A ciência surgiu quando a pergunta sobre o mundo trocou de endereço: saiu dos deuses e foi para a matéria. Essa passagem tem raízes no xamã, intérprete da natureza, e ganha forma com os filósofos gregos de Mileto.
Há vinte ou trinta mil anos, um bando de caçadores-coletores atravessa uma planície quando o céu escurece. Raios caem perto, o vento derruba árvores, a chuva apaga o fogo. Ninguém ali tem como prever a tempestade nem se proteger dela. Resta o medo, e a necessidade de dar sentido ao que acontece.
É desse ponto que Marcelo Gleiser parte, no curso Pense Como Cientista, para contar a origem do pensamento científico. A história começa muito antes dos laboratórios, na relação dos primeiros grupos humanos com uma natureza que dava alimento e abrigo e, sem aviso, destruía.
O xamã, intérprete da natureza
Diante de forças que não controlavam, os grupos humanos criaram divindades para o raio, o vulcão, as águas e o sol. Com os deuses vieram os rituais, as oferendas e as narrativas que explicavam o mundo e uniam a comunidade. No centro disso estava o xamã, a pessoa capaz de interpretar os sinais da natureza e traduzi-los para os demais. Os mitos de criação cumpriam papel parecido: contavam de onde vinha o mundo e qual era o lugar de cada um nele.
Gleiser vê no xamã a raiz da função que a ciência herdaria: traduzir o desconhecido em algo compreensível. O xamã não precisa ser tratado como degrau inferior de uma escada que termina no cientista. Seu saber é outro, com critérios próprios, como mostra o post sobre a filosofia do povo Galibi-Marworno. O que a ciência fez foi dar a essa tradução um método diferente.
Como surgiu a ciência: Tales e a pergunta sobre a matéria
Por volta de 600 a.C., em Mileto, cidade grega na costa da atual Turquia, Tales fez uma pergunta sem deuses: de que o mundo é feito? Respondeu que tudo vinha da água, substância que muda de estado, nutre a vida e circula entre mar, nuvem e chuva.
A resposta estava errada. A pergunta, porém, mudou o jogo. A mitologia dizia que o Sol cruzava o céu na carruagem do deus Hélio. Os milésios passaram a procurar mecanismos. Anaximandro, discípulo de Tales, também teria desenhado o primeiro mapa do mundo conhecido e imaginou rodas de fogo girando em torno da Terra, cobertas por uma casca opaca; o Sol seria a luz escapando por um orifício numa delas. Parece ingênuo, e é o primeiro modelo mecânico do céu de que se tem notícia.
A dialética, um laboratório sem laboratório
Sem experimentos, os gregos testavam ideias pela discussão. Cada discípulo procurava a falha no argumento do mestre e propunha outro melhor. A sequência de Mileto mostra o método:
- Tales: tudo vem da água, a substância da transformação.
- Anaximandro: a água é concreta demais. A origem de tudo é o ápeiron, o ilimitado, de onde as coisas surgem e para onde voltam. No céu, as rodas de fogo com orifício.
- Anaxímenes: o ilimitado é abstrato demais. A origem é o ar, que se condensa em água e terra ou se rarefaz em fogo.
Repare que ninguém ali tentou medir nada. O teste era a coerência do argumento. O modelo que mais durou nasceu depois, com Eudoxo e Aristóteles: as esferas cristalinas, transparentes, que carregariam os astros. Sobreviveram quase dois mil anos, até Tycho Brahe mostrar, em 1577, que um cometa atravessava a região onde elas deveriam estar.
Heráclito, Parmênides e o que muda
No século V a.C., duas escolas disputaram a pergunta mais funda da filosofia grega:
- Heráclito: tudo flui. Ninguém entra duas vezes no mesmo rio, porque o rio e a pessoa já são outros.
- Parmênides: o que é verdadeiro não muda. A mudança é aparência, e a razão deve buscar o permanente.
Zenão, discípulo de Parmênides, defendeu o mestre com paradoxos. No mais famoso, Aquiles nunca alcança a tartaruga: quando chega aonde ela estava, ela já andou um pouco, e assim sem fim. O argumento parece impecável e contraria o que qualquer um vê. A saída veio muito depois, com a noção de velocidade e com a matemática das somas infinitas que dão um resultado finito.
A ciência herdou dos gregos a pergunta sobre a matéria, a busca de mecanismos e o hábito de criticar o argumento alheio. Platão e Aristóteles levariam o debate adiante. Faltava o experimento, e ele levaria dois milênios para chegar, com Francis Bacon e Galileu. O post O que é Ciência? retoma o que ela se tornou depois.
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