Tolerância ilimitada pode acabar com a própria tolerância. A frase de Popper virou meme nas redes, e o argumento original é bem mais cuidadoso do que a versão que circula.
Você provavelmente já viu a imagem. Uma ilustração em quadrinhos, o nome de Karl Popper e uma frase de efeito sobre não tolerar os intolerantes.
O meme é compartilhado por gente de lados opostos, cada um convencido de que o intolerante é o outro. No Brasil, a frase aparece em discussões sobre eleições, decisões judiciais e moderação de conteúdo.
A ideia nasceu numa nota de rodapé, escrita durante a Segunda Guerra por um filósofo exilado do outro lado do mundo. E o que ela diz exige mais cuidado do que cabe numa imagem.
O que é o paradoxo da tolerância?
O paradoxo é simples de enunciar. Se uma sociedade tolera tudo, inclusive quem quer acabar com a tolerância, os intolerantes podem vencer e eliminar a própria liberdade que os protegia.
Popper tinha um exemplo próximo. Na Alemanha da República de Weimar, o partido nazista disputou eleições e ocupou o Parlamento. Em 1933, chegou ao poder pelas regras democráticas e as desmontou em poucos meses.
Daí a conclusão difícil para os liberais mais radicais: para preservar uma sociedade tolerante, algum limite pode ser necessário.
A pergunta complicada começa depois. Qual limite, para quem e decidido por quem?
Onde Popper escreveu isso?
Em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, publicado em 1945. O paradoxo aparece na nota 4 do capítulo 7 do primeiro volume, ao lado de outros dois, o da liberdade e o da democracia. Seguem a mesma lógica: a liberdade total permitiria ao forte escravizar o fraco, e uma democracia poderia eleger quem quer acabar com ela.
Popper escreveu o livro na Nova Zelândia, onde lecionava desde 1937 depois de fugir da Áustria. De família judaica, ele perdeu parentes no Holocausto. O alvo era o totalitarismo, nazista e soviético, e as filosofias que, segundo ele, abriam caminho para ele. O perfil de Karl Popper conta essa trajetória.
Popper defendia censurar opiniões?
A nota é mais restritiva do que o meme sugere. Lida com atenção, ela estabelece três pontos:
- o debate vem primeiro: enquanto for possível responder às ideias intolerantes com argumentos e mantê-las sob controle da opinião pública, suprimi-las seria imprudente;
- o limite está na recusa ao debate: o direito de reprimir vale contra quem rejeita qualquer argumento e manda os seguidores responderem com punhos ou armas;
- a incitação vira crime: pregar a perseguição e a intolerância deveria ser tratado como se trata a incitação ao assassinato.
Repare onde está a régua. Popper pensava em movimentos que abandonam a discussão e partem para a violência, e a simples opinião desagradável ficava fora disso.
O filósofo americano John Rawls chegou a uma conclusão parecida em 1971: os intolerantes devem ser tolerados, exceto quando ameaçam a segurança das instituições livres. Os dois autores, de tradições diferentes, chegam à mesma prudência: o limite existe e deve funcionar como exceção.
Quem decide o que é intolerância?
Aqui o debate se divide, e os dois lados têm argumentos sérios:
- quem defende limites lembra que democracias já foram destruídas por dentro, por grupos que usaram a liberdade para chegar ao poder e depois a suprimiram;
- quem teme o uso abusivo aponta que chamar o adversário de intolerante virou estratégia para calar opiniões legítimas;
- os dois concordam num ponto: alguém precisa decidir, e essa decisão nunca é neutra.
No Brasil, a Constituição protege a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, define o racismo como crime inafiançável. A régua existe na lei, e o debate gira em torno de onde e como aplicá-la.
O verbete sobre tolerância da Stanford Encyclopedia of Philosophy mostra como a filosofia política discute esse impasse há séculos. Um texto do Politize! apresenta o tema em linguagem de sala de aula.
Como o paradoxo aparece nas redes sociais?
As plataformas decidem todos os dias o que fica e o que sai. Cada uma segue regras próprias, os termos de uso, que mudam conforme a empresa e o país. Tribunais, em vários países, também vêm sendo chamados para arbitrar esse limite.
O ambiente das redes complica a régua de Popper. Nas câmaras de eco, quem discorda some da tela, e cada grupo enxerga o outro como a ameaça.
Hannah Arendt, que viveu o totalitarismo de perto, lembrava que a vida pública depende de pluralidade, de gente diferente falando no mesmo espaço. O perfil de Hannah Arendt retoma essa ideia.
O paradoxo da tolerância oferece uma pergunta bem formulada. A resposta, em cada caso concreto, continua sendo uma decisão política.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte onde você acha que a tolerância encontra o seu limite.