Hannah Arendt e a banalidade do mal: o que ela quis dizer?

Hannah Arendt esperava encontrar um monstro no julgamento de Eichmann e encontrou um funcionário. Daí veio uma das ideias mais discutidas do século XX: o mal extremo pode nascer da recusa de pensar.


Jerusalém, abril de 1961. Numa cabine de vidro, um homem calvo, de óculos, toma notas com cuidado de escriturário.

É Adolf Eichmann, o oficial nazista que organizou a deportação de milhões de judeus para os campos de extermínio.

Na plateia, uma filósofa judia alemã que fugiu do nazismo acompanha o julgamento como correspondente da revista The New Yorker. Hannah Arendt esperava ver a encarnação do mal. Viu um homem que falava por frases feitas e se orgulhava de cumprir ordens.

Quem foi Hannah Arendt: resumo rápido

  • Nasceu: em 14 de outubro de 1906, em Linden, hoje parte de Hanôver, Alemanha.
  • Morreu: em 4 de dezembro de 1975, em Nova York, aos 69 anos.
  • Formação: filosofia em Marburgo, Friburgo e Heidelberg, com doutorado orientado por Karl Jaspers.
  • Trajetória: presa pela Gestapo em 1933, fugiu para Paris e chegou aos Estados Unidos em 1941.
  • A ideia que deixou: o mal mais extremo pode ser praticado por gente comum que abre mão de pensar.
  • Por onde começar: Eichmann em Jerusalém (1963); a obra mais ampla é Origens do Totalitarismo (1951).

O que aconteceu no julgamento de Eichmann?

Eichmann fugiu para a Argentina depois da guerra e viveu anos com nome falso. Em 1960, foi capturado em Buenos Aires por agentes israelenses e levado a Jerusalém.

O julgamento começou em abril de 1961. A defesa repetia uma ideia: ele obedecia ordens e cumpria as leis do seu país. Eichmann foi condenado à morte e enforcado em 1962. O julgamento foi filmado, e sobreviventes dos campos deram depoimentos que muita gente ouvia pela primeira vez.

Os textos de Arendt saíram na New Yorker e viraram livro em 1963, com um subtítulo que entrou para o vocabulário da filosofia: um relato sobre a banalidade do mal.

O que é a banalidade do mal?

A expressão descreve o agente, e deixa intacta a gravidade do crime. O que Arendt chamou de banal foi a pessoa que cometeu atrocidades sem nenhuma profundidade aparente.

Ela destacou três traços em Eichmann:

  • a linguagem de clichês: falava por fórmulas prontas, como se repetisse um formulário;
  • o zelo pela regra: tratava a eficiência como virtude, sem perguntar para que servia;
  • a ausência de reflexão: parecia incapaz de pensar a partir do lugar do outro.

Para Arendt, o perigo maior estava aí. Um sistema criminoso pode funcionar com pessoas que apenas executam, sem ódio especial e sem pensar no que fazem. O texto sobre o esforço de pensar mostra como essa preguiça mental aparece no cotidiano.

Arendt nunca negou a culpa de Eichmann. No epílogo do livro, ela defende a sentença de morte.

Por que o livro causou tanta polêmica?

Eichmann em Jerusalém rendeu ataques duros, inclusive de amigos próximos. As críticas principais foram estas:

  • o papel dos conselhos judaicos: Arendt comentou a cooperação de líderes judeus com os nazistas, e muitos leram isso como acusação às vítimas;
  • o tom: a ironia de alguns trechos pareceu fria diante do assunto;
  • o risco de absolvição: houve quem entendesse “banal” como “menos grave”;
  • o retrato de Eichmann: pesquisas posteriores, como a de Bettina Stangneth em 2011, mostraram um Eichmann ideologicamente convicto, que se gabava do que fez quando falava entre nazistas na Argentina.

O historiador Gershom Scholem, amigo de longa data, escreveu a ela uma carta acusando falta de sensibilidade. A amizade não resistiu. Décadas depois, o filme Hannah Arendt (2012), de Margarethe von Trotta, levou essa polêmica ao cinema.


O que Arendt diz sobre a importância de pensar?

Nos últimos anos de vida, Arendt voltou ao tema no livro A Vida do Espírito, publicado em 1978. Para ela, pensar é um diálogo silencioso consigo mesmo, como fazia Sócrates. Ela comparava o pensamento ao vento: invisível, e mesmo assim capaz de desarrumar certezas.

Quem pensa precisa conviver com a própria consciência depois de agir. Esse diálogo interno funciona como freio. Ele trava algumas ações justamente porque a pessoa não aceitaria viver consigo depois delas.

Arendt também escreveu sobre a mentira na política, num ensaio de 1967 que segue atual em tempos de verdade em crise. E a defesa que ela fazia de uma esfera pública plural dialoga com outra ideia nascida da Segunda Guerra, o paradoxo da tolerância, de Karl Popper.

O verbete sobre Hannah Arendt na Stanford Encyclopedia of Philosophy apresenta a obra completa. Para quem trabalha com educação, um artigo da Revista Brasileira de Educação liga a banalidade do mal à formação moral nas escolas.


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