Falseabilidade é o critério de Karl Popper para reconhecer uma teoria científica: ela precisa indicar o que a derrubaria. Confirmações se acumulam sem nunca fechar a questão; basta um contraexemplo para reabri-la.
Uma teoria afirma que toda a areia da Terra está nas praias. Quem resolve testá-la percorre o litoral brasileiro de ponta a ponta e encontra areia em cada praia visitada. Mil confirmações depois, uma viagem às dunas do Jalapão, no Tocantins, a centenas de quilômetros do mar, põe a teoria abaixo.
Marcelo Gleiser usa o exemplo, com o Saara no lugar do Jalapão, no curso Pense Como Cientista. Ele resume a ideia que o filósofo austríaco Karl Popper, crítico do positivismo lógico do Círculo de Viena, apresentou em A Lógica da Pesquisa Científica, de 1934: a falseabilidade, também chamada de falsificabilidade. Uma teoria vale pelo risco que corre.
Verificar e comprovar
Durante séculos, os europeus tiveram boas razões para afirmar que todo cisne é branco: era o único que conheciam, em cada lago e rio do continente. Em janeiro de 1697, a expedição do holandês Willem de Vlamingh avistou cisnes negros num rio da costa oeste da Austrália, batizado depois de rio dos Cisnes. Uma única observação desmentiu o que milhares de observações pareciam garantir.
Gleiser tira daí uma distinção de vocabulário. Verificar é somar casos que concordam com a teoria. Comprovar seria garantir que nenhum caso futuro vai discordar, e isso a experiência não entrega. O problema já estava em David Hume, no século XVIII, com o sol que nasce no leste, e marca o limite do método indutivo. Popper transformou esse limite em regra de trabalho: o cientista procura, de propósito, o caso capaz de derrubar a própria teoria.
O coelho entre os dinossauros
Perguntaram certa vez ao biólogo britânico J. B. S. Haldane o que o faria abandonar a teoria da evolução. A resposta ficou famosa: coelhos fósseis no Pré-Cambriano, período encerrado há cerca de 540 milhões de anos, muito antes de qualquer mamífero. Gleiser conta uma versão com dinossauros, mais fácil de visualizar, e a lógica é a mesma.
A evolução prevê uma ordem no registro fóssil. Os dinossauros não avianos desapareceram há cerca de 66 milhões de anos, e os primeiros parentes dos coelhos surgiram mais de dez milhões de anos depois. Um único fóssil de coelho datado da mesma camada que um tiranossauro exigiria rever a teoria. Paleontólogos escavam há dois séculos, e nenhum apareceu.
E aqui vale prestar atenção: nisso está a força da evolução. Ela aponta com precisão o achado que a derrubaria e, até hoje, sobreviveu a cada escavação.
O que a falseabilidade deixa fora da ciência
Uma afirmação só entra no jogo da ciência se disser o que a desmentiria. Três pares mostram a diferença:
- “A água pura, ao nível do mar, ferve a 100 °C” é falseável: uma amostra que fervesse a 90 °C nas mesmas condições a derrubaria. “Todos os homens são mortais” não é, porque confirmar o contraexemplo exigiria observar alguém para sempre.
- “Todos os cisnes são brancos” é falseável. “Existe um cisne dourado em algum lugar do universo” não é: nenhuma busca esgota o universo.
- “Amanhã chove em Belém” é falseável. “Amanhã chove ou não chove em Belém” não é, porque acerta qualquer que seja o tempo.
Onde passa a fronteira entre ciência e pseudociência é outro debate, tratado em Ciência, Opinião e Pseudociência.
Teorias que caíram
A história da ciência guarda substâncias que foram a melhor explicação disponível até o dia em que um teste as derrubou:
- Flogisto. Proposto no fim do século XVII por Johann Becher e sistematizado por Georg Stahl, seria o princípio que as coisas perdem ao queimar. Caiu a partir da década de 1770, quando Antoine Lavoisier, pesando metais antes e depois de aquecê-los, mostrou que a combustão consome oxigênio.
- Calórico. O próprio Lavoisier o incluiu entre os elementos: um fluido sem peso que passaria do corpo quente ao frio. Em 1798, o conde Rumford notou que perfurar canos de canhão gerava calor aparentemente inesgotável, e o século XIX trocou o fluido pela agitação das moléculas.
- Éter luminífero. Seria o meio em que a luz se propaga. Em 1887, Albert Michelson e Edward Morley não encontraram sinal dele, e a relatividade restrita, em 1905, o dispensou.
Hoje, a energia escura explica por que a expansão do universo acelera, fenômeno medido em 1998. Gleiser se pergunta se ela terá o destino dos três. A questão segue aberta.
O critério de Popper tem uso fora do laboratório. Diante de uma certeza, a própria ou a de outra pessoa, cabe perguntar que fato a derrubaria. Uma afirmação compatível com qualquer fato imaginável não diz nada sobre o mundo. A trajetória do filósofo e a crítica que ele fez à indução estão no post sobre Karl Popper.
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