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Autor: Richard Matheson – Publicação: 1954
O terror de Eu Sou a Lenda mora numa inversão. De repente o protagonista é quem não encaixa. Matheson escreveu um romance sobre o que acontece quando a maioria muda e quem ficou no mesmo lugar acorda classificado como ameaça.
O livro costuma ser lido como história de sobrevivência, e funciona muito bem nesse registro, com solidão, medo, rotina defensiva e criaturas à porta. Mas, ganha outra dimensão quando você percebe onde Matheson quer chegar: o momento em que o centro se desloca e quem estava dentro descobre que está fora. Esse golpe narrativo é o que faz o romance durar, e quem só conhece os filmes perdeu exatamente isso.
O que acontece em Eu Sou a Lenda?
Robert Neville parece ser o último humano comum num mundo transformado. Uma pandemia alterou a maioria da população, e o que antes era humanidade ordinária virou exceção.
Neville resiste. Monta uma rotina de sobrevivência, reforça a casa durante o dia, pesquisa a doença, observa os padrões dos outros à noite. A parte mais impressionante do livro é justamente a mais silenciosa: ele passa anos tentando entender cientificamente o que aconteceu, lendo, testando amostras no microscópio, descartando hipóteses. É um homem sozinho refazendo o método científico numa casa cercada.
Durante boa parte da narrativa ele interpreta o mundo com as categorias de antes. Humano de um lado, criaturas do outro, ele é o sobrevivente e elas são a ameaça. O romance acompanha essa perspectiva até que, num giro preciso, o enquadramento muda. A sociedade ao redor já se reorganizou, e as criaturas já formam a nova ordem.
Por que Neville vira a lenda do título?
O golpe está nas últimas páginas, e ele é dos melhores da literatura de gênero.
Neville se torna lenda porque passou a ocupar, para o novo grupo dominante, exatamente o lugar que ele atribuía aos outros. Repare na simetria: durante toda a narrativa ele caça, se protege e classifica os outros como perigo, usando as categorias do mundo antigo. Do outro lado da fronteira, alguém também está classificando, e o nome que dão a Neville é o mesmo que ele dava a eles.
O homem que matava monstros dormindo, de dia, casa por casa, é o monstro que assombra as noites de alguém. As mães do novo mundo vão contar histórias sobre ele para assustar as crianças. Ele vira lenda no sentido de mito de terror, e entende isso na última frase.
A inversão dispensa violência espetacular. Basta que o padrão se desloque. Quem ficou parado enquanto o mundo se reorganizou pode acordar do lado errado da nova linha.
Quem define o normal em Eu Sou a Lenda?
Aqui está o eixo do livro, e o que o separa de outras histórias de sobrevivência.
Normalidade costuma parecer fixa, como se viesse de fábrica com certificado. Matheson mostra que ela é produto de critérios, narrativas e maiorias, e que a mudança dessas condições transforma o evidente em problema. Neville não mudou nada. Continua agindo como agia, pensando como pensava, resistindo como resistia.
O mundo em volta é que foi reorganizado por outro padrão:
- A antiga regra virou exceção, e Neville é a exceção.
- A antiga exceção virou maioria, e a maioria define o que conta como normal.
- O sobrevivente passou a ser visto como ameaça em vez de resistência.
- O antigo centro perdeu o lugar de centro sem que ninguém precisasse tomá-lo, porque bastou o padrão ao redor mudar.
Quem controla a narrativa majoritária controla também o nome das coisas, entre ameaça, desvio, risco, problema e anomalia. Nomear é uma forma de poder, e é a mesma disputa examinada em A era da opinião.
Matheson escreveu isso em 1954, num país em plena caça às bruxas anticomunista, onde a pergunta sobre quem decide o que conta como desvio tinha endereço bem concreto.
O romance funciona igualmente bem hoje, quando sistemas de visibilidade, recomendação e classificação também produzem normalidade: o que aparece mais ganha aparência de legitimidade, o que é rebaixado por ranking perde relevância percebida, e o que foge ao padrão pode ser tratado como problema antes de ser compreendido.
Os infectados de Eu Sou a Lenda são zumbis?
Esta parte da história costuma surpreender, inclusive quem já leu o romance.
As criaturas de Matheson são vampiros, com alho, estaca, espelho e todo o folclore. O que ele fez de novo foi tratá-las como epidemia, com bactéria, sintoma, contágio e explicação científica, em vez de maldição sobrenatural. Uma cidade inteira infectada, um sobrevivente barricado, a noite pertencendo a eles.
George Romero leu o livro e escreveu um conto a partir dele, que virou A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968. Romero admitiu a dívida sem rodeios, dizendo que basicamente tinha surrupiado a ideia de um romance de Richard Matheson chamado I Am Legend. Dali saiu o gênero inteiro: o apocalipse por contágio, o grupo de sobreviventes, a horda.
Praticamente tudo que você já viu sobre zumbis nasce de um livro de cerca de 170 páginas sobre vampiros.
Há três adaptações para o cinema, com Vincent Price em 1964, Charlton Heston em 1971 e Will Smith em 2007. Nenhuma manteve o final do livro. A de 2007 chegou a filmar um desfecho mais fiel ao original, e ele foi cortado da versão que foi aos cinemas.
Vale a pena ler Eu Sou a Lenda?
Vale muito, e é o tipo de leitura que se faz numa tarde de final de semana e fica por anos.
- É curto e direto. Cerca de 170 páginas, prosa limpa, sem gordura. Matheson escrevia para revista barata e aprendeu a não desperdiçar frase.
- Não leia sinopse, não leia orelha. O final é tudo, e é surpreendentemente fácil de estragar.
- Ignore (completamente) os filmes. Os três trocam o sentido do título, que é justamente o coração do livro.
O verbete de Richard Matheson dá a dimensão da carreira dele, que inclui roteiros para Além da Imaginação, e a ficha do romance reúne a linhagem que saiu dele.
Dentro da trilha sobre métricas, burocracia e o direito de não caber no padrão, este livro fecha o conjunto.
Em A Metamorfose, Kafka mostra a redução pela função. Em Nós, Zamiátin mostra a redução pela verificação. Aqui, Matheson mostra a redução pela maioria. Nos três, a pessoa é medida por uma régua que ela não desenhou.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – Matheson escreveu sobre um homem que acordou do lado errado da nova linha. O detalhe é que ele não se moveu. Foi a linha que mudou de lugar.