Quais foram as contribuições de Galileu para a ciência?

As contribuições de Galileu para a ciência vão do telescópio ao pêndulo e têm um fio comum: desconfiar das aparências e levar cada pergunta sobre a natureza para o experimento.

Numa vitrine do Museu Galileo, em Florença, há um osso de dedo dentro de um recipiente de vidro, como as relíquias de santos nas igrejas. É o dedo médio da mão direita de Galileu Galilei, retirado do corpo em 1737, quando seus restos foram levados para a basílica de Santa Croce. Um século antes, a Inquisição o havia condenado por defender que a Terra gira em torno do Sol.

Marcelo Gleiser mostra a peça no curso Pense Como Cientista e vê nela uma ironia da história. O homem que a Igreja silenciou acabou exposto como relíquia, poucas salas adiante dos telescópios que construiu.


Contribuições de Galileu: o céu que ninguém tinha visto

O telescópio surgiu na Holanda em 1608. Galileu soube do invento no ano seguinte, construiu os próprios instrumentos e chegou a cerca de vinte vezes de aumento. Ao apontá-los para o céu, viu o que ninguém tinha visto:

  • A Lua, com montanhas e crateras, longe da esfera perfeita que Aristóteles supunha.
  • Quatro luas girando em torno de Júpiter, observadas em janeiro de 1610. Se Júpiter tinha satélites, a Terra podia ser um planeta com o seu.
  • Saturno com “orelhas”, que o telescópio não resolvia. Eram os anéis.
  • Manchas no Sol, sinal de que também ele muda.
  • As fases de Vênus, que o sistema de Ptolomeu não acomodava.

As primeiras descobertas saíram em março de 1610, no Mensageiro das estrelas. Nenhuma provava sozinha que a Terra gira em torno do Sol, e Galileu sabia disso. Juntas, deixaram o céu aristotélico sem defesa.

A bala de canhão, a pena e o martelo

Nas gravuras do século XVI, a bala de canhão subia em linha reta, perdia o impulso e caía na vertical, como mandava a física de Aristóteles. Galileu decompôs o movimento em duas partes: um deslocamento horizontal constante e uma queda que acelera. Somadas, desenham uma parábola, a curva que qualquer pedra arremessada descreve. Mostrou também que a distância percorrida na queda cresce com o quadrado do tempo, qualquer que seja o peso do corpo.

A cena de Galileu soltando duas bolas do alto da Torre de Pisa vem de seu discípulo Vincenzo Viviani, e os historiadores discutem se ela aconteceu. O teste definitivo veio em 2 de agosto de 1971: na Lua, sem ar, o astronauta David Scott, da Apollo 15, soltou um martelo e uma pena de falcão, que tocaram o chão juntos. A Torre de Pisa tem companhia entre as lendas da ciência.

O candelabro da catedral

Segundo Viviani, o jovem Galileu reparou num candelabro que balançava na catedral de Pisa e notou que as oscilações pareciam durar o mesmo tempo, largas ou curtas. O experimento cabe em qualquer casa:

  1. Amarre um objeto pesado, como um molho de chaves, na ponta de um barbante de um metro.
  2. Afaste-o um pouco da vertical e solte.
  3. Conte o tempo de dez oscilações completas.
  4. Troque as chaves por um objeto mais leve, mantendo o comprimento, e repita.
  5. Encurte o barbante para 25 centímetros e repita de novo.

O peso não muda o período. O comprimento muda: com um quarto do barbante, o período cai pela metade, porque varia com a raiz quadrada do comprimento. A regularidade vale para oscilações pequenas; em ângulos grandes, o período cresce um pouco. Galileu pensou em usar essa regularidade para medir o tempo, e em 1656 Christiaan Huygens construiu o primeiro relógio de pêndulo.


Escrever para quem não lia latim

O Mensageiro das estrelas saiu em latim, a língua dos eruditos. Os grandes livros seguintes, o Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo, de 1632, e as Duas novas ciências, de 1638, saíram em italiano, para quem não tinha passado pelos mosteiros e universidades. Repare que a escolha tinha custo: um livro que qualquer pessoa alfabetizada podia ler espalhava as ideias além do controle da Igreja, e o Diálogo levou à condenação de 1633.

Gleiser vê em Galileu o sucessor científico do xamã das culturas antigas, aquele que traduzia para a comunidade as mensagens do céu. A divulgação científica tem, no mínimo, quatro séculos.

Nenhuma dessas descobertas exigiu gênio fora do alcance humano. Exigiu desconfiar do que parecia óbvio e montar o teste que decidisse a questão. Seus instrumentos eram planos inclinados, relógios de água e lentes polidas à mão. Recomendava que ninguém aceitasse uma afirmação só pela autoridade de quem a fazia, fosse Aristóteles ou um professor.


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