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Karl Popper foi o filósofo austríaco que criou o critério mais citado para separar ciência de pseudociência: a falsificabilidade. Antes disso, foi comunista por poucos meses, aprendiz de marceneiro e refugiado do nazismo no outro lado do planeta.
Cambridge, 25 de outubro de 1946. Uma sala pequena, lareira acesa, Bertrand Russell numa poltrona. O convidado da noite é um austríaco de quarenta e quatro anos, recém-chegado a Londres. E, na plateia, Ludwig Wittgenstein, o filósofo mais temido da universidade, gira um atiçador de lareira na mão enquanto discorda de tudo.
Lá pelas tantas, Wittgenstein desafia o visitante a dar um exemplo de regra moral. A resposta, segundo o próprio Popper, foi: “Não ameaçar palestrantes visitantes com atiçadores.” E Wittgenstein saiu batendo a porta.
Só que quem estava na sala conta a cena de jeitos diferentes, e há quem jure que a frase veio depois que Wittgenstein já tinha ido embora. Mesmo assim, o episódio pegou. E pegou porque resume o homem: Popper não recuava diante de autoridade nenhuma, nem com um atiçador apontado para ele.
Quem foi Karl Popper: resumo rápido
- Nasceu: em 28 de julho de 1902, em Viena.
- Morreu: em 17 de setembro de 1994, em Londres, aos 92 anos.
- Área: filosofia da ciência e filosofia política.
- Onde trabalhou: em Christchurch, na Nova Zelândia, e na London School of Economics.
- A ideia que deixou: uma teoria só é científica se disser que fato a derrubaria.
- Por onde começar: A Lógica da Pesquisa Científica (1934) ou A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945).
O que é a falsificabilidade de Karl Popper?
Popper cresceu numa casa de classe média judia e assimilada, com livros tomando as paredes. E a Viena daquele tempo fervia: Freud, marxismo, música dodecafônica, positivismo lógico. Ele provou de quase tudo.
Aos dezessete, em 1919, chegou a entrar para o movimento comunista. Mas a aventura durou pouco: numa manifestação, a polícia abriu fogo e colegas dele morreram. Foi daí que nasceu uma desconfiança que ele levaria para a vida toda, a de qualquer teoria que prometa um futuro inevitável e peça sacrifícios em nome dele.
No mesmo ano, veio a outra lição. O astrônomo Arthur Eddington fotografou um eclipse e confirmou uma previsão arriscada de Einstein: a luz das estrelas se curvaria ao passar perto do Sol. Se a curva não aparecesse, a relatividade ia para o lixo.
Repare no que Popper enxergou ali. A teoria de Einstein apostava tudo num teste, enquanto a psicanálise e o marxismo da época davam um jeito de explicar qualquer resultado. Uma teoria que explica tudo, pensou ele, acaba não dizendo nada.
Essa ideia virou livro em 1934, A Lógica da Pesquisa Científica. O conceito, com exemplos que vão de cisnes negros a coelhos fósseis, está explicado em O que é falseabilidade?. Antes de chegar lá, porém, Popper foi aprendiz de marceneiro, trabalhou com crianças em situação difícil e fez doutorado em 1928. Frequentou o Círculo de Viena, mas nunca entrou para o grupo. Era o crítico de dentro.
Do que fala A Sociedade Aberta e Seus Inimigos?
Com o nazismo avançando, Popper e a mulher, Josefine, aceitaram em 1937 o único convite que apareceu: dar aulas no Canterbury University College, em Christchurch, na Nova Zelândia. Literalmente o outro lado do mundo. Cerca de dezesseis parentes dele morreriam no Holocausto.
Foi lá, isolado, que ele escreveu A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945), um ataque às raízes filosóficas do totalitarismo, de Platão a Hegel e Marx. A tese cabe numa linha: uma sociedade boa é aquela capaz de corrigir os próprios erros, do mesmo jeito que a ciência corrige as teorias. E o livro teve vida longa:
- Na política, “sociedade aberta” virou vocabulário da reconstrução democrática do pós-guerra.
- Na filantropia, o investidor George Soros, que estudou na London School of Economics sob influência de Popper, batizou sua fundação de Open Society.
Em 1946, Popper se mudou para Londres e passou a lecionar na London School of Economics, onde ficou até se aposentar. Em 1965, virou Sir Karl.
Qual foi o debate entre Popper e Kuhn?
Acontece que, em 1962, Thomas Kuhn publicou A Estrutura das Revoluções Científicas, e os dois acabaram frente a frente num colóquio em Londres, em 1965. Onde Popper via progresso por refutação, Kuhn via trocas de paradigma científico. As objeções de Popper eram duas:
- Contra o relativismo: se paradigmas não podem ser comparados, a ciência perde o critério para dizer que uma teoria é melhor que outra.
- Contra a ciência normal: resolver quebra-cabeças sem questionar as regras do jogo parecia a Popper uma forma de dogma.
A briga nunca se resolveu, e talvez nem precise. Popper descreve como a ciência deveria funcionar; Kuhn, como ela funciona na prática. Juntos, explicam bastante. Quem quiser ir fundo no pensamento dele encontra um bom mapa no verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy e um resumo biográfico na Britannica.
E hoje, com teorias da conspiração que explicam tudo e nunca erram, a pergunta de Popper serve para qualquer conversa de bar: que fato faria você mudar de ideia? Se a resposta for “nenhum”, o debate sobre ciência, opinião e pseudociência já começou.
Popper passou a vida defendendo que nunca sabemos se estamos certos, só quando estamos errados. Para um homem tão briguento, era uma forma curiosa de humildade.
Críticas a Karl Popper
A falsificabilidade virou referência em filosofia da ciência, e também alvo das principais críticas da área:
- a ciência real: Thomas Kuhn mostrou que cientistas raramente abandonam uma teoria na primeira refutação, ponto central do debate de 1965;
- o teste isolado: pela tese de Duhem-Quine, uma hipótese nunca é testada sozinha, e um resultado negativo pode culpar qualquer suposição auxiliar;
- o grau de confirmação: filósofos bayesianos argumentam que evidências favoráveis aumentam a confiança numa teoria, algo que Popper recusava.
Um aluno de Popper levou a crítica mais longe: Paul Feyerabend negou que exista qualquer regra de método universal.
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