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Mérito parece o critério mais justo que existe: quem se esforça mais chega mais longe. O que a Sociologia acrescenta é a pergunta sobre a linha de partida, porque o mesmo esforço rende coisas diferentes dependendo de onde ele começa.
O que é meritocracia?
Meritocracia é a ideia de distribuir posições, salários e prestígio conforme o mérito de cada pessoa, normalmente entendido como a soma de talento e esforço.
Como critério de distribuição, ela disputa espaço com dois outros que a história conhece bem:
- herança: a posição vem da família;
- privilégio de grupo: a posição vem do pertencimento a uma casta, a um estamento, a um partido.
Comparada a esses, a meritocracia é uma promessa moderna e atraente. Quase ninguém se declara contra ela.
A discussão sociológica começa em outro ponto. Se o mérito é medido depois de uma corrida em que cada um partiu de um lugar diferente, o resultado mede mérito ou mede distância inicial?
De onde vem a palavra meritocracia?
A palavra tem data de nascimento. Foi cunhada pelo sociólogo britânico Michael Young, em 1958, no livro The Rise of the Meritocracy.
E foi cunhada como crítica.
O livro é uma sátira. Descreve uma sociedade futura que distribui tudo por testes de inteligência e esforço e que, exatamente por isso, produz uma elite convencida de merecer o que tem e uma maioria convencida de merecer o que não tem.
Décadas depois, o termo virou elogio de currículo e de cultura organizacional, como mostra o percurso do conceito na literatura acadêmica.
Repare no tamanho da inversão: um conceito criado para descrever um pesadelo virou nome de virtude corporativa.
Existe mobilidade social suficiente para o mérito funcionar?
Para que o mérito distribua bem, a posição de origem precisa não determinar a de chegada. Isso é mensurável.
O relatório A Broken Social Elevator?, da OCDE, estima quantas gerações uma família de baixa renda precisaria para alcançar a renda média do próprio país. Nos países nórdicos, de duas a três. No Brasil, o relatório estima nove.
O mesmo levantamento registra outra coisa curiosa: as pessoas erram bastante ao apontar a própria posição na distribuição de renda, para cima ou para baixo.
Nove gerações é um número que diz pouco sobre esforço e muito sobre estrutura.
Esforço e resultado medem a mesma coisa?
Aqui vale uma distinção que o debate público costuma atropelar.
- esforço é o que a pessoa investe;
- resultado é o que o mundo devolve por aquele investimento;
- a taxa de câmbio entre os dois é o que varia de pessoa para pessoa.
Quem tem três horas livres por dia estuda três horas. Quem tem três horas de deslocamento, não. O esforço relativo pode ser idêntico, e o resultado, muito diferente.
É o mesmo exercício da imaginação sociológica: olhar a biografia e as condições no mesmo movimento, sem apagar nenhuma das duas.
Quem decide o que conta como mérito?
Nenhum critério de mérito cai do céu. Alguém escolhe o que será medido.
- prova escrita;
- tempo de casa;
- inglês fluente;
- diploma de determinada instituição;
- disponibilidade para viajar;
- o famoso “perfil” que combina com a equipe.
Cada critério favorece quem chega com ele pronto. Exigir inglês fluente mede inglês e mede também quem pôde pagar anos de curso.
A pergunta que interessa, então, é quem escolheu a régua e o que essa régua deixa de fora.
O diploma é o caso mais disputado dessa medição, e aparece quando se pergunta o que a crítica ao ensino superior esquece. A agenda cheia virou um sinal de merecimento por conta própria, o que fica visível quando trabalho e identidade ficam colados um no outro.
O que acontece quando um algoritmo mede o mérito?
Triagem automática de currículos, score de crédito, ranking de produtividade, avaliação por estrelas. Em todos esses casos, alguém traduziu mérito em variável.
O sistema não inventa o critério. Ele aprende com o histórico disponível e o aplica em escala, com aparência de neutralidade, e é aí que a conversa encosta na tecnologia.
Diante de um sistema desses, quatro perguntas rendem mais do que qualquer discussão sobre mérito em abstrato:
- Que dado está servindo de sinal de mérito?
- De onde veio o histórico que ensinou o sistema?
- Quem pode contestar o resultado?
- O erro é corrigido ou repetido em escala?
A meritocracia explica ou justifica a desigualdade?
O conceito tem dois usos, e eles convivem mal.
No primeiro, meritocracia é um critério de alocação que pode ser avaliado: funciona melhor ou pior conforme a igualdade de condições no ponto de partida.
No segundo, funciona como justificativa retrospectiva. Quem chegou lá chegou porque merecia, e quem não chegou também. Um artigo da revista Lua Nova sobre os sentidos da meritocracia trata justamente dessa passagem do critério para a legitimação.
Repare que o segundo uso é confortável para quem venceu, duro com quem não venceu, e não precisa de nenhum dado para funcionar.
E quando a promessa de que todos podem chegar convive com um caminho estreito, o terreno já é outro: o da anomia.
O mérito precisa de uma linha de partida
Reconhecer estrutura e reconhecer esforço cabem na mesma frase. Ninguém precisa escolher entre dizer que dedicação importa e dizer que condições importam.
A pergunta útil diante de qualquer promessa meritocrática é onde a corrida começou, quem escolheu a régua e o que acontece com quem tropeça no meio do percurso.
Mérito distribui bem quando a linha de partida é comparável. Ela raramente é.
Em resumo: mérito só distribui bem quando a linha de partida é a mesma, e ela raramente é. Se fez sentido, compartilhe este texto.