A frase no centro da bandeira brasileira resume uma filosofia inteira. Auguste Comte queria uma sociedade guiada pela ciência, e o Brasil republicano levou a ideia mais a sério que a própria França.
Quatro dias depois da Proclamação da República, em 19 de novembro de 1889, o governo provisório publicou o Decreto nº 4, que adotava a nova bandeira.
No centro, sobre o céu do Rio de Janeiro na manhã de 15 de novembro, duas palavras: Ordem e Progresso.
O lema saiu de uma frase do filósofo francês Auguste Comte: o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim. O amor ficou de fora. O desenho foi feito por positivistas convictos, como Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos.
O que é positivismo?
O positivismo é a filosofia criada por Auguste Comte (1798–1857), exposta principalmente no Curso de Filosofia Positiva, publicado entre 1830 e 1842.
As ideias centrais cabem numa lista curta:
- só a observação gera conhecimento seguro: vale o que pode ser verificado nos fatos e nas leis que os ligam;
- perguntas sobre causas últimas ficam de fora: a ciência descreve como as coisas acontecem e põe de lado o porquê final;
- a ciência serve de modelo para tudo: inclusive para entender e organizar a sociedade;
- a sociedade também tem leis: Comte criou a palavra “sociologia” para a ciência que as estudaria.
Comte também propôs uma hierarquia das ciências, da mais simples à mais complexa: matemática, astronomia, física, química, biologia e sociologia.
O que é a lei dos três estados?
Para Comte, o pensamento humano passa por três estados, tanto na história da humanidade quanto na vida de cada pessoa:
- teológico: os fenômenos são explicados por deuses e forças sobrenaturais;
- metafísico: os deuses dão lugar a forças abstratas e essências;
- positivo: a explicação vem de leis observáveis e testáveis.
Um raio, por exemplo, foi arma de Zeus, depois manifestação de uma força oculta da natureza e, por fim, descarga elétrica. A passagem do mito para a explicação natural é contada no texto sobre como surgiu a ciência.
Por que Ordem e Progresso está na bandeira do Brasil?
No fim do Império, o positivismo tinha muitos seguidores entre militares e engenheiros. Benjamin Constant, professor da Escola Militar e um dos articuladores da República, era um deles.
No Rio de Janeiro, Miguel Lemos e Teixeira Mendes fundaram a Igreja Positivista do Brasil, ligada à Religião da Humanidade que Comte propôs no fim da vida. O Templo da Humanidade, sede da igreja, ainda existe no bairro da Glória. A disposição das estrelas da bandeira foi calculada pelo astrônomo Manuel Pereira Reis, e cada uma representa um estado.
O positivismo também influenciou a política. A Constituição do Rio Grande do Sul de 1891, escrita sob Júlio de Castilhos, seguiu a ideia comtiana de um governo forte, conduzido por quem domina a ciência social.
E aqui vale prestar atenção no contraste. Na França, a religião positivista de Comte ficou restrita a um grupo pequeno. No Brasil, a filosofia dele chegou ao símbolo mais visível do país.
Positivismo e positivismo lógico são a mesma coisa?
Os nomes se parecem, e as correntes são diferentes. O positivismo lógico surgiu no Círculo de Viena, nos anos 1920 e 1930, com filósofos como Moritz Schlick e Rudolf Carnap. O grupo se reunia em Viena até que a ascensão do nazismo espalhou seus integrantes pela Europa e pelos Estados Unidos.
Eles herdaram de Comte a confiança na ciência e acrescentaram a lógica moderna. A tese central era o verificacionismo: só tem sentido a afirmação que pode ser verificada pela experiência.
Foi contra essa tese que Karl Popper propôs a falseabilidade como critério da ciência.
Quais são as críticas ao positivismo?
O positivismo influenciou a ciência e a educação por mais de um século, e recebeu críticas de várias direções:
- a verificação não basta: Popper mostrou que nenhuma quantidade de casos confirma uma lei geral;
- a ciência tem história: Thomas Kuhn mostrou que os cientistas trabalham dentro de paradigmas, que mudam por rupturas;
- o senso comum invade os fatos: Gaston Bachelard apontou que a observação já vem carregada de ideias prévias, os obstáculos epistemológicos;
- a neutralidade é ilusória: a Escola de Frankfurt criticou a ciência tratada como neutra quando serve a interesses de poder.
No Brasil, há ainda a crítica política: a confiança numa elite técnica justificou governos autoritários. O verbete sobre Auguste Comte da Stanford Encyclopedia of Philosophy ajuda a separar a filosofia original das apropriações que vieram depois. Ainda assim, a confiança de Comte na observação ajudou a consolidar as ciências sociais como campo de pesquisa.
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