O método indutivo parte de observações sempre incompletas para chegar a leis gerais. Francis Bacon fez dele o centro da ciência moderna, junto com uma exigência que ainda vale: toda afirmação precisa passar pelo teste da experiência.
Em 1417, o humanista Poggio Bracciolini encontrou num mosteiro alemão uma cópia de Da natureza das coisas. No poema, escrito no século I a.C., Lucrécio defendia que tudo é feito de átomos e que a superstição é fonte de sofrimento. O episódio, contado por Stephen Greenblatt em A virada, é uma peça de um movimento maior: a Europa reencontrando os antigos.
Em 1561 nascia na Inglaterra o homem que transformaria esse reencontro num programa. Francis Bacon é chamado de pai do método científico, e é com ele que Marcelo Gleiser abre, no curso Pense Como Cientista, a parte dedicada às origens do método.
Da Nova Atlântida ao método
Entre a queda de Roma e a Renascença, boa parte do pensamento grego sobreviveu no mundo islâmico. Do século VIII ao XII, sábios muçulmanos traduziram Platão, Aristóteles e outros para o árabe, e dali os textos chegaram ao latim pela Península Ibérica e pelo sul da Itália. A Renascença foi, em larga medida, uma releitura.
Bacon herdou esse acervo e quis dar a ele um destino. Em A Nova Atlântida, publicada após sua morte, imaginou uma sociedade organizada em torno de uma casa de sábios dedicada a investigar a natureza. A alquimia e os vendedores de remédios milagrosos lhe pareciam becos sem saída; a ciência, o caminho capaz de aliviar o sofrimento humano. Tentou convencer o rei a patrocinar esse trabalho, para que o conhecimento chegasse a todos.
Como funciona o método indutivo
O raciocínio pode seguir duas direções, e Bacon apostou na segunda:
- Dedução: vai do geral ao particular. Parte de princípios aceitos e extrai consequências. Se os princípios são verdadeiros e o raciocínio é válido, a conclusão é certa. É o caminho da geometria.
- Indução: vai do particular ao geral. Observa alguns casos e propõe uma lei que valha para todos. A conclusão é provável, nunca garantida.
Bacon imaginava uma indução paciente, montada com tabelas de casos em que um fenômeno aparece, casos em que falta e casos em que varia de intensidade, justamente para evitar generalizações apressadas.
A gravitação de Newton, formulada décadas depois da morte de Bacon, mostra a força do procedimento. Criada para explicar as órbitas dos planetas, a teoria passou a explicar as marés, o achatamento da Terra nos polos e a lenta oscilação do eixo terrestre. Edmond Halley a usou para prever o retorno do cometa que leva seu nome.
A experiência como juiz
Para Bacon, a argumentação sozinha já não bastava. Uma afirmação sobre a natureza precisa ser posta à prova, e a prova tem regras:
- Confronto com a natureza: observação ou experimento, fora do debate de palavras.
- Descrição reprodutível: quem relata um resultado informa as condições para que outros refaçam o teste.
- Independência de quem afirma: prestígio, crença ou partido de quem obteve o resultado não entram na conta.
- Ceticismo: nenhuma afirmação é aceita sem verificação.
Gleiser dá um exemplo de mesa: solta uma pilha de um metro de altura e mede o tempo da queda. Qualquer pessoa com uma pilha igual pode repetir o gesto e conferir. Quando a repetição falha, o resultado encolhe, como aconteceu quando cem estudos de psicologia foram refeitos em 2015.
A sombra do projeto baconiano
Bacon queria conhecer a natureza para usá-la. A fórmula atribuída a ele, “saber é poder”, atravessou o Iluminismo com uma atitude embutida: a natureza como recurso a ser domado e explorado, contanto que servisse às necessidades humanas. Gleiser liga essa herança à Revolução Industrial e ao aquecimento global de hoje, a conta de três séculos de exploração sem limite. O método que nasceu para aliviar o sofrimento carregava, desde o início, uma ideia de domínio.
Onde a indução tropeça
O sol nasceu no leste todas as manhãs de que se tem registro. Nada nessa longa série garante o nascer de amanhã. No século XVIII, David Hume mostrou que a indução produz convicção, nunca certeza.
John Stuart Mill tentaria depois disciplinar esse salto do particular ao geral. No século XX, Karl Popper faria desse limite o ponto de partida de outra ideia, a falseabilidade.
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