual – e, por isso, politicamente difícil de enfrentar. Em vez de uma fábrica fechando de uma vez, há vagas que nunca chegam a ser abertas.
Houngbo apontou um segundo risco: sistemas que ajudam a decidir contratação, promoção e demissão podem reproduzir os vieses dos dados com que foram treinados.
A resposta que ele defende passa por transparência sobre os critérios desses sistemas, auditorias independentes e inclusão digital de quem ainda está fora dela.
O que muda dentro de cada função, tarefa a tarefa, é assunto de outro texto do blog, sobre inteligência artificial no trabalho. Aqui a escala é a do mercado.
O que a OIT propõe?
A missão da organização, segundo Houngbo, é equilibrar inovação e proteção social e impedir que a IA seja guiada apenas pelo ganho econômico. As propostas centrais:
- redução de jornada: usar parte dos ganhos de produtividade para diminuir horas de trabalho sem corte de salário;
- diálogo social: acordos entre governos, empresas e sindicatos sobre regulação e investimento;
- formação: requalificação antes da perda do posto, e não depois;
- transparência algorítmica: auditorias para sistemas usados em decisões sobre pessoas.
Repare que a primeira proposta retoma, quase um século depois, a aposta de Keynes discutida no texto sobre tecnologia e tempo: produtividade convertida em tempo livre.
A história mostra que essa conversão nunca foi automática.
O que isso significa para o Brasil?
O índice da OIT mede exposição por ocupação, e a estrutura do emprego de cada país muda o resultado.
No Brasil, perto de quatro em cada dez trabalhadores estão na informalidade, segundo o IBGE – muitos em atividades manuais ou de serviço presencial, menos expostas à IA generativa.
Isso reduz a exposição imediata, e está longe de ser boa notícia: significa também menor acesso aos ganhos de produtividade e à proteção social que a transição exigiria.
Os empregos administrativos formais, por outro lado, estão no grupo mais exposto – e são porta de entrada no mercado de trabalho para muitas mulheres e jovens.
Ameaça ou oportunidade?
As duas coisas, em proporções que ainda estão em disputa.
O que os dados da OIT sustentam é mais específico do que as manchetes: a exposição é ampla, a substituição total é menor do que se teme, e o impacto se concentra em funções e grupos já identificáveis.
Uma ressalva de leitura: a entrevista é de fevereiro de 2025, e o campo muda depressa. O valor dela está menos nas previsões e mais no critério – quem fica com os ganhos da automação se decide na política.
A entrevista completa está disponível no canal da Deutsche Welle.
Agora, do outro lado do balcão, a mesma pergunta aparece de outro jeito: quando o produto vira serviço e a compra vira mensalidade, quem fica com o valor?
QUEM FICA COM OS GANHOS DA TECNOLOGIA?
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