Thomas Kuhn: o físico que mudou a forma como entendemos a ciência

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Thomas Kuhn foi o físico e historiador americano que escreveu A Estrutura das Revoluções Científicas e popularizou a ideia de paradigma. Mostrou que a ciência avança por rupturas, e a expressão “mudança de paradigma” virou vocabulário de todo mundo.


Harvard, verão de 1947. Um jovem físico de 25 anos está sentado à escrivaninha com a Física de Aristóteles aberta e um lápis de quatro cores na mão. Ele precisa preparar aulas de história da ciência para alunos de humanas e, até ali, a leitura só confirma o que ele esperava: Aristóteles entendia muito pouco de física.

Aí ele levanta os olhos para a janela, distraído. E, de repente, as peças se reorganizam na cabeça dele. Aristóteles fazia outra física, com outras perguntas e outros critérios, e dentro dela tudo fazia sentido.

Thomas Kuhn contou essa cena muitas vezes, e ela resume a obra dele inteira. Para entender a ciência de uma época, é preciso primeiro entender com que olhos ela via o mundo.

Quem foi Thomas Kuhn: resumo rápido

  • Nasceu: em 18 de julho de 1922, em Cincinnati, Estados Unidos.
  • Morreu: em 17 de junho de 1996, em Cambridge, Massachusetts, aos 73 anos.
  • Formação: física em Harvard, com doutorado em 1949.
  • Onde trabalhou: Berkeley, Princeton e MIT.
  • A ideia que deixou: a ciência alterna longos períodos de estabilidade com revoluções que trocam o paradigma inteiro.
  • Por onde começar: A Estrutura das Revoluções Científicas (1962).

Do que fala A Estrutura das Revoluções Científicas?

A saída da física foi aos poucos. As aulas de história, que ele começou a dar a convite do reitor de Harvard, James Conant, foram puxando Kuhn para outro lado. Passou por Berkeley, Princeton e MIT, sempre ensinando história e filosofia da ciência.

Em 1962, publicou o livro que o tornaria famoso. A visão dominante dizia que a ciência avança somando descobertas, tijolo por tijolo. Kuhn propôs um ciclo:

  • Ciência normal: a comunidade trabalha dentro de um paradigma aceito e resolve os “quebra-cabeças” que ele propõe.
  • Crise: anomalias que o paradigma não explica começam a se acumular.
  • Revolução: um paradigma novo substitui o antigo e redefine as perguntas, os métodos e até o que conta como fato.

O conceito, com exemplos que vão de Copérnico à física quântica, está explicado em O que é um paradigma científico?. E o livro virou um fenômeno: mais de um milhão de exemplares vendidos e presença na lista dos cem livros mais influentes do pós-guerra do Times Literary Supplement.

O que é mudança de paradigma e incomensurabilidade?

Só que o sucesso trouxe um efeito colateral. “Mudança de paradigma” escapou da filosofia e foi parar em reunião de empresa, propaganda e livro de autoajuda, quase sempre com menos rigor do que Kuhn pretendia.

A ideia mais polêmica, porém, era outra: a incomensurabilidade. Para Kuhn, paradigmas rivais não podem ser comparados termo a termo, porque usam as mesmas palavras com sentidos diferentes. A “massa” de Newton e a “massa” de Einstein, por exemplo, não significam exatamente a mesma coisa. Se é assim, como dizer que a ciência progride? A pergunta perseguiu Kuhn pelo resto da vida.

O que Kuhn e Popper discutiram em 1965?

Em 1965, um colóquio em Londres reuniu os maiores filósofos da ciência da época para discutir o livro, e em boa parte para criticá-lo. Estavam lá Karl Popper, Imre Lakatos e Paul Feyerabend. As objeções principais:

  • Relativismo: se paradigmas não se comparam, a ciência perde o critério de progresso. Kuhn negou a acusação a vida inteira.
  • Vagueza: a filósofa Margaret Masterman contou mais de vinte sentidos diferentes para “paradigma” no livro. Na segunda edição, em 1970, Kuhn tentou afinar o conceito.
  • Sociologia demais: a ênfase no papel da comunidade científica irritou quem via nisso uma redução da ciência a dinâmica de grupo.

Kuhn chegou a brincar que as leituras dos críticos eram tão diferentes do que ele quis dizer que dava vontade de supor a existência de dois Thomas Kuhns.

Qual é o legado de Thomas Kuhn?

Kuhn morreu em 1996, trabalhando num segundo livro que nunca terminou. Mas o primeiro bastou. Ajudou a criar os estudos sociais da ciência, mudou a forma de contar a história da ciência e deu ao público uma palavra que todo mundo usa, mesmo sem saber de onde veio.

A lição dele serve para quem não é cientista. A ciência é feita por pessoas, com treino, hábitos e resistência a mudar, e mesmo assim funciona. O verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy aprofunda o pensamento dele, e a Britannica traz a biografia. E, para entender o Aristóteles que tanto o surpreendeu, vale ler Qual a diferença entre Platão e Aristóteles?.

Críticas a Thomas Kuhn

A Estrutura das Revoluções Científicas mudou a filosofia da ciência, e quase todos os conceitos do livro foram contestados:

  • a palavra paradigma: a filósofa Margaret Masterman contou 21 sentidos diferentes do termo no livro, e o próprio Kuhn depois propôs trocá-lo por “matriz disciplinar”;
  • o relativismo: Popper e Lakatos acusaram a teoria de transformar a mudança científica em questão de psicologia de grupo, sem critério racional;
  • a incomensurabilidade: se teorias rivais não podem ser comparadas, fica difícil dizer que a ciência progride, objeção que Kuhn passou o resto da vida tentando responder.

Paul Feyerabend, que usou a palavra “incomensurabilidade” na mesma época, levou a tese ainda mais longe.


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