Machado de Assis e a ciência: o que o autor de O Alienista pensava dos cientistas?

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Machado de Assis nunca cursou faculdade e passou a vida rindo de doutores. O Alienista, o Humanitismo e o Medalhão mostram um pensador que desconfiava de quem usava a ciência e o diploma como verniz.


Rio de Janeiro, 1881. No mesmo ano, a cidade ganha a Igreja Positivista do Brasil, que transformava as ideias do francês Auguste Comte numa religião da ciência, e lê na revista A Estação os primeiros capítulos de O Alienista.

O autor tinha 42 anos, era funcionário público, neto de escravizados libertos e não tinha diploma nenhum. Enquanto boa parte dos intelectuais do país jurava que a ciência ia explicar tudo, do crime à loucura, ele publicava a história de um médico que interna quase a cidade inteira em nome do método.

Machado escrevia romances, contos e crônicas. E foi nessas páginas que ele pensou, com uma clareza rara no Brasil, sobre o que acontece quando a ciência vira autoridade. É por isso que ele tem lugar entre pensadores e cientistas.

Quem foi Machado de Assis: resumo rápido

  • Nasceu: em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro.
  • Morreu: em 29 de setembro de 1908, no Rio, aos 69 anos.
  • Formação: nenhuma faculdade. Foi tipógrafo, revisor, jornalista e funcionário público, e aprendeu o resto lendo.
  • Área: romance, conto, crônica e crítica.
  • Cargo mais famoso: fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897.
  • A ideia que deixou: desconfiar de quem fala em nome da ciência, ou do diploma, sem ter o que mostrar.
  • Por onde começar: O Alienista (1882).

Machado de Assis era contra a ciência?

Não, e essa é a confusão mais comum sobre O Alienista. Machado lia muito, acompanhava os debates científicos pelos jornais e conhecia as teorias da moda o bastante para parodiá-las com precisão. O que ele ridicularizava era o cientificismo: a crença de que a ciência resolve qualquer questão humana e de que quem fala em nome dela está acima de contestação.

Repare no Simão Bacamarte. Estudou em Coimbra e Pádua, é rigoroso, coleta dados, classifica casos. Tudo o que se espera de um cientista. O problema é a teoria dele, que explica qualquer resultado: primeiro, louco é quem foge do equilíbrio; depois, louco é quem é equilibrado demais.

Uma teoria que explica qualquer resultado acaba não dizendo nada. Meio século depois, Karl Popper transformaria essa intuição num critério para separar ciência de pseudociência. Machado chegou lá pela ironia.

Que ciência estava na moda no Brasil de Machado?

A partir da década de 1870, como escreveu o crítico Sílvio Romero, “um bando de ideias novas” chegou ao Brasil de uma vez. Três delas aparecem o tempo todo na obra de Machado:

  • o positivismo: a filosofia de Comte, que via a ciência como a etapa final do pensamento humano. Por aqui, virou igreja e acabou no lema da bandeira republicana de 1889, como conta o post sobre o positivismo;
  • o darwinismo social: a leitura de Herbert Spencer e outros que aplicava a seleção natural à sociedade e tratava a desigualdade como lei da natureza, uma deturpação das ideias de Charles Darwin;
  • a psiquiatria: o Hospício de Pedro II, o primeiro do país, abriu no Rio em 1852, e os médicos passaram a disputar com a Igreja e a polícia o poder de dizer quem era louco.

O que essas ideias tinham em comum era a promessa de explicar a sociedade inteira por uma lei só. E a herança dessa psiquiatria durou: décadas depois, Nise da Silveira enfrentaria os eletrochoques e as lobotomias dentro de um hospital que ainda levava o nome de Pedro II. E, em 1904, a ciência imposta de cima levaria o Rio à Revolta da Vacina.

O que é bacharelismo e por que Machado o criticava?

Bacharelismo é o nome dado ao prestígio exagerado do diploma no Brasil do século XIX, sobretudo o de Direito. No Império, o título de bacharel abria as portas da política, do emprego público e dos bons casamentos. O que a pessoa sabia de fato pesava menos que o anel de grau no dedo.

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (1936), trata esse apego ao título de doutor como um traço da formação do país, ligado ao desejo de ter prestígio sem precisar de trabalho manual. Machado, que nunca teve diploma, olhava para isso de fora, e com ironia. Dois personagens mostram bem:

  • Brás Cubas volta de Coimbra bacharel depois de anos de farra, e ele mesmo admite, nas Memórias Póstumas, que trouxe da universidade o diploma e pouco mais;
  • o medalhão, da Teoria do Medalhão, é o bacharelismo levado ao extremo: subir pelo título, pelas frases feitas e pelos jantares, sem ideia própria nenhuma.

Repare que bacharelismo e cientificismo são o mesmo vício por dois caminhos. Nos dois casos, o verniz do saber vale mais que o saber. E a pergunta sobre diploma e formação de verdade continua viva no post faculdade ainda vale a pena?.

O que é o Humanitismo de Quincas Borba?

É a filosofia inventada por Quincas Borba, colega de escola de Brás Cubas que vira mendigo, herda uma fortuna e se declara filósofo. Ele aparece nas Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e no romance Quincas Borba (1891).

O Humanitismo mistura Comte e darwinismo social numa doutrina só. Tudo o que existe é Humanitas, e a dor, a guerra e a fome são apenas Humanitas se ajustando. O exemplo mais famoso é o das batatas: duas tribos famintas disputam um campo que só alimenta uma delas. Se dividirem, morrem as duas. Então uma extermina a outra, come as batatas e sobrevive. Daí a fórmula: “Ao vencedor, as batatas.”

É a seleção natural transformada em moral, em que quem venceu tinha razão de vencer. Machado põe essa teoria na boca de um homem que termina louco e deixa o leitor tirar a conclusão. O artigo Paródias à ciência: ironias machadianas, da revista Ciência & Trópico, da Fundação Joaquim Nabuco, analisa essa paródia em detalhe.

Como os contos de Machado mostram essa crítica?

Nos contos, Machado ataca o mesmo vício por ângulos diferentes:

  1. O Alienista: o método sem limite, com um médico que transforma a cidade em laboratório;
  2. A Causa Secreta: o motivo por trás do cuidado, com a medicina como lugar perfeito para quem sente prazer com a dor alheia;
  3. O Espelho: uma teoria da alma quase duas décadas antes de Freud, em que a pessoa depende do olhar dos outros para existir;
  4. Teoria do Medalhão: o verniz de saber, ensinado de pai para filho.

Os quatro estão em domínio público. O Alienista, O Espelho e a Teoria do Medalhão saíram juntos em Papéis Avulsos (1882), que a Biblioteca Nacional disponibiliza de graça, em versão digital. Dá para ler os três numa tarde.

Mais de um século depois, o charlatão de jaleco e o figurão de diploma continuam por aí. E Machado continua sendo um dos melhores guias para reconhecer os dois.


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