René Descartes: o arquiteto da razão moderna

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René Descartes foi o filósofo e matemático francês do “penso, logo existo”, considerado o pai da filosofia moderna. Criou as coordenadas cartesianas, defendeu a dúvida como método e separou mente e corpo de um jeito que ainda provoca debate.

Alemanha, noite de 10 de novembro de 1619. Um soldado francês de 23 anos passa o inverno trancado num quarto aquecido por uma estufa, pensando. Naquela noite, tem três sonhos seguidos: um vendaval que o arrasta, um trovão que o acorda, um livro de poemas aberto numa pergunta sobre que caminho seguir na vida.

René Descartes acordou convencido de que tinha recebido uma missão: reconstruir todo o conhecimento humano a partir do zero, com a certeza da matemática. Parece exagero de sonhador. Mas foi o que ele passou a vida tentando fazer.

O homem que fundou a filosofia moderna na razão tirou a própria vocação de um sonho. E a biografia dele tem outras ironias, até o fim, quando uma rainha o fez acordar às cinco da manhã.


Quem foi René Descartes: resumo rápido

  • Nasceu: em 31 de março de 1596, em La Haye, na França, cidade que hoje leva o nome dele.
  • Morreu: em 11 de fevereiro de 1650, em Estocolmo, na Suécia, aos 53 anos.
  • Área: filosofia, matemática e ciências naturais.
  • Onde viveu: a maior parte da vida adulta nos Países Baixos, mudando de endereço com frequência.
  • A ideia que deixou: a dúvida metódica, que leva ao “penso, logo existo”.
  • Por onde começar: o Discurso do Método (1637), curto e escrito em francês para o leitor comum.

De soldado a filósofo: a formação de René Descartes

Descartes perdeu a mãe com um ano de idade e foi criado pela avó. Doente na infância, ganhou a permissão de passar as manhãs na cama, um hábito que carregou a vida inteira e que, segundo ele, era quando melhor pensava. Estudou no colégio jesuíta de La Flèche, um dos melhores da França, e depois se formou em direito.

Só que os livros não o satisfaziam. Resolveu estudar no “grande livro do mundo” e se alistou em exércitos estrangeiros, no começo da Guerra dos Trinta Anos. Foi num desses invernos militares que vieram os sonhos de 1619. Em 1628, mudou-se para os Países Baixos, onde havia mais tolerância para ideias novas, e lá escreveu quase toda a obra.

“Penso, logo existo”: a dúvida metódica

O plano de Descartes era radical: duvidar de tudo o que desse para duvidar e ver o que sobrava. E ele foi fundo:

  • Os sentidos: enganam, como mostra o remo que parece torto dentro da água.
  • O sonho: às vezes parece tão real quanto a vigília, então como ter certeza de que se está acordado?
  • A matemática: até ela poderia ser um truque de um “gênio maligno” que nos engana sobre tudo.

No fim da faxina, sobrou uma coisa de pé. Para duvidar, é preciso pensar, e para pensar, é preciso existir. Daí o famoso “penso, logo existo”, o chão firme sobre o qual ele quis reconstruir o resto. Foi daí também que saiu o dualismo: a mente, coisa pensante e imaterial, de um lado; o corpo, uma máquina, do outro. O problema de como os dois conversam atravessou os séculos, e o confronto dessa ideia com a de Alan Turing está em Descartes e Turing.

Coordenadas cartesianas e o método

Tem uma herança de Descartes que todo estudante conhece, mesmo sem saber de quem é. No apêndice do Discurso do Método, A Geometria, ele juntou álgebra e geometria, e daí saíram os eixos x e y que usamos até hoje. Toda vez que você vê um gráfico num jornal, está vendo uma invenção de Descartes. Sem ela, o cálculo de Isaac Newton não teria chão.

O método que ele propunha também virou referência: aceitar só o que é evidente, dividir cada problema em partes menores, ir do simples ao complexo e revisar tudo no fim. Pouco antes, na Inglaterra, Francis Bacon tinha apostado no caminho inverso, partindo da observação, como mostra o texto sobre o método indutivo. Séculos depois, Noam Chomsky buscaria em Descartes a ideia de que a linguagem é a marca mais clara da mente humana.


René Descartes hoje: o legado do pai da filosofia moderna

A vida pessoal teve seus golpes. Com uma empregada, Helena Jans, Descartes teve uma filha, Francine, que morreu aos cinco anos, de escarlatina, uma perda que ele disse ter sido a maior dor da vida. Manteve também uma longa troca de cartas com a princesa Isabel da Boêmia, que o apertava justamente no ponto fraco: como uma mente imaterial move um corpo?

Em 1649, aceitou o convite da rainha Cristina da Suécia para lhe dar aulas. Só que ela queria as lições às cinco da manhã, no inverno de Estocolmo. Descartes, o homem que pensava na cama, pegou uma pneumonia e morreu em poucos meses. Treze anos depois, as obras dele entraram no índice de livros proibidos da Igreja.

O pensamento dele é detalhado no verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy, e a Britannica traz a biografia completa. A pergunta que ele deixou, o que é pensar, continua aberta.


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