Um paradigma científico é o conjunto de conceitos e práticas que define como uma época faz ciência. Thomas Kuhn mostrou que ele orienta as perguntas até acumular falhas demais e então cede lugar a outro, numa revolução científica.
Em 1543, Nicolau Copérnico publicou Das revoluções das esferas celestes, que tirava a Terra do centro do universo. O livro circulou entre astrônomos e serviu de base para novas tabelas de posições dos planetas, mas a tese central esperou mais de sessenta anos por defensores de peso. Faltavam provas, e sobrava um modo inteiro de ver o céu.
Marcelo Gleiser usa esse atraso, no curso Pense Como Cientista, para apresentar a ideia que o físico e historiador americano Thomas Kuhn tornou conhecida: a de que a ciência de cada época trabalha dentro de um quadro, e trocar de quadro custa caro.
O que Kuhn chamou de paradigma científico
Em A Estrutura das Revoluções Científicas, de 1962, Kuhn descreve a ciência de cada período como trabalho feito dentro de um quadro compartilhado: teorias aceitas, problemas que valem a pena, instrumentos adequados e o que conta como solução. Esse quadro é o paradigma. Ao trabalho cotidiano sob ele Kuhn chamou de ciência normal, parecido com resolver quebra-cabeças cujas regras ninguém discute. A trajetória do autor está no post sobre Thomas Kuhn.
O paradigma também decide o que se enxerga. Um resultado que não se encaixa costuma ser tratado como erro de medida. Quando essas anomalias se acumulam e resistem aos remendos, a comunidade entra em crise e uma alternativa ganha espaço. Kuhn deu a essa troca o nome de revolução científica. Gleiser aproxima o paradigma da ideia de visão de mundo: ele define até quais perguntas parecem razoáveis.
O revezamento do heliocentrismo
Tirar a Terra do centro levou quase um século e meio e dependeu de quatro contribuições:
- Nicolau Copérnico (1543) propôs o modelo com argumentos sobretudo de simplicidade. Manteve as órbitas circulares e não trouxe observação nova.
- Johannes Kepler (1609 e 1619) usou os dados de Tycho Brahe para trocar os círculos por elipses e escreveu as leis do movimento planetário.
- Galileu Galilei (1610) apontou o telescópio para o céu e viu as luas de Júpiter e as fases de Vênus, que o modelo de Ptolomeu não acomodava.
- Isaac Newton (1687) mostrou, com a gravitação universal, por que os planetas seguem as leis de Kepler.
Nenhum dos quatro, sozinho, derrubou o geocentrismo. A troca se completou quando o novo quadro explicou, com as mesmas leis, a queda de um corpo na Terra e a órbita da Lua, algo que o antigo nunca tinha tentado.
Da física clássica à quântica
A virada seguinte veio entre o fim do século XIX e a década de 1920. A física clássica herdada de Newton era determinista: conhecidas as condições de um sistema, seu futuro estava fixado. Mesmo nesse terreno, prever tudo se mostrou difícil, como mostra o efeito borboleta, mas a ruptura veio de outro lado.
Repare que a crise nasceu no laboratório. A radiação emitida por corpos aquecidos, o efeito fotoelétrico e as linhas de luz de cada elemento químico produziam resultados que o quadro clássico não explicava. Max Planck, em 1900, e Einstein, em 1905, introduziram os pacotes de energia. Nos anos 1920, a mecânica quântica descreveu o átomo em termos de probabilidade, e o determinismo perdeu o posto de princípio. Einstein, que ajudou a abrir a porta, nunca aceitou de todo o que passou por ela.
O paradigma da informação
Gleiser propõe ler as grandes épocas da ciência pela entidade que cada uma tomou como fundamental:
- Mecânica: o mundo como máquina de peças em movimento, de Newton ao século XVIII.
- Energia: a termodinâmica e o eletromagnetismo do século XIX, que descrevem a natureza por trocas e transformações de energia.
- Informação: o paradigma atual, de computadores, genética e inteligência artificial, em que o DNA e o bit ocupam o lugar que antes foi da engrenagem e do calor.
É nesse quadro que cabem as discussões de hoje sobre máquinas que pensam, e até os nomes que damos a elas carregam escolhas, como discute o post IA não é “inteligente” nem “artificial”. Kuhn e Popper olham para a mesma ciência de ângulos opostos: para Popper, um contraexemplo basta para derrubar uma teoria, como mostra o post sobre falseabilidade; para Kuhn, a comunidade resiste às anomalias até que elas se acumulem.
Um astrônomo geocêntrico do século XVI raciocinava bem com o quadro que tinha. O mesmo vale para qualquer época, a nossa incluída: parte do que parece evidente hoje é conclusão, parte é só o paradigma em vigor. Distinguir uma coisa da outra é tarefa difícil, e começa por admitir que o quadro existe.
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