A ilha do conhecimento: quanto mais sabemos, mais ignoramos?

A ilha do conhecimento é a metáfora de Marcelo Gleiser para os limites da ciência: tudo o que sabemos cresce cercado por um oceano de desconhecido, e cada avanço aumenta a margem onde nascem perguntas que antes nem existiam.

Numa noite de 1686, no jardim de um castelo, um filósofo e uma marquesa conversam sobre a possibilidade de haver vida em outros planetas. A cena abre Conversas sobre a pluralidade dos mundos, livro em que o francês Bernard de Fontenelle divulgou a astronomia de seu tempo. Quando a marquesa pergunta o que é a filosofia, ouve que ela se funda em duas coisas apenas: o espírito curioso e a vista fraca.

A frase serve de epígrafe à metáfora que Gleiser apresenta no curso Pense Como Cientista e desenvolve no livro A Ilha do Conhecimento, de 2014.


Curiosidade e miopia

A curiosidade empurra para fora; a miopia marca até onde se enxerga. Os limites dessa miopia são de três tipos:

  • Instrumentos. Todo aparelho amplia os sentidos e tem alcance e precisão próprios. O telescópio de Galileu mostrou as luas de Júpiter; as outras galáxias só apareceriam três séculos depois, com espelhos muito maiores.
  • Modelos. Cada teoria descreve uma parte da realidade e deixa o resto de fora, como qualquer mapa.
  • Imaginação. Ninguém imagina no vazio. Mesmo a ficção científica extrapola o que já se conhece, e por isso certas perguntas só podem ser formuladas depois que algum conhecimento novo as torna pensáveis.

Os três limites recuam com o tempo, e nenhum deles desaparece. Um instrumento melhor sempre tem um sucessor à espera.

A ilha do conhecimento e o oceano

Tudo o que se sabe sobre a natureza cabe numa ilha, cercada por um oceano de desconhecido. A ilha cresce a cada descoberta, e aí mora o paradoxo: quanto maior a ilha, mais longa a costa, e é na costa que o conhecido toca o desconhecido. Saber mais amplia a fronteira onde nascem as perguntas.

A multiplicação das disciplinas mostra o efeito. No século XVII, a filosofia natural cobria quase tudo; hoje há bioquímica, astrofísica, ciência dos materiais e centenas de especialidades que nem tinham nome.

Gleiser reconhece que a imagem tem precursores. Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, de 1872, descreveu a ciência como um círculo cuja periferia toca o inexplicável, tema que reaparece em Platão, Nietzsche e a verdade em disputa. O físico Victor Weisskopf falou do conhecimento como uma esfera em expansão. John Archibald Wheeler, que popularizou o termo “buraco negro” em 1967, usou a própria figura da ilha.

Perguntas que não podiam existir

Cada avanço traz perguntas que antes nem faziam sentido. Dois casos mostram o mecanismo:

  • As outras galáxias. Em 1924, Edwin Hubble mediu, com o telescópio de 2,5 metros do Monte Wilson, na Califórnia, a distância de estrelas variáveis chamadas cefeidas na nebulosa de Andrômeda e mostrou que ela fica muito além da Via Láctea. Cinco anos depois, relacionou a distância das galáxias à velocidade com que se afastam: o universo se expande. Daí vieram perguntas impensáveis antes, sobre o que move a expansão, onde ela começou e como a matéria se comporta num espaço que cresce.
  • A vida invisível. Na década de 1670, o holandês Antonie van Leeuwenhoek observou ao microscópio uma gota d’água cheia de seres minúsculos. A pergunta sobre o que é estar vivo ganhou outra escala: qual é o menor ser vivo, como uma única célula se alimenta e se reproduz. O caminho levou, em 1953, à dupla hélice do DNA, que abriu outra margem de perguntas.

O incognoscível

E aqui vale prestar atenção: para Gleiser, parte do oceano nunca será alcançada pelo método científico. Ele chama essas regiões de incognoscível e aponta três origens:

  • Do universo. Explicar o surgimento do espaço, do tempo e da energia exigiria conceitos anteriores a eles, algo como uma ciência capaz de explicar a própria ciência.
  • Da vida. Ela surgiu na Terra entre 3,5 e 4 bilhões de anos atrás, e as pistas que restam são incompletas. Mesmo que se crie vida em laboratório, não haverá como saber se o caminho foi o mesmo.
  • Da mente. A consciência escapa às medidas que servem para temperatura ou pressão, e ninguém sabe ainda como defini-la para medi-la. A questão tem longa história, como mostra o post Descartes e Turing.

A tese é contestada: muitos cientistas veem nesses problemas apenas perguntas ainda sem resposta. Seu alvo, porém, é claro: o cientificismo herdado do Iluminismo, a crença de que toda pergunta razoável terá, um dia, resposta científica.

A consequência prática da metáfora é a humildade. Ninguém conhece mais do que a própria ilha, e a ilha de cada um é pequena diante do oceano. Nas palavras do autor, “a arrogância é uma forma de cegueira”. Einstein chegava perto disso pelo outro lado, ao dizer que a emoção mais funda que se pode sentir é a do mistério.


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