Um médico decide estudar a loucura com rigor científico e começa a internar a cidade inteira. Machado de Assis escreveu uma sátira sobre o poder de quem tem autoridade para dizer o que é normal.
Autor: Machado de Assis – Publicação: 1882
Muita gente conhece O Alienista como leitura obrigatória da escola. Pouca gente lembra que ele é, antes de tudo, uma história sobre ciência. E sobre o que acontece quando um cientista confia tanto no próprio método que esquece de perguntar se está certo.
Machado publicou a história em capítulos no jornal A Estação, entre outubro de 1881 e março de 1882, e depois a incluiu no livro Papéis Avulsos, de 1882. É uma novela curta, que dá para ler numa tarde, e ainda assim cabe nela uma crítica que continua afiada.
Do que trata O Alienista?
A história se passa em Itaguaí, cidadezinha do interior do Rio de Janeiro. O doutor Simão Bacamarte, médico respeitado, decide se dedicar ao estudo da loucura e convence a Câmara a construir um hospício, a Casa Verde.
No começo, entram os doentes que todo mundo reconhece. Depois, Bacamarte começa a encontrar sinais de desequilíbrio em gente que parecia comum:
- o vaidoso que passa o dia admirando a própria casa;
- a mulher que não consegue escolher entre dois colares;
- o rapaz que faz discursos rebuscados demais;
- os indecisos, os bajuladores, os supersticiosos.
A Casa Verde vai enchendo. A cidade se assusta, e o barbeiro Porfírio lidera uma revolta contra o médico. Mas, depois de tomar o poder, o próprio Porfírio vai negociar com o alienista.
Quem é Simão Bacamarte?
Bacamarte é o cientista levado ao extremo. Ele estudou na Europa, tem método, faz anotações e acredita sinceramente que está servindo à humanidade. Não age por maldade nem por dinheiro.
É exatamente por isso que ele assusta. Machado desenha um homem tão convencido da própria teoria que não enxerga mais as pessoas, só os casos. Cada fato novo é encaixado na teoria, e nenhum fato consegue derrubá-la.
Repare como isso lembra o que o blog discute em ciência, opinião e pseudociência: uma teoria que explica tudo, e que reinterpreta qualquer evidência a seu favor, perdeu o que tinha de científico.
O que O Alienista diz sobre ciência e poder?
Bastante, e com uma virada genial. Quando quase toda a cidade está internada, Bacamarte revê a teoria. Se a maioria é desequilibrada, conclui, o anormal é ser equilibrado. Ele solta todo mundo e passa a internar os modestos, os leais, os sinceros e os pacientes.
A virada mostra o que estava em jogo desde o começo. O critério de normalidade vinha de quem tinha autoridade para defini-lo, e a natureza pouco tinha a ver com isso. É a mesma inversão que move Eu Sou a Lenda, em que a maioria muda e o protagonista acorda classificado como ameaça.
Três temas que o conto deixa para pensar:
- o poder de diagnosticar: quem classifica os outros controla a vida deles;
- a política por trás da ciência: a Câmara apoia ou combate o médico conforme a conveniência;
- o cientificismo: a crença de que o método resolve tudo, sem precisar de limite ético.
No Brasil real, essa discussão ganhou nome e lei. A psiquiatra Nise da Silveira combateu o tratamento desumano nos hospícios décadas antes da Reforma Psiquiátrica, aprovada em 2001. A discussão sobre os limites de quem pesquisa com pessoas continua em ética na ciência.
Por que O Alienista cai no vestibular?
Porque junta tudo o que as bancas gostam: Machado no auge, ironia fina, crítica social e um texto curto. A novela aparece com frequência em listas de leitura e em questões de interpretação.
Os pontos que mais caem:
- a ironia do narrador, que finge contar a história com seriedade de cronista;
- a crítica ao cientificismo e ao positivismo do século XIX;
- a relação entre ciência e política em Itaguaí;
- o final, com a última decisão de Bacamarte.
Sobre o final, só adianto que a lógica do médico é levada até a última consequência, e que ela recai sobre ele mesmo. Vale descobrir lendo.
Vale ler O Alienista hoje?
Vale, e eu diria que é a melhor porta de entrada para Machado.
- É curto. Cabe numa tarde, e o humor faz o texto correr.
- Está em domínio público. Dá para ler de graça em várias bibliotecas digitais.
- Ganhou versões novas. A adaptação em quadrinhos de Fábio Moon e Gabriel Bá, de 2007, levou o Prêmio Jabuti e é ótima para apresentar a história a adolescentes.
- Fica mais atual a cada leitura. Troque Casa Verde por algoritmo de classificação e o conto continua funcionando.
A página da obra na Wikipédia traz o histórico de publicação e as adaptações, e um artigo do portal Machado de Assis da USP aprofunda a leitura.
Se gostou, Eu Sou a Lenda inverte o normal por outro caminho. Flores para Algernon conta um experimento científico do ponto de vista de quem é estudado. E A Metamorfose mostra o que acontece com quem deixa de caber no padrão.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte quem você internaria na Casa Verde, se fosse o Bacamarte.