Sapiens: o que o livro de Harari acerta e onde exagera?

Como um primata sem grande destaque passou a mandar no planeta? Yuval Noah Harari responde com uma ideia simples: cooperamos em massa porque acreditamos nas mesmas histórias.


Autor: Yuval Noah Harari – Publicação: 2011

Sapiens nasceu de um curso. Harari dava aulas de história do mundo na Universidade Hebraica de Jerusalém e transformou as anotações num livro, publicado primeiro em hebraico, em 2011. A versão em inglês saiu em 2014 e virou um dos livros de não ficção mais vendidos do século.

Eu li numa sentada, como quem lê romance. E esse é ao mesmo tempo o maior mérito e o maior risco do livro: Harari conta a história da humanidade com tanta segurança que dá vontade de acreditar em tudo. Vale ler com prazer e com um pé atrás.

Do que trata Sapiens?

O livro percorre cerca de 70 mil anos de história em quatro partes, organizadas por três grandes viradas:

  1. Revolução Cognitiva, há cerca de 70 mil anos, quando o Homo sapiens ganhou uma linguagem capaz de falar de coisas que não existem;
  2. Revolução Agrícola, há cerca de 12 mil anos, quando deixamos de caçar e coletar para plantar;
  3. Revolução Científica, há cerca de 500 anos, quando a humanidade admitiu a própria ignorância e começou a investigar.

A quarta parte trata da unificação da humanidade por dinheiro, impérios e religiões, e termina perguntando o que vem depois do Homo sapiens.

O que é a revolução cognitiva?

É a ideia mais famosa do livro. Para Harari, o salto do sapiens foi aprender a acreditar em ficções compartilhadas.

Um grupo de chimpanzés coopera bem até umas poucas dezenas de indivíduos. Humanos também, quando dependem só de conhecer uns aos outros. Harari usa o limite de cerca de 150 pessoas, o mesmo do número de Dunbar, para mostrar até onde a fofoca consegue manter um grupo unido.

Acima disso, entra a ficção. Exemplos que o livro usa:

  • dinheiro: um papel que só vale porque todo mundo acredita que vale;
  • nações: fronteiras e bandeiras que ninguém encontra na natureza;
  • empresas: a Peugeot, que existe como pessoa jurídica mesmo que todas as fábricas fechem;
  • direitos: acordos que dependem de muita gente concordar com eles.

É uma ideia poderosa e simples de lembrar, e por isso pegou.

Por que Harari chama a agricultura de fraude?

É o capítulo mais provocativo. Harari chama a Revolução Agrícola de “a maior fraude da história”. O raciocínio é este: o agricultor trabalhava mais, comia pior e adoecia mais do que o caçador-coletor. A população cresceu, mas a vida de cada pessoa piorou.

A frase mais lembrada é que não domesticamos o trigo. O trigo nos domesticou. Uma planta qualquer do Oriente Médio convenceu uma espécie inteira a cuidar dela, regar, proteger e espalhar pelo mundo.

É aqui que o livro encontra a discussão sobre o que significa ser natural. Harari lembra que nossas ideias de natural e não natural vêm mais da moral e da religião do que da biologia.

Quais são as críticas a Sapiens?

Muitas, e algumas pesadas. Vale conhecer antes de citar o livro em sala de aula:

  • simplificação: historiadores e antropólogos dizem que Harari transforma debates abertos em certezas;
  • caçadores-coletores idealizados: a vida pré-agrícola aparece mais feliz do que as evidências permitem afirmar;
  • saltos biológicos: a “revolução cognitiva” como evento único é contestada por quem estuda evolução humana;
  • tom de autoridade: um artigo da Current Affairs, de 2022, acusou o autor de trocar rigor por frases de efeito.

Harari responde que escreveu uma síntese para o público geral, e não um tratado. O perfil de Yuval Harari traz a trajetória dele e outras críticas, inclusive aos livros seguintes. O biólogo Jerry Coyne também comentou a polêmica no Why Evolution Is True.

Vale ler Sapiens?

Vale, com o pé atrás que mencionei.

  • É uma ótima porta de entrada. Poucos livros fazem tanta gente se interessar por história e evolução.
  • É divertido. Harari escreve com ironia e ritmo de conversa.
  • Use como ponto de partida. Cada capítulo levanta perguntas que merecem fontes mais cuidadosas.
  • Rende boa discussão. Em sala, funciona muito bem para treinar o olhar crítico, justamente porque o autor afirma tanto.

Se quiser seguir pela biologia, O Gene Egoísta mostra a evolução do ponto de vista do gene. Para entender por que histórias bem contadas convencem tanto, Rápido e Devagar. E, para uma ficção sobre uma sociedade unida por mitos administrados, Admirável Mundo Novo.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte qual ficção compartilhada você acha mais estranha quando para para pensar.


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