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Yuval Noah Harari chama a IA de “inteligência alienígena” para destacar que ela pode produzir decisões e ideias por processos diferentes dos humanos. A expressão não fala de extraterrestres: serve para pensar o que muda quando sistemas não humanos passam a influenciar escolhas humanas.
SÉRIE · IA e sociedade
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O que significa “inteligência alienígena”?
A expressão parece saída de ficção científica. Mas “alienígena”, aqui, não significa extraterrestre.
Yuval Noah Harari usa o termo para destacar que sistemas de inteligência artificial podem operar de maneiras profundamente diferentes das formas humanas de pensar.
Para ele, o caráter “alienígena” está justamente no fato de esses sistemas produzirem decisões e ideias por processos diferentes dos nossos.
A provocação não depende de imaginar que a máquina tenha consciência. O ponto é outro.
Um sistema pode participar de decisões humanas sem compartilhar corpo, infância, biografia ou experiência social da maneira como seres humanos compartilham.
Isso cria uma forma nova de relação com a tecnologia.
Ferramentas tradicionais não escolhem sozinhas
Uma calculadora executa operações que alguém solicita. Um martelo transmite a força de quem o utiliza.
Um automóvel amplia nossa capacidade de deslocamento, sem definir o destino da viagem.
Em todos esses casos, a ferramenta pode ser poderosa, mas a direção principal da ação continua claramente ligada ao usuário.
Sistemas de IA mais recentes complicam essa divisão.
Eles podem:
- recomendar conteúdos;
- classificar candidatos;
- identificar transações suspeitas;
- priorizar informações;
- gerar alternativas;
- sugerir decisões.
Isso não significa que tenham vontade própria no sentido humano. Significa que o resultado já não precisa ser completamente especificado pelo usuário antes da execução.
É essa capacidade de gerar respostas novas dentro de determinado espaço de possibilidades que torna a metáfora de Harari interessante.
Diferente não significa misterioso
Há, porém, um cuidado importante.
Dizer que uma IA opera de maneira diferente dos seres humanos não significa que ela seja inexplicável, sobrenatural ou independente de tudo o que humanos fizeram.
Modelos são construídos por pessoas. Seu treinamento depende de dados, escolhas de engenharia, infraestrutura e objetivos definidos por organizações.
Mesmo sistemas capazes de produzir respostas inesperadas continuam funcionando dentro de arquiteturas e condições construídas por seres humanos.
O “alienígena” de Harari é, portanto, uma metáfora sobre diferença de processo, não uma afirmação de que surgiu uma inteligência vinda de fora da sociedade.
Essa distinção é importante porque a linguagem de Harari costuma ser deliberadamente forte.
O problema começa quando a diferença entra nas decisões
No texto anterior, vimos que a inteligência artificial já começa a participar da organização do trabalho. Ela resume documentos, propõe respostas, classifica informações e ajuda a decidir prioridades.
O passo seguinte é perceber que isso pode acontecer fora do ambiente de trabalho também:
- Serviços financeiros avaliam risco;
- Sistemas de recomendação organizam aquilo que merece atenção;
- Plataformas usam sistemas algorítmicos para decidir quais conteúdos aparecem primeiro;
- Ferramentas de busca e assistentes selecionam quais informações serão apresentadas em resposta a uma pergunta.
Em cada caso, existe algum tipo de mediação. O usuário ainda pode decidir.
Mas o faz dentro de um ambiente parcialmente organizado por sistemas que filtram, ordenam ou sugerem possibilidades.
É nesse sentido que a discussão de Harari deixa de ser apenas filosófica e passa a se tornar concreta.
A linguagem ocupa um lugar especial
Harari insiste bastante na linguagem porque ela já foi uma tecnologia central de organização das sociedades humanas.
Leis, religiões, contratos, moedas, instituições e identidades coletivas dependem de histórias, categorias e símbolos compartilhados.
Em entrevista à Folha de S.Paulo em 2025, ele argumentou que sistemas de IA poderiam influenciar pessoas sem controlar seus corpos diretamente: bastaria operar por meio da linguagem.
Essa afirmação precisa ser lida como argumento, não como previsão. Ainda assim, a preocupação é compreensível.
Sistemas atuais já conseguem produzir textos persuasivos, adaptar mensagens ao contexto e sustentar diálogos personalizados em grande escala.
Isso não significa que qualquer mensagem gerada por IA será convincente. Significa que a produção automatizada de linguagem passou a fazer parte do ambiente de informação.
E isso muda a escala do problema.
Quando a ferramenta ajuda a definir o que merece atenção
Imagine duas situações.
Na primeira, você usa uma ferramenta para executar uma tarefa que já decidiu realizar.
Na segunda, o sistema também ajuda a escolher qual tarefa parece importante, qual conteúdo aparece primeiro ou qual alternativa merece consideração.
A diferença é pequena na interface, mas grande socialmente.
No segundo caso, a tecnologia não participa apenas da execução, ela participa da formação do campo de escolhas.
Essa participação pode ser útil:
- Assistentes podem organizar alternativas rapidamente;
- Ferramentas de triagem reduzem volumes enormes de dados;
- Sistemas de recomendação ajudam a encontrar informação em ambientes impossíveis de percorrer manualmente.
Mas toda seleção envolve critérios. E critérios favorecem algumas possibilidades e deixam outras de fora.
É aí que a discussão sobre inteligência começa a se transformar em algo bem maior.
Quando a IA começa a ocupar espaço demais
Ao longo desta série, vimos a IA sair dos bastidores, tornar-se mais acessível e entrar no processo de trabalho.
Com Harari, aparece outro passo: sistemas de IA também começam a participar daquilo que vemos, consideramos relevante e escolhemos fazer.
Isso pode facilitar decisões. Mas também significa conviver com mais sugestões, respostas, recomendações, alertas e possibilidades geradas por máquinas.
O ponto, então, deixa de ser apenas o que a IA consegue fazer por nós, e passa a ser também: o que acontece quando precisamos lidar com ela o tempo todo?
Mais tecnologia nem sempre significa menos esforço. Em alguns contextos, pode significar mais informação para avaliar, mais decisões para revisar e mais uma camada de atenção disputando espaço no cotidiano.
É daí que surge um fenômeno cada vez mais discutido: a fadiga de IA.
IA E SOCIEDADE
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