Aula interessante ajuda. Recursos visuais, jogos, histórias e tecnologia também podem ajudar. O problema começa quando prender a atenção vira objetivo maior do que ensinar. Na escola, envolvimento importa, mas precisa levar o estudante a algum lugar.
Como prender a atenção dos alunos?
É uma pergunta legítima.
Pouco adianta preparar uma excelente explicação para uma turma que não consegue acompanhá-la.
Por isso, professores procuram maneiras de tornar a aula:
- mais interessante;
- mais participativa;
- mais visual;
- mais dinâmica;
- mais próxima da experiência dos estudantes.
Nada disso é problema. A dificuldade surge quando trocamos silenciosamente a pergunta.
Em vez de:
“Como faço os estudantes se envolverem com este conhecimento?”
passamos a perguntar:
“Como faço para que eles não fiquem entediados?”
Parecem perguntas parecidas.
Pedagogicamente, não são.
Interesse e diversão podem andar juntos
Uma boa aula pode ser divertida.
Pode ter jogo, vídeo, história, competição, simulação e até algumas risadas.
E existe pesquisa mostrando benefícios.
Uma meta-análise publicada no British Journal of Educational Technology, reunindo 22 estudos experimentais, encontrou efeito positivo da gamificação sobre o desempenho acadêmico dos estudantes.
O estudo completo está em Exploring the impact of gamification on students’ academic performance.
Portanto, seria precipitado concluir:
“Se é divertido, não ensina.”
O ponto é outro.
Um recurso funciona pedagogicamente quando ajuda o estudante a prestar atenção no que precisa compreender, praticar ou resolver.
A diversão pode fazer parte disso. Só não é o critério final.
A atividade foi divertida, mas… o que ficou?
Imagine uma aula cheia de recursos.
Teve vídeo; Teve música; Teve competição; Teve memes; Teve participação.
No final, os estudantes dizem:
“Professor, essa aula foi muito boa.”
Ótimo.
Agora vem a segunda pergunta:
o que eles aprenderam?
As duas respostas podem perfeitamente ser positivas. O problema é presumir que uma garante a outra.
Essa distinção é importante porque nossa memória pode guardar muito bem aquilo que chamou atenção e, ainda assim, perder justamente o conteúdo que deveria organizar a aprendizagem.
Quando o interessante começa a atrapalhar
A psicologia da aprendizagem tem até um nome para um fenômeno relacionado: efeito dos detalhes sedutores.
São informações, imagens ou elementos interessantes que chamam atenção, mas possuem pouca relação com aquilo que deveria ser aprendido.
NarayanKripa Sundararajan e Olusola Adesope reuniram estudos sobre esse fenômeno em uma meta-análise publicada na Educational Psychology Review.
O resultado geral mostrou que incluir detalhes interessantes, porém irrelevantes, pode prejudicar a aprendizagem, embora a magnitude do efeito varie conforme o material e as condições.
A pesquisa pode ser consultada em Keep it Coherent: A Meta-Analysis of the Seductive Details Effect.
Isso produz uma regra prática muito melhor do que “deixe a aula divertida”:
Faça o recurso chamar atenção para o conteúdo, não para ele mesmo.
O problema do PowerPoint que virou árvore de Natal
É fácil reconhecer o exagero.
Animação entrando de todos os lados; Imagem decorativa; GIF piscando; Texto; Som; Vídeo.
Tudo tentando ajudar ao mesmo tempo. Só que atenção é limitada.
Quando vários elementos disputam processamento, eles podem competir justamente com aquilo que o estudante precisa compreender.
Isso conversa diretamente com Carga cognitiva: por que informação demais atrapalha a aprendizagem
Uma aula visualmente simples não é necessariamente pobre.
Às vezes, ela apenas deixou o caminho livre para a informação importante passar.
Aprender também pode dar trabalho
Outro erro é tratar qualquer dificuldade como defeito da aula.
Há momentos em que aprender envolve:
- tentar;
- errar;
- voltar;
- recuperar uma informação da memória;
- comparar respostas;
- perceber que a primeira explicação não bastou.
Isso pode ser cansativo.
Não significa que o professor deva dificultar artificialmente o conteúdo ou celebrar sofrimento acadêmico.
A dificuldade precisa ter função.
Resolver um problema que exige raciocínio é diferente de tentar adivinhar o que uma atividade mal explicada queria dizer.
Esforço produtivo e confusão desnecessária não são a mesma coisa.
Atenção não precisa ficar no máximo o tempo inteiro
Também existe uma expectativa pouco realista de que uma boa aula deveria manter todos completamente envolvidos do primeiro ao último minuto.
A atenção oscila.
Uma pessoa pode perder momentaneamente o fio, retomá-lo e continuar aprendendo. Por isso, ensinar não consiste em produzir um estímulo novo a cada sinal de distração.
Mais útil é organizar a aula para ajudar o estudante a reencontrar o caminho:
- objetivos claros;
- mudanças de atividade quando fazem sentido;
- exemplos bem escolhidos;
- perguntas;
- pausas;
- retomadas;
- sínteses.
Para entender melhor esse mecanismo, vale Atenção e aprendizagem: por que é difícil manter o foco?
Então como tornar uma aula interessante?
Talvez uma pequena mudança de critério resolva bastante coisa.
Antes de colocar um recurso, pergunte:
1. Ele aproxima do conteúdo?
Uma simulação que permite observar um fenômeno pode acrescentar muito.
Um vídeo engraçado sem relação clara talvez acrescente apenas um vídeo engraçado.
2. Ele exige alguma ação intelectual?
O estudante precisa comparar, decidir, explicar, prever ou resolver?
Ou apenas assistir?
3. Ele deixa mais claro aquilo que era difícil?
Uma boa imagem pode substituir vários parágrafos.
Uma imagem decorativa pode apenas ocupar espaço.
4. O estudante lembrará do conceito ou somente da atividade?
Se todo mundo se recorda do jogo, mas ninguém sabe explicar o que estava sendo estudado, alguma coisa se perdeu pelo caminho.
A escola não precisa competir com o entretenimento
Esse talvez seja o erro de partida.
Uma série, um jogo e uma rede social são construídos principalmente para conquistar e manter atenção.
A escola tem outra obrigação.
Ela precisa ajudar alguém a encontrar conhecimentos que, muitas vezes, ainda não parecem interessantes porque ainda não foram compreendidos.
E há uma ironia importante nisso. O interesse também pode aparecer depois da compreensão.
Um assunto que parecia árido começa a fazer sentido. Uma ideia conecta outras. Um problema antes incompreensível finalmente se abre.
Nesse momento, ninguém precisou colocar confete no conteúdo. O conhecimento ficou interessante porque começou a revelar alguma coisa.
Ensinar pode ser interessante sem virar espetáculo
Uma boa aula pode ser viva, criativa, bem-humorada e participativa. Pode usar toda tecnologia que faça sentido.
Só precisa conservar uma pergunta de controle:
isso está ajudando o estudante a aprender ou apenas ajudando a aula a parecer interessante?
Nem sempre será fácil separar as duas coisas. Mas vale tentar.
A escola não precisa fabricar tédio para provar que é séria. Também não precisa eliminar toda dificuldade para provar que é boa.
Uma aula pode prender a atenção. Mas o importante é saber onde se quer chegar.
Se conhece alguém tentando fazer uma boa aula sem precisar disputar audiência com um show de variedades, compartilhe este texto. Atenção é valiosa demais para não apontar para alguma coisa.
