Einstein acreditava em Deus? O Deus de Spinoza explicado

Perguntado se acreditava em Deus, Einstein respondeu que acreditava no Deus de Spinoza. A frase é citada por religiosos e ateus, e só faz sentido para quem entende quem foi Spinoza.


Nova York, abril de 1929. O rabino Herbert Goldstein manda um telegrama a Albert Einstein com uma pergunta direta: o senhor acredita em Deus?

A resposta veio curta. Einstein disse que acreditava no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia das leis da natureza, e recusou a ideia de um Deus que acompanha o destino de cada pessoa.

Quase um século depois, a frase circula em sermões, em livros ateus e em correntes de WhatsApp. Para entender o que Einstein quis dizer, você precisa voltar à Amsterdã do século XVII.

Quem foi Baruch Spinoza: resumo rápido

  • Nasceu: em 24 de novembro de 1632, em Amsterdã, numa família de judeus portugueses. Em português, ele também é conhecido como Bento de Espinosa.
  • Morreu: em 21 de fevereiro de 1677, em Haia, aos 44 anos, de uma doença pulmonar.
  • Formação: estudou na escola da comunidade judaica de Amsterdã; depois aprendeu latim e leu Descartes.
  • Como vivia: polindo lentes para instrumentos ópticos, com uma pequena pensão de amigos.
  • A ideia que deixou: Deus e a natureza são a mesma realidade.
  • Por onde começar: Ética (1677), publicada depois da morte dele.

Por que Spinoza foi expulso da comunidade judaica?

Em 27 de julho de 1656, aos 23 anos, Spinoza recebeu um herem, a forma mais dura de exclusão da comunidade judaica de Amsterdã. O texto falava em “abomináveis heresias”, sem detalhar quais.

A família vinha de judeus portugueses que fugiram da Inquisição e encontraram em Amsterdã uma das poucas cidades onde podiam praticar a própria fé.

As ideias que ele defenderia depois dão pistas:

  • um Deus sem vontade: que age por necessidade, sem planos nem preferências;
  • a Bíblia como obra humana: escrita por pessoas em épocas diferentes, e lida como documento histórico;
  • nenhum milagre: a natureza segue sempre as mesmas leis, sem exceções.

Em 1670, publicou anonimamente o Tratado Teológico-Político, que defendia a liberdade de pensamento e foi proibido em vários lugares. Spinoza escrevia na Holanda, um dos países mais tolerantes da Europa. Na Itália, poucas décadas antes, a história tinha sido outra, como mostra o caso de Galileu e a Igreja.

O que é o Deus de Spinoza?

Na Ética, Spinoza propõe que existe uma única substância, infinita, da qual tudo faz parte. Ele a chama de “Deus ou Natureza”.

Por isso Spinoza costuma ser chamado de panteísta, rótulo que os estudiosos ainda discutem, já que a palavra nem existia quando ele escreveu.

Esse Deus não escuta orações, não premia nem castiga e não tem propósito para o mundo. Tudo o que acontece segue necessariamente das leis da natureza, como as conclusões seguem das premissas numa demonstração geométrica.

Repare no que sobra para a religião nessa visão. Para Spinoza, a forma mais alta de amor a Deus é compreender a natureza. Conhecer as leis do universo vira uma experiência quase espiritual.

O que Einstein disse sobre Deus?

O telegrama de 1929 é o registro mais famoso. Em outros textos, Einstein falou de um sentimento religioso cósmico: o espanto diante da ordem do universo, que ele considerava o motor mais nobre da pesquisa científica. Einstein leu a Ética várias vezes e chegou a escrever um poema em homenagem a Spinoza.

Marcelo Gleiser discute essa atitude de Einstein no livro e no curso que viraram o texto sobre a ilha do conhecimento.

Em 1954, numa carta ao filósofo Eric Gutkind, Einstein foi mais duro. Escreveu que a palavra Deus era produto da fraqueza humana e que a Bíblia reunia lendas respeitáveis, porém primitivas. A carta foi leiloada em 2018 por quase 3 milhões de dólares, como registrou a Scientific American.


Einstein era ateu?

Ele recusava o rótulo. Em várias cartas, chamou a si mesmo de agnóstico e criticou tanto a religião tradicional quanto os ateus militantes de sua época. Dizia ver na natureza uma ordem que despertava humildade, e achava essa atitude parecida com um sentimento religioso.

Richard Dawkins, em Deus, um Delírio, chama essa posição de “religião einsteiniana” e argumenta que ela é naturalismo com linguagem poética. O texto sobre Richard Dawkins mostra de onde vem essa leitura.

Vale também um alerta. Circula na internet um texto em que “Deus fala” e manda a pessoa parar de rezar, atribuído a Spinoza. Nenhuma linha dele aparece na obra do filósofo. O verbete sobre Spinoza da Stanford Encyclopedia of Philosophy é um bom ponto de partida para ler o que ele de fato escreveu.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte o que você pensa da ideia de um Deus que é a própria natureza.

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