Marcelo Gleiser: o físico que aprendeu a conversar com o mistério

Marcelo Gleiser é um físico carioca, professor do Dartmouth College e o primeiro latino-americano a ganhar o Prêmio Templeton. Estuda a origem do universo e passou a vida explicando por que a ciência nunca terá todas as respostas.

Rio de Janeiro, 1972. Um menino de treze anos ganha, de presente de bar mitzvah, uma fotografia autografada de Albert Einstein. Tem presente que vira enfeite de estante e acaba esquecido. Esse, não. Esse virou rumo.

Quase cinquenta anos depois, aquele menino subiria ao palco para receber o Prêmio Templeton, que já tinha ido para gente como o Dalai Lama e Desmond Tutu. E, no meio do caminho, fez física, estudou os primeiros instantes do universo, escreveu centenas de colunas de jornal e apareceu no Fantástico explicando buraco negro para o Brasil inteiro.

Se você leu A Ilha do Conhecimento ou assistiu ao curso Pense Como Cientista, já conhece a voz. Mas a história por trás dela tem mais curvas do que parece.


Quem é Marcelo Gleiser: resumo rápido

  • Nasceu: em 19 de março de 1959, no Rio de Janeiro.
  • Formação: física na PUC-Rio (1981), mestrado na UFRJ (1982) e doutorado no King’s College, em Londres (1986).
  • Onde trabalha: no Dartmouth College, nos Estados Unidos, desde 1991.
  • Área: cosmologia e física de partículas, com um pé cada vez mais firme na filosofia da ciência.
  • Prêmios: três Jabutis e o Templeton, em 2019.
  • Por onde começar: A Ilha do Conhecimento (2014) ou o curso gratuito Pense Como Cientista, no YouTube.

Formação e carreira: do vôlei ao Big Bang

O caminho não foi reto.

Gleiser entrou em engenharia química na UFRJ, em 1977, mas dois anos depois largou tudo pela física da PUC-Rio. E, enquanto estudava, jogava vôlei a sério: em 1981, ganhou medalha de prata nos Jogos Macabeus, em Israel.

Foi no doutorado, em Londres, que descobriu que a ciência tinha uma língua própria. Na mesma sala, um egípcio, um indiano, um australiano e ele discutiam relatividade como se fossem vizinhos de rua. A cena, que ele adora contar, abre o post Por que confiar na ciência?.

Depois vieram o Fermilab, perto de Chicago, a Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e, em 1991, Dartmouth, onde ficou. O tema de pesquisa, esse, é de dar frio na barriga: o que aconteceu nas primeiras frações de segundo depois do Big Bang, quando a matéria ainda decidia que forma teria.

Livros de Marcelo Gleiser e a física na TV

Só que pesquisa de ponta era metade do trabalho.

A outra metade era escrever para quem nunca tinha aberto um livro de física. A partir de 1997, Gleiser assinou uma coluna semanal na Folha de S.Paulo. Em 2006, apresentou Poeira das Estrelas, série de doze episódios no Fantástico, e em 2008 voltou com Mundos Invisíveis.

Os livros acompanharam esse movimento:

  • A Dança do Universo (1997): a história das ideias sobre a origem do cosmo, do mito à física. Ganhou o Jabuti.
  • O Fim da Terra e do Céu (2001): o medo do apocalipse, da Bíblia aos asteroides. Outro Jabuti.
  • A Harmonia do Mundo (2006): um romance sobre Johannes Kepler, o astrônomo que é seu herói declarado.
  • Criação Imperfeita (2010): a defesa de que a beleza do universo está justamente nas assimetrias.
  • A Ilha do Conhecimento (2014): a tese que virou marca registrada, logo abaixo.

Repare na linhagem. Gleiser escreve na trilha de Carl Sagan, com uma diferença: ele traz a filosofia para o centro da conversa, lugar que ela raramente ocupa nos livros de divulgação.

A Ilha do Conhecimento e o Prêmio Templeton

A ideia mais conhecida de Gleiser cabe numa imagem.

Tudo o que sabemos é uma ilha cercada por um oceano de desconhecido. Cada descoberta aumenta a ilha, e com ela aumenta a costa, que é justamente onde nascem as perguntas novas. O post A ilha do conhecimento destrincha a metáfora com calma.

Foi daí que veio a crítica ao cientificismo, a crença de que a ciência um dia responderá a tudo. Para Gleiser, há perguntas, como a origem do universo, da vida e da consciência, que o método científico talvez nunca feche. Ele se diz agnóstico e considera o ateísmo convicto tão pouco científico quanto a fé cega, porque os dois afirmam o que não dá para testar.

E foi essa ponte entre ciência, filosofia e espiritualidade que rendeu o Prêmio Templeton, em 2019. Acontece que a fundação que concede o prêmio é criticada por parte dos cientistas justamente por aproximar ciência e religião. Gleiser sabe disso, e a resposta dele costuma ser a mesma: conversar com quem pensa diferente faz parte do trabalho.

Marcelo Gleiser hoje: a humildade como método

Dá para dizer que o fio de tudo o que Gleiser faz é a humildade intelectual.

Admitir o que não se sabe, para ele, é onde o conhecimento começa. É o que atravessa as quinze aulas de Pense Como Cientista, o curso que este blog transformou em série, com um guia completo por módulo.

E tem o lado menos conhecido, e muito interessante também. Gleiser corre ultramaratonas e pesca com mosca nos rios da Nova Inglaterra, experiência que virou livro em 2016 e rendeu o terceiro Jabuti. Para ele, passar horas num rio esperando uma truta ensina o mesmo que um telescópio: a natureza responde no tempo dela.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte que perguntas sobre o universo você faria a ele se tivesse alguns minutos de conversa.


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