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Tecnologia é todo arranjo de ferramentas e técnicas que amplia o que um grupo humano consegue fazer. É mais antiga que a nossa espécie e, desde a primeira pedra lascada, distribui ganhos e custos de forma desigual.
SÉRIE · Quem fica com os ganhos da tecnologia?
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Qual é a tecnologia mais antiga que se conhece?
Em 2011, a arqueóloga Sonia Harmand tomou um caminho errado durante uma expedição em Lomekwi, no Quênia, e encontrou pedras lascadas com bordas afiadas, datadas de 3,3 milhões de anos.
Quem as fabricou não foi o Homo sapiens, e sim um ancestral muito anterior – provavelmente um australopiteco ou um Kenyanthropus.
A descoberta, publicada na Nature em 2015, confirmou algo que contraria o senso comum: a tecnologia é anterior à nossa espécie. Ela acompanha a linhagem humana desde muito antes da modernidade.
O controle do fogo, talvez há 1,5 milhão de anos – a data exata segue em discussão – , produziu outro salto. O efeito em cadeia proposto pelo primatólogo Richard Wrangham é este:
- alimentos cozidos ficam mais fáceis de digerir;
- a digestão passa a custar menos energia ao organismo;
- a energia poupada fica disponível para um cérebro maior.
A chamada hipótese da culinária ainda é debatida, mas ilustra bem a ideia: tecnologia moldando biologia, muito antes de qualquer teclado.
Por que toda tecnologia tem ganhadores e perdedores?
Cada grande transformação tecnológica reorganizou a sociedade e criou problemas junto com as soluções. Perceba que, diante de uma tecnologia nova, a pergunta mais útil costuma ser quem ganha e quem paga.
O arado fixou populações e viabilizou cidades – e, com elas, a propriedade da terra e a hierarquia. A prensa de Gutenberg ampliou o acesso ao texto – e acelerou a propaganda religiosa em escala inédita.
A máquina a vapor multiplicou a produção – e gerou condições de trabalho que levaram décadas de luta para serem minimamente reguladas.
A internet conectou o mundo – e concentrou poder em poucas plataformas que acumulam mais dados sobre as pessoas do que qualquer governo acumulou.
Como mostra a diferença entre ciência e tecnologia, a ferramenta nunca é só a descoberta: é também a escolha de como aplicá-la.
Os ludistas eram contra a tecnologia?
Entre 1811 e 1816, trabalhadores têxteis ingleses quebraram máquinas em nome de um líder imaginário, Ned Ludd.
O nome ficou como sinônimo de aversão à tecnologia. A história, contada por E. P. Thompson em A formação da classe operária inglesa (1963), é outra.
Os ludistas eram artesãos qualificados, muitos deles acostumados a trabalhar com máquinas.
Protestavam contra o uso de novos equipamentos para rebaixar salários, contratar mão de obra sem formação e produzir tecido de pior qualidade – e costumavam quebrar apenas as máquinas dos donos que adotavam essas práticas.
O governo respondeu com tropas e, em 1812, tornou a destruição de máquinas crime punível com a morte.
Repare na pergunta que eles faziam: quem fica com o ganho da máquina?
Essa é a pergunta desta série.
Tecnologia é sinônimo de digital?
Quando “tecnologia” vira sinônimo de “digital”, fica mais difícil perceber o quanto somos moldados por tecnologias antigas e discretas.
Três exemplos sem tela nem processador:
- O relógio mecânico, que reorganizou o tempo de trabalho e criou a disciplina industrial – assunto do próximo texto desta série.
- A pílula anticoncepcional. Os economistas Claudia Goldin e Lawrence Katz mostraram que o acesso à pílula nos Estados Unidos, a partir dos anos 1960, ajudou a explicar o salto de mulheres em carreiras longas como direito e medicina, porque permitiu adiar o casamento e planejar a formação.
- O contêiner de carga. Segundo o economista Marc Levinson em The Box, carregar um navio custava perto de 6 dólares por tonelada em 1956; com o contêiner, o custo caiu para cerca de 16 centavos.
Nenhum desses objetos entra no uso coloquial de “tecnologia”. Todos remodelaram a vida social mais do que muitos aplicativos que dominam o debate hoje.
Qual é o ponto importante aqui?
Reduzir tecnologia ao digital estreita o campo de perguntas.
Se tecnologia é só aplicativo, as questões de poder, acesso e consequência ficam confinadas a um setor, quando atravessam toda a organização da vida.
O algoritmo que decide quem vê qual anúncio e o arado que decidia quem comia e quem não comia têm a mesma natureza: são artefatos que distribuem capacidades e limites de forma desigual.
O cientista político Langdon Winner chamou isso de política dos artefatos.
Ampliar o conceito é o que permite fazer as perguntas certas diante de qualquer ferramenta nova:
- quem decide como ela funciona?
- quem se beneficia?
- quem arca com os custos?
- existe alternativa?
Esta série segue essas perguntas por quatro caminhos: o tempo, o esforço, o emprego e o acesso.
O próximo texto segue pelo mais íntimo – o tempo que as ferramentas prometem liberar.
QUEM FICA COM OS GANHOS DA TECNOLOGIA?
Próximo: Tecnologia e tempo: por que as máquinas não liberaram nosso tempo?
1 de 5 – O que é tecnologia