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Em vários países, cresce a dúvida sobre o valor da faculdade. Parte da crítica aponta problemas reais. Outra parte nasce de uma expectativa estreita: a de que o ensino superior só vale a pena quando prepara direto para um emprego.
Faculdade ainda vale a pena?
A pergunta aparece cada vez mais, e não só no Brasil.
Na Inglaterra, uma pesquisa do British Social Attitudes registrou que 34% dos entrevistados concordavam, em 2025, que a universidade não valia o tempo e o dinheiro exigidos. Em 2005, eram 14%.
Nos Estados Unidos, a confiança no ensino superior seguiu o mesmo caminho. Pela Gallup, 38% dos adultos declaravam muita ou bastante confiança nessas instituições em 2026, contra 57% em 2015.
São sistemas educacionais diferentes, e mesmo assim a dúvida se repete: fazer faculdade ainda compensa?
Repare que uma pergunta que surge ao mesmo tempo na vida de milhões de pessoas raramente é só individual. É o movimento que a imaginação sociológica ajuda a enxergar: uma inquietação pessoal ligada a mudanças no trabalho e na economia.
E há uma segunda pergunta escondida na primeira: o que significa uma faculdade “valer a pena”?
Quando “valer a pena” virou “conseguir emprego”?
É difícil discutir ensino superior sem falar de trabalho, e nem faria sentido tentar. Médicos aprendem medicina; engenheiros, engenharia. Uma graduação que ignora o campo profissional para o qual forma tem um problema evidente.
Mas a confusão começa em outro ponto. Preparar também para o trabalho é diferente de existir apenas para atender ao mercado.
Hoje, boa parte da conversa sobre faculdade usa uma linguagem quase financeira:
- O curso vira investimento.
- O diploma vira ativo.
- O estudante calcula retorno.
- O salário do egresso vira indicador de sucesso.
Dentro dessa lógica, o que não entrega aplicação imediata começa a parecer desperdício:
- Filosofia? “Não vou usar.”
- Sociologia? “Isso não cai na entrevista.”
- Metodologia científica? “Minha empresa não pede.”
- História? “Não tem a ver com a minha vaga.”
Talvez tenhamos estreitado demais o sentido da palavra usar.
Ensino superior é treinamento profissional mais longo?
Há formações bem próximas de campos específicos. Os cursos superiores de tecnologia, por exemplo, nascem colados a áreas de atuação. Nem por isso deveriam se limitar a ferramentas: uma formação aplicada ainda exige compreensão, análise e decisão diante do que não vem com manual.
A distinção evita dois extremos: a universidade distante do mundo real e a graduação reduzida a treinamento de tarefas. Nenhum dos dois basta.
O próprio Conselho da Europa trabalha com quatro finalidades amplas para a educação:
- preparação para o trabalho;
- preparação para a vida como cidadão em sociedades democráticas;
- desenvolvimento pessoal;
- construção de uma base ampla de conhecimento.
O emprego aparece na lista. Só não ocupa a lista inteira. A UNESCO segue direção parecida ao ligar educação superior a conhecimento, pesquisa, inovação e transformação social.
O que a faculdade ensina além da profissão?
Falar em “ampliar repertório” soa bonito e vazio sem explicação. Repertório aqui tem um sentido concreto: ter referências suficientes para reconhecer padrões, comparar situações e enxergar um problema além da superfície.
Na prática, é saber:
- por que uma prática existe;
- de onde veio uma regra;
- que interesses estão em jogo;
- que evidência sustenta uma afirmação;
- que consequências uma decisão pode produzir.
Por isso uma discussão aparentemente abstrata como “o que é Filosofia da Ciência?” tem tanto valor formativo. Perguntar “como você sabe?” ensina algo que vem antes de qualquer procedimento: avaliar aquilo que alguém afirma saber. Isso serve na ciência, numa empresa, diante de um relatório ou de um gráfico. E, hoje, serve bastante diante de uma resposta produzida por inteligência artificial.
Por que preparar só para o mercado de hoje é arriscado?
Imagine uma graduação montada para ensinar exatamente o que o mercado pede agora: os softwares, as ferramentas e as competências copiadas das vagas atuais. Parece ótima ideia, até lembrarmos que esses estudantes se formam daqui a três, quatro, cinco anos. Qual mercado vai estar esperando por eles?
Mudanças tecnológicas reorganizam atividades, empresas e profissões. Como já discutido em Tecnologia não é só tela e algoritmo, toda ferramenta nova muda, no mesmo movimento, práticas e relações sociais.
Daí o paradoxo: quanto mais uma graduação tenta reproduzir as demandas do presente, maior o risco de ensinar muito bem justamente o que vai envelhecer primeiro. A ferramenta muda, o software some, o procedimento é automatizado. A capacidade de aprender o próximo é o que permanece.
O que a inteligência artificial mudou nessa discussão?
A IA generativa resume, traduz, programa e produz textos em segundos. Parece mais uma ameaça ao ensino superior, mas dá para ler ao contrário: se executar tarefas ficou fácil de automatizar, formar alguém só para executá-las virou aposta ainda mais arriscada.
É a mesma distinção que aparece quando se discute autoria e ChatGPT: a ferramenta entrega um texto, mas formular a pergunta, escolher as fontes e responder pelo resultado continua sendo tarefa de quem usa. A máquina devolve uma resposta; alguém ainda precisa decidir se ela presta – e essa decisão é boa parte do que chamamos de formação superior.
A universidade tem culpa nessa crise?
Nada disso exige fingir que toda instituição de ensino superior seja boa. Não são. Existem cursos superficiais, currículos ruins e instituições que vendem diploma mais do que formação, com promessas infladas de empregabilidade. A crítica é necessária – e romantizar uma universidade alheia às mudanças sociais também não ajuda.
Mas há diferença entre exigir qualidade e relevância e exigir treinamento ocupacional imediato. A própria universidade ajudou a embaralhar as duas coisas quando passou a anunciar graduação como investimento de retorno previsível. É o ponto em que o diploma vira comprovante de mérito. Se por anos a mensagem foi “faça este curso e consiga um bom emprego”, não surpreende que alguém termine o curso e cobre a promessa.
Então, a faculdade ainda vale a pena?
Talvez essa seja uma pergunta pequena demais. O ensino superior amplia oportunidades e segue ligado ao trabalho, mas sua função não termina aí. Uma boa formação amplia o repertório com que alguém interpreta a própria profissão, a sociedade e os problemas que vai encontrar pela vida. Isso inclui técnicas, mas também compreender conceitos, avaliar evidências, escrever, pesquisar e aprender com autonomia.
Como discutido em Ciência e Tecnologia: qual é a diferença e por que ela importa?, nem todo conhecimento precisa justificar sua existência por uma aplicação imediata. Compreender já tem valor.
Antes de decretar a “morte do ensino superior”, vale olhar a causa do óbito. Se a acusação é que a universidade não ensina exatamente o que o mercado quer agora, resta uma possibilidade: talvez estejamos cobrando dela que seja aquilo que nunca deveria ter se limitado a ser – um curso de treinamento.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – com quem ainda mede faculdade só pela vaga que ela promete.