O Gene Egoísta: o que Dawkins quis dizer com esse título?

O título faz pensar em genes malvados e pessoas mesquinhas. Richard Dawkins quis dizer outra coisa: a evolução fica mais clara vista do ponto de vista do gene, e daí sai até a cooperação.


Autor: Richard Dawkins – Publicação: 1976

Poucos títulos de livro foram tão mal interpretados. Muita gente que nunca leu O Gene Egoísta acha que ele defende o egoísmo, ou que diz que somos programados para ser mesquinhos. O livro diz quase o contrário, e o próprio Dawkins já confessou que talvez tivesse escolhido mal. Ele chegou a dizer que O Gene Imortal, título sugerido pelo editor, teria evitado muita confusão.

Dawkins tinha 35 anos e era professor em Oxford quando o livro saiu. Quase cinquenta anos depois, ele ainda é a porta de entrada mais lida para entender a evolução. A trajetória do autor, inclusive as polêmicas que vieram depois, está no perfil de Richard Dawkins.

Do que trata O Gene Egoísta?

O livro propõe uma troca de lente. Em vez de olhar a evolução a partir do indivíduo ou da espécie, Dawkins olha a partir do gene, a unidade que de fato passa de geração em geração.

Nessa visão:

  • os genes são replicadores, moléculas que fazem cópias de si mesmas;
  • os corpos são máquinas de sobrevivência, construídas pelos genes para se copiarem;
  • a seleção natural favorece os genes que deixam mais cópias, seja qual for o efeito sobre o indivíduo.

É a mesma lógica de Charles Darwin, levada um nível abaixo. Darwin não sabia o que era um gene. Dawkins escreve depois da descoberta do DNA e junta as duas peças.

O que significa gene egoísta?

Aqui está o ponto que mais confunde. “Egoísta” é uma metáfora. O gene não quer nada, não pensa e não planeja. Dawkins chama de egoísta qualquer gene que, por seus efeitos, aumenta as chances de ser copiado.

O título fala do gene, e não da pessoa. Um gene “egoísta” pode muito bem produzir um animal generoso, se a generosidade ajudar esse gene a se espalhar. É esse o pulo do gato do livro.

Como genes egoístas explicam o altruísmo?

É a parte mais bonita, e a que responde a pergunta que incomodava Darwin: por que um animal se sacrifica por outro?

Dawkins apresenta três mecanismos, todos vindos da pesquisa de outros biólogos:

  1. Seleção de parentesco. Irmãos compartilham metade dos genes. Ajudar um irmão é ajudar cópias dos próprios genes. A ideia é do biólogo W. D. Hamilton.
  2. Altruísmo recíproco. Ajudo você hoje porque espero ajuda amanhã. Funciona em espécies que se reconhecem e lembram quem colaborou.
  3. Estratégias estáveis. Com a teoria dos jogos de John Maynard Smith, Dawkins mostra que, numa população, certas combinações de comportamento se mantêm sozinhas, sem que ninguém pense no “bem da espécie”.

O post sobre Parasyte usa justamente essa lógica para analisar um anime em que parasitas e humanos precisam aprender a cooperar.

O que é um meme, segundo Dawkins?

No último capítulo da primeira edição, Dawkins inventou uma palavra que hoje está em toda parte. Meme, para ele, é uma unidade de cultura que se copia de cérebro em cérebro: uma melodia, um bordão, uma moda, uma ideia.

A comparação é com o gene. Memes também competem, sofrem mutações e se espalham conforme sua capacidade de ser copiados, e não conforme seu valor ou sua verdade. Dawkins pensava em ideias religiosas e canções. A internet tomou a palavra emprestada para as imagens engraçadas, um exemplo perfeito de meme se espalhando.

Vale ler O Gene Egoísta?

Vale, e eu indicaria para qualquer pessoa que queira entender evolução de verdade.

  • É claro. Dawkins é um professor nato. Ideias difíceis viram exemplos de bichos, jogos e contas simples.
  • Pegue uma edição recente. As edições de aniversário trazem notas em que o próprio autor comenta o que mudaria hoje.
  • Tem críticos sérios. Stephen Jay Gould e outros biólogos acham que o gene não é a única unidade importante da seleção. Leia sabendo que o debate continua.
  • É uma leitura de base. Muitas discussões atuais, da edição genética de embriões à conversa de Dawkins com uma IA sobre consciência, ficam mais claras depois dele.

A Britannica resume a obra do autor, e a página do livro na Wikipédia lista as mudanças de cada edição.

Se quiser seguir, Sapiens conta o que a evolução fez com uma espécie em particular, a nossa. Frankenstein pergunta o que acontece quando o criador abandona a criatura. E Flores para Algernon mostra os limites de mexer na biologia de uma pessoa.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte se você também achava que o livro defendia o egoísmo.


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