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Yuval Noah Harari é o historiador israelense que escreveu Sapiens, Homo Deus e Nexus. Especialista em história militar medieval, virou o autor que chefes de Estado e empresários de tecnologia consultam quando o assunto é o futuro da humanidade.
Imagine uma tese de doutorado sobre memórias de soldados na Renascença. Agora imagine o autor dessa tese, anos depois, sentado com presidentes em Davos para falar de inteligência artificial. Parece roteiro exagerado, mas é a trajetória de Yuval Noah Harari.
Tem mais um detalhe que ninguém espera. Todo ano, ele passa semanas em retiros de meditação em silêncio absoluto, sem livro, sem celular, sem conversa. Harari medita duas horas por dia desde 2000 e costuma dizer que, sem essa prática, não teria escrito nenhum dos livros.
Um medievalista que medita em silêncio acabou se tornando uma das vozes mais ouvidas sobre o barulho do século XXI. Vale entender como isso aconteceu, e também por que tanta gente torce o nariz para ele.
Quem é Yuval Noah Harari: resumo rápido
- Nasceu: em 24 de fevereiro de 1976, em Kiryat Ata, Israel.
- Formação: história na Universidade Hebraica, doutorado em Oxford (2002).
- Onde trabalha: Universidade Hebraica de Jerusalém.
- Área: história, com incursões em biologia, economia e tecnologia.
- Livros mais conhecidos: Sapiens (2011), Homo Deus (2015) e Nexus (2024).
- Por onde começar: Sapiens, sem dúvida.
Do que fala o livro Sapiens?
Sapiens narra setenta mil anos de história humana numa tacada só, cruzando biologia, antropologia e economia. Saiu em hebraico em 2011 e em inglês em 2014.
A tese central é fácil de lembrar: o Homo sapiens dominou o planeta porque aprendeu a acreditar em ficções compartilhadas, como dinheiro, nações, religiões e direitos. Um chimpanzé coopera com os chimpanzés que conhece; um humano coopera com milhões de desconhecidos que acreditam na mesma história.
Harari não planejava escrever best-seller nenhum. Em Oxford, a tese era sobre memórias militares entre 1450 e 1600, tema tão específico quanto parece.
A virada veio na sala de aula. De volta a Jerusalém, ele precisou dar um curso de introdução à história do mundo e descobriu que sabia contar a trajetória humana em escala gigante, e que os alunos gostavam.
A combinação funcionou. Sapiens foi recomendado por Barack Obama e Bill Gates, traduzido para dezenas de línguas e, somado aos livros seguintes, passa de 45 milhões de exemplares vendidos, segundo o site oficial do autor.
O que Harari diz sobre inteligência artificial em Homo Deus e Nexus?
Depois de contar o passado, Harari virou a câmera para o futuro.
Em Homo Deus (2015), argumentou que, com fome, peste e guerra sob relativo controle, a humanidade passaria a perseguir três metas novas: imortalidade, felicidade e poderes quase divinos, via tecnologia. E deixou uma pergunta no ar: se algoritmos passarem a conhecer você melhor que você mesmo, quem decide?
Em Nexus (2024), foi mais longe. O livro conta a história das redes de informação, dos mitos tribais às redes sociais, e trata a inteligência artificial como algo novo nessa história: pela primeira vez, a rede produz e escolhe informação por conta própria.
Harari gosta de dizer que a IA funciona como uma inteligência alienígena, estranha à experiência humana e, ao mesmo tempo, grudada na rotina de todo mundo. É o mesmo alerta que cientistas como Geoffrey Hinton vêm fazendo de dentro do laboratório.
O que Yuval Harari faz hoje?
Em 2019, Harari fundou com o marido, Itzik Yahav, a Sapienship, uma empresa de impacto social voltada para educação. E continua dividindo o tempo entre as aulas em Jerusalém, os palcos internacionais e os retiros de silêncio.
A discussão sobre IA tem outros ângulos no blog. Há quem questione até o nome da tecnologia, como mostra o texto sobre por que a IA não é “inteligente” nem “artificial”.
E, para um contraponto de peso, vale conhecer Noam Chomsky, que olha para os grandes modelos de linguagem com muito mais ceticismo que Harari.
Críticas a Yuval Harari
O sucesso tem preço, e as críticas vêm de vários lados:
- simplificação: generalizações que sacrificam nuances em nome da narrativa;
- determinismo tecnológico: subestimaria a capacidade humana de resistir aos algoritmos;
- autoridade fora da área: opina sobre neurociência e IA sem pesquisa própria;
- pontos cegos: 21 Lições para o Século 21 ignora a sustentabilidade.
O último ponto é do economista José Eli da Veiga, em coluna na Rádio USP, que mesmo assim recomenda o livro.
Harari não foge da crítica. Ele se descreve como alguém que tenta ligar pontos que especialistas costumam deixar soltos. Para os críticos, isso é vulgarização; para os leitores, é justamente o que o torna útil.
O talento de Harari está em reorganizar fatos conhecidos numa história que leva o leitor a pensar em escala de milênios. Num mundo que vive de notificação em notificação, isso já é bastante.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte em qual “ficção compartilhada” você mais confia no dia a dia.