Motivar importa. Entusiasmo, acolhimento e encorajamento podem ajudar. O problema começa quando ensinar vira palestra motivacional e dificuldades educacionais são traduzidas apenas como falta de atitude ou mindset. O professor influencia a motivação, mas sua função não termina em inspirar.
Professor precisa motivar os alunos?
Em alguma medida, sim.
A maneira como o professor organiza a aula, apresenta o conteúdo, oferece feedback e se relaciona com os estudantes pode influenciar o envolvimento deles.
O problema começa quando essa ideia ganha uma versão muito maior:
“O bom professor é aquele que consegue motivar qualquer aluno.”
A frase parece elogiosa.
Também entrega ao professor uma responsabilidade impossível.
Um estudante não chega à sala como uma folha em branco esperando alguém apertar o botão da motivação.
Ele traz experiências anteriores, expectativas, dificuldades, interesses e condições que ultrapassam aquela aula.
Como vimos em Aluno desmotivado: por que isso acontece e o que o professor pode fazer?, motivação é um fenômeno muito mais complexo do que simplesmente “querer” ou “não querer” aprender.
Então por que falar em professores e coaches?
Porque existe uma diferença importante entre ensinar alguém e motivar alguém a perseguir seus objetivos.
No campo educacional, entretanto, essas fronteiras nem sempre permanecem claras.
Renata Scherer e Patrícia Graff analisaram publicações brasileiras que defendiam a incorporação do coaching à atuação docente.
As autoras identificaram nesses discursos uma transformação do professor em figura mais próxima de tutor, facilitador ou coach, com forte valorização de autonomia, desempenho, autorresponsabilização e desenvolvimento individual.
A crítica das pesquisadoras é que esse deslocamento pode reduzir a centralidade do ensino como função docente.
O estudo está disponível em Professor, tutor ou coach? Reflexões sobre a docência em um contexto de capitalismo flexível e emocional.
É uma interpretação teórica específica, não uma sentença definitiva sobre qualquer prática chamada coaching.
Mas coloca uma pergunta muito boa:
o que acontece quando motivar começa a ocupar o lugar de ensinar?
O risco de explicar tudo pela atitude
Imagine um estudante que não consegue acompanhar determinada disciplina.
Há muitas possibilidades:
- faltam conhecimentos anteriores;
- a sequência didática não funcionou;
- a tarefa está mal dimensionada;
- o estudante pouco se dedicou;
- existem dificuldades fora da escola;
- a avaliação não está mostrando onde está o problema.
Agora troque tudo isso por:
“Ele precisa mudar o mindset.”
Ganhamos uma frase curta.
Perdemos quase toda a explicação.
Esse é um dos riscos de importar indiscriminadamente para a educação uma linguagem construída em torno de performance individual, atitude e superação.
Reconhecer responsabilidade pessoal é importante. Transformá-la na explicação para tudo é outra coisa.
Mas entusiasmo do professor importa
Aqui cabe um contraponto importante.
Criticar o professor transformado em palestrante motivacional não significa defender uma docência fria.
Há evidência de que entusiasmo pode ajudar.
Em um experimento com 369 crianças de 9 a 12 anos, pesquisadores da Universidade de Salamanca compararam apresentações feitas com níveis diferentes de entusiasmo docente.
As crianças expostas à condição de maior entusiasmo apresentaram maior motivação intrínseca e, naquele experimento, melhor desempenho nas atividades.
Os próprios autores alertam que a relação entre entusiasmo e aprendizagem encontrada na literatura é mais complexa do que uma cadeia simples do tipo “professor animado = aluno aprende mais”.
O estudo pode ser consultado em Effects of Teacher Enthusiasm and Type of Text on the Motivation and Achievement of Schoolchildren.
A distinção é fundamental:
entusiasmo pode melhorar o ensino. Entusiasmo não substitui o ensino.
Um professor pode demonstrar paixão por História e ainda precisar escolher bons documentos, explicar conceitos e corrigir interpretações.
Pode transmitir enorme energia em uma aula de Radiologia e ainda precisar ensinar física das radiações, segurança e procedimentos.
Pode encorajar uma turma diante de um problema difícil e, cinco minutos depois, perceber que o que falta não é confiança.
Falta explicar outra vez.
Incentivar não é prometer que tudo depende de você
Há mensagens que fazem bem:
“Você ainda não conseguiu.”
“Vamos descobrir onde está a dificuldade.”
“Essa primeira parte você já domina.”
“Tente por este caminho.”
Isso é muito diferente de:
“Se você quiser de verdade, consegue qualquer coisa.”
A primeira forma de incentivo está ligada ao processo concreto de aprendizagem. A segunda faz uma promessa que a escola não tem condições de cumprir.
Esforço importa, mas resultados não dependem exclusivamente dele.
Ensinar responsabilidade não exige fingir que condições sociais, oportunidades, conhecimentos anteriores e circunstâncias pessoais deixaram de existir.
O professor tem algo que o coach não precisa ter
Um professor de uma área precisa dominar aquilo que ensina e desenvolver conhecimento pedagógico para tornar esse conteúdo ensinável.
Precisa decidir:
- o que apresentar primeiro;
- que explicação usar;
- quais exemplos ajudam;
- que erros precisam ser corrigidos;
- como verificar se houve aprendizagem;
- quando avançar e quando voltar.
Esse é um trabalho especializado.
Em O que é pedagogia? Por que ensinar exige mais do que saber o conteúdo, discutimos justamente por que conhecer um assunto e conseguir ensiná-lo não são a mesma competência.
A boa docência pode incluir escuta, acolhimento, entusiasmo e incentivo.
Só não termina aí.
E coaching na educação é sempre ruim?
Também não.
A palavra coaching é utilizada na literatura educacional para práticas muito diferentes.
Existe, por exemplo, coaching instrucional, no qual um professor recebe observação, feedback e acompanhamento para desenvolver sua própria prática profissional.
Isso é bastante diferente de dizer que o professor deve assumir diante dos alunos a identidade de coach motivacional.
Portanto, o problema deste texto não é uma palavra estrangeira de oito letras.
É a substituição de uma função por outra.
O que o professor pode fazer pela motivação?
Bastante coisa, sem precisar virar coach.
Pode:
- tornar os objetivos mais claros;
- organizar desafios possíveis;
- explicar o sentido do conteúdo;
- oferecer feedback;
- mostrar progresso;
- criar espaço para participação;
- demonstrar entusiasmo genuíno;
- ajudar o estudante a perceber onde está errando.
E, sobretudo, pode fazer aquilo para que foi profissionalmente preparado:
ensinar melhor.
Às vezes, a melhor intervenção motivacional não será uma frase marcante.
Será uma explicação que finalmente funcionou.
Um exercício que parecia impossível e deixou de parecer.
Um conceito que encaixou.
A experiência concreta de perceber:
“Agora eu entendi.”
Professor pode inspirar. Só não é essa a profissão.
Alguns professores marcam profundamente a vida dos estudantes.
Inspiram escolhas profissionais, despertam curiosidade e aumentam a confiança de quem estava quase desistindo.
Nada disso precisa ser diminuído.
O problema surge quando transformamos essas qualidades desejáveis na definição da docência.
Professor pode motivar. Pode acolher. Pode inspirar.
Mas também precisa ensinar, avaliar, explicar, organizar conhecimento e corrigir.
A escola não precisa escolher entre conhecimento e humanidade.
Precisa apenas evitar que uma boa frase sobre potencial humano ocupe o espaço onde deveria haver uma boa aula.
Inspiração abre portas. Mas alguém ainda precisa ensinar o que existe do outro lado.
Se conhece alguém que vive a difícil tarefa de motivar sem transformar a sala em palestra, compartilhe este texto. Professor pode inspirar muito sem precisar mudar de profissão.
