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Alan Turing foi o matemático britânico que definiu o que é computar, ajudou a quebrar códigos nazistas na Segunda Guerra e propôs o teste mais famoso sobre máquinas que pensam. Condenado por ser homossexual, morreu aos 41 anos.
Cambridge, 1935. Um jovem matemático de 23 anos sai para correr pelos campos perto do rio, como fazia quase todo dia. Lá pelas tantas, deitado na grama para descansar, ele encontra a resposta para um problema que atormentava os lógicos havia anos: existe um procedimento mecânico capaz de decidir se qualquer afirmação matemática é verdadeira?
Para responder, Alan Turing imaginou uma máquina. Uma fita infinita, um cabeçote que lê e escreve símbolos, um punhado de regras. E, no caminho, sem querer, descreveu o computador antes de o computador existir.
Toda vez que você desbloqueia o celular, está usando uma ideia que nasceu na cabeça de um corredor deitado na grama. Só que a história de Turing tem também um lado escuro, e ela precisa ser contada inteira.
Quem foi Alan Turing: resumo rápido
- Nasceu: em 23 de junho de 1912, em Londres.
- Morreu: em 7 de junho de 1954, em Wilmslow, Inglaterra, aos 41 anos.
- Formação: matemática no King’s College, em Cambridge, e doutorado em Princeton (1938).
- Área: lógica matemática, computação, criptografia e biologia matemática.
- A ideia que deixou: a máquina universal, base teórica de todo computador.
- Por onde começar: o artigo “Computing Machinery and Intelligence” (1950), que é surpreendentemente legível.
O que é a máquina de Turing?
O artigo saiu em 1936, com um título seco, “On Computable Numbers”. E mostrava duas coisas. A primeira: há problemas que nenhuma máquina, por mais poderosa, consegue resolver. A segunda, e mais famosa: uma única máquina, a máquina universal, pode imitar qualquer outra, desde que receba as instruções certas.
Repare no tamanho disso. É a separação entre máquina e programa, entre hardware e software, descrita numa época em que “computador” era o nome de uma profissão, a das pessoas que faziam contas à mão. Quase cem anos antes, Ada Lovelace já tinha intuído que uma máquina de calcular poderia manipular qualquer símbolo. Turing deu à intuição dela uma forma matemática.
Como Alan Turing decifrou o Enigma?
Em 1939, Turing foi para Bletchley Park, o centro secreto de decifração britânico. O alvo era o Enigma, a máquina de criptografia das forças alemãs. E aqui vale um crédito que o cinema costuma esquecer: os matemáticos poloneses, liderados por Marian Rejewski, já tinham quebrado versões do Enigma nos anos 1930 e passaram o conhecimento aos britânicos às vésperas da guerra.
Foi em cima disso que Turing trabalhou. Projetou a Bombe, uma máquina eletromecânica que testava combinações em alta velocidade, e liderou a equipe que atacou o Enigma naval, o mais difícil de todos.
As mensagens decifradas ajudaram a proteger os comboios no Atlântico, e historiadores estimam que o trabalho de Bletchley encurtou a guerra em cerca de dois anos. Mas tudo ficou sob sigilo, e o público só soube da história nos anos 1970.
O que Alan Turing pesquisou depois da guerra?
Depois da guerra, Turing ajudou a projetar os primeiros computadores britânicos e, em 1950, publicou o artigo que abre com uma pergunta simples: máquinas podem pensar? Em vez de discutir o que é pensar, ele propôs um jogo.
Se uma máquina conversa por escrito de modo que um juiz não consiga distingui-la de uma pessoa, com que direito negamos que ela pensa? O confronto dessa ideia com a de René Descartes está em Descartes e Turing.
E, nos últimos anos, ele ainda mudou de área. Em 1952, publicou um estudo sobre como manchas e listras surgem nos seres vivos a partir de reações químicas. Ficou esquecido por décadas e hoje é referência na biologia matemática.
Por que Alan Turing foi condenado?
Em 1952, Turing foi processado por “indecência grave”, o crime que a lei britânica da época atribuía às relações homossexuais. Condenado, teve de escolher entre a prisão e um tratamento hormonal, a chamada castração química.
Escolheu o tratamento, perdeu a credencial de segurança e foi afastado do trabalho para o governo. Em junho de 1954, foi encontrado morto em casa. O inquérito concluiu por suicídio, e alguns biógrafos defendem a hipótese de acidente.
O país que ele ajudou a salvar levou quase sessenta anos para pedir desculpas. E o reconhecimento veio em camadas:
- Prêmio Turing (1966): a principal honraria da computação leva o nome dele.
- Perdão real (2013): a rainha Elizabeth II concedeu o perdão póstumo.
- Lei Alan Turing (2017): o perdão foi estendido a milhares de homens condenados pelas mesmas leis.
- Nota de 50 libras (2021): o rosto dele passou a estampar a cédula do Banco da Inglaterra.
Os manuscritos originais estão digitalizados no Arquivo Turing do King’s College, e a Britannica resume bem a trajetória. A pergunta que ele fez em 1950 voltou com força na era da IA, e hoje ecoa no trabalho de gente como Geoffrey Hinton.
Críticas a Alan Turing
A obra de Turing está entre as mais respeitadas do século XX, e mesmo assim algumas partes dela, e o modo como ela é contada, recebem objeções:
- o Teste de Turing: em 1980, o filósofo John Searle propôs o argumento do quarto chinês para mostrar que imitar uma conversa não prova compreensão;
- o herói solitário: filmes como O Jogo da Imitação (2014) apagam o trabalho de milhares de pessoas em Bletchley Park e o dos matemáticos poloneses que quebraram o Enigma antes da guerra;
- a previsão: Turing calculou que, por volta do ano 2000, máquinas enganariam um interrogador comum em 30% das conversas de cinco minutos, previsão que não se cumpriu no prazo.
Nenhuma dessas críticas toca na máquina de Turing, que segue como base teórica de todo computador.
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