Neuromitos: 5 mitos sobre o cérebro e a aprendizagem

Ideias sobre o cérebro ganham facilmente aparência de ciência. Algumas chegam à escola, aos cursos e às redes sociais como recomendações para aprender melhor. O problema começa quando descobertas reais são simplificadas até sustentarem conclusões que as pesquisas nunca demonstraram.


O que são neuromitos?

Neuromitos são ideias equivocadas sobre o cérebro que geralmente surgem de interpretações distorcidas, simplificadas ou extrapoladas de conhecimentos científicos.

Na educação, eles podem parecer especialmente convincentes porque combinam termos da neurociência com situações familiares: alunos diferentes, dificuldades para aprender, memória, atenção e desempenho.

Uma ampla revisão sobre neurociência e educação publicada na Nature Reviews Neuroscience mostrou que essas crenças persistem entre educadores de diferentes países e podem acabar justificando práticas sem sustentação científica.

O problema não está em aproximar neurociência e educação. Está em transformar uma descoberta sobre o cérebro em uma receita pedagógica antes que exista evidência para fazer essa passagem.

Alguns exemplos mostram como isso acontece.

1. “Cada pessoa aprende melhor pelo seu estilo de aprendizagem”

É provavelmente um dos neuromitos educacionais mais persistentes.

A ideia costuma dividir estudantes em categorias como visuais, auditivos e cinestésicos.

Depois de identificar o suposto estilo predominante, o professor deveria adaptar a forma de ensinar: imagens para o aluno visual, explicações faladas para o auditivo, atividades práticas para o cinestésico.

Pessoas certamente possuem preferências.

Alguém pode gostar mais de vídeos do que de textos ou preferir estudar ouvindo uma explicação.

O salto problemático acontece quando essa preferência passa a ser tratada como uma característica cognitiva que determina como aquela pessoa aprende melhor.

Essa hipótese exige algo bastante específico: um estudante classificado como visual deveria aprender melhor quando recebe conteúdo visual do que quando recebe o mesmo conteúdo em outra modalidade; com estudantes auditivos, deveria acontecer o inverso.

As pesquisas não oferecem apoio consistente a esse efeito.

Uma meta-análise publicada em 2024 reuniu estudos que compararam ensino compatível e incompatível com estilos de aprendizagem baseados em modalidades.

Os resultados não sustentaram a ideia de que adequar a instrução à preferência sensorial produza a vantagem educacional prometida por essa abordagem.

Isso não significa ensinar tudo da mesma maneira.

O formato deve acompanhar o conteúdo e o objetivo da aprendizagem.

Geometria pode exigir representações visuais; pronúncia de uma língua exige ouvir sons; uma habilidade motora precisa ser praticada.

A escolha da representação faz sentido quando decorre daquilo que está sendo aprendido, e não de um rótulo atribuído ao estudante.

2. “Algumas pessoas usam mais o lado esquerdo; outras, o direito”

A divisão é sedutora.

Pessoas “de cérebro esquerdo” seriam lógicas, analíticas e boas com números. As “de cérebro direito” seriam criativas, intuitivas e artísticas.

Existe uma parcela de ciência por trás dessa história: algumas funções apresentam lateralização cerebral.

Certos aspectos da linguagem, por exemplo, costumam recrutar mais intensamente regiões de um hemisfério, enquanto determinadas tarefas visuoespaciais podem apresentar outros padrões de lateralização.

Isso está muito distante, porém, de dividir pessoas inteiras em dois tipos de cérebro.

Um estudo com imagens cerebrais de mais de mil participantes analisou redes lateralizadas procurando evidências de indivíduos globalmente mais “esquerdos” ou “direitos”.

Os pesquisadores não encontraram suporte para essa classificação geral.

Os hemisférios trabalham continuamente de forma integrada.

Criatividade, raciocínio, linguagem e resolução de problemas dependem de redes distribuídas, e não de uma disputa em que metade do cérebro assume o controle conforme a personalidade de cada pessoa.

Na educação, rotular um estudante como “mais hemisfério direito” ou “mais hemisfério esquerdo” acrescenta uma explicação aparentemente científica sem oferecer uma estratégia útil para ensinar melhor.

3. “Usamos apenas 10% do cérebro”

É difícil saber exatamente como esse número se tornou tão popular, mas a afirmação sobrevive há décadas.

Segundo o mito, utilizaríamos apenas uma pequena fração do cérebro, enquanto os outros 90% permaneceriam como um potencial oculto esperando ser ativado.

Não existe evidência para isso.

Diferentes regiões cerebrais têm funções distintas e seus níveis de atividade variam conforme aquilo que fazemos.

Isso significa que nem todo o cérebro trabalha com a mesma intensidade ao mesmo tempo, algo bastante diferente de manter 90% dele permanentemente sem utilização.

Técnicas de neuroimagem mostram atividade distribuída por inúmeras regiões até durante tarefas simples e durante o repouso.

Lesões relativamente localizadas também podem comprometer funções específicas, o que seria difícil de explicar caso enormes áreas fossem simplesmente dispensáveis.

O mito costuma sobreviver porque oferece uma promessa atraente: haveria uma reserva gigantesca de capacidade mental que alguma técnica poderia desbloquear.

A ideia combina muito bem com propagandas.

Com a neurociência, nem tanto.

Como vimos no texto sobre neuroplasticidade, o cérebro realmente pode mudar com aprendizagem e experiência.

Isso, porém, não depende da existência de áreas adormecidas esperando para entrar em funcionamento.

4. “Ouvir Mozart deixa uma pessoa mais inteligente”

O chamado efeito Mozart começou com uma descoberta muito mais modesta do que a versão que se popularizou.

Em 1993, um pequeno estudo encontrou melhora temporária em uma tarefa de raciocínio espacial depois que participantes ouviram uma composição de Mozart.

A notícia percorreu um caminho conhecido: de uma diferença momentânea em uma tarefa específica para a ideia de que ouvir música clássica aumentaria a inteligência.

Quando resultados posteriores foram reunidos, essa interpretação ampla não se sustentou.

Uma meta-análise publicada na Nature concluiu que as evidências não justificavam interpretar o chamado efeito Mozart como aumento da inteligência geral.

Isso não torna a música irrelevante.

Música pode alterar humor, nível de ativação, prazer e concentração, e seus efeitos também dependem da tarefa realizada.

O problema aparece quando um efeito circunstancial é convertido em uma espécie de exercício cognitivo capaz de elevar o QI.

A pergunta sobre música durante os estudos é outra, e merece tratamento próprio: estudar ouvindo música pode ajudar ou atrapalhar dependendo da situação.

5. “Depois de certa idade, é tarde demais para aprender outra língua”

Aqui o mito é especialmente interessante porque sua correção também pode virar simplificação.

Existe relação entre idade de aquisição e aprendizagem de línguas.

Crianças que começam cedo possuem vantagens importantes, sobretudo quando pensamos na possibilidade de atingir níveis próximos aos de falantes nativos.

Isso não transforma a infância em uma porta que se fecha e torna a aprendizagem posterior impossível.

Um grande estudo publicado em Cognition analisou dados de centenas de milhares de participantes e encontrou efeitos claros da idade na aprendizagem gramatical.

Ao mesmo tempo, os resultados indicaram que a capacidade de aprender permanece elevada por mais tempo do que algumas versões tradicionais da ideia de “período crítico” sugeriam.

Adultos, portanto, continuam aprendendo línguas.

O que muda com a idade são as condições, a velocidade, alguns mecanismos envolvidos e a probabilidade de alcançar determinados níveis de proficiência.

Dizer que “a idade não importa” seria tão impreciso quanto afirmar que “depois da infância não se aprende mais”.

Esse exemplo mostra bem por que combater neuromitos exige mais do que substituir uma frase falsa por outra frase absoluta.

Por que neuromitos são tão convincentes?

Muitos deles possuem um núcleo verdadeiro.

O cérebro apresenta lateralização, mas isso não divide pessoas em “esquerdas” e “direitas”.

Estudantes possuem preferências, mas isso não demonstra que aprendam melhor quando o ensino corresponde a um suposto estilo sensorial.

A idade influencia a aprendizagem de línguas, mas adultos continuam capazes de aprender.

Experiências modificam o cérebro, mas isso não significa que tenhamos 90% de capacidade cerebral aguardando uma técnica para ser desbloqueada.

É justamente essa proximidade com fatos reais que torna alguns neuromitos difíceis de reconhecer.

Há ainda outro ingrediente poderoso: uma explicação acompanhada de palavras como neurônio, hemisfério, córtex ou neuroplasticidade pode parecer mais científica mesmo quando esses termos não acrescentam evidência ao argumento.

Na educação, isso merece atenção porque uma explicação sobre o cérebro pode acabar sendo utilizada para prescrever métodos de ensino.

Como desconfiar de uma explicação “baseada no cérebro”

Não é necessário ser neurocientista para fazer algumas perguntas úteis.

Uma recomendação educacional afirma que determinada estratégia “ativa o cérebro”? Vale perguntar o que exatamente foi medido.

O argumento menciona uma região cerebral e, em seguida, recomenda um método de ensino? É preciso verificar se existe evidência de que uma coisa realmente leva à outra.

A proposta divide pessoas em tipos fixos — visual, auditivo, esquerdo, direito? Rótulos simples merecem atenção redobrada quando tentam explicar processos cognitivos complexos.

Também ajuda observar o tipo de fonte utilizada.

Uma afirmação sustentada por experimentos replicados, revisões e meta-análises tem um peso diferente de uma ideia repetida em cursos, infográficos ou livros de divulgação.

Neurociência pode contribuir para a educação?

Pode, desde que não precisemos fingir que cada decisão pedagógica exige uma imagem do cérebro para ser válida.

Pesquisas sobre memória, atenção, sono, desenvolvimento e aprendizagem ajudam a compreender processos importantes para a educação.

Ao mesmo tempo, muitas perguntas sobre como ensinar são respondidas de maneira mais direta pela psicologia cognitiva e pela própria pesquisa educacional.

É o caso de estratégias como prática de recuperação e repetição espaçada: seu valor depende principalmente das evidências de aprendizagem e retenção observadas nos estudantes.


Saber o que aconteceu no cérebro pode ampliar nossa compreensão do fenômeno.

Para decidir se uma estratégia funciona, porém, ainda precisamos olhar para aquilo que as pessoas conseguiram aprender, lembrar e fazer.


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