Quem decide o uso da ciência?

A ética na ciência começa por uma pergunta: quem decide o uso do que se descobre? De Frankenstein à bomba atômica, a resposta raramente esteve nas mãos de quem fez a descoberta.

No filme de 1931, Boris Karloff faz da criatura de Frankenstein um gigante de parafusos no pescoço, que grunhe e mata. Quem lê o romance de Mary Shelley encontra outro ser: alguém que aprende sozinho a falar e a ler, discute O Paraíso Perdido e pede ao criador, em longos discursos, um pouco de companhia. A versão de Hollywood ficou com o monstro e perdeu o dilema.

Marcelo Gleiser devolve o dilema ao centro na aula que encerra o curso Pense Como Cientista. A pergunta que atravessa o livro é a mesma que ronda a genética e a inteligência artificial hoje: até onde a ciência pode ir, e quem responde pelo que ela produz.


Victor Frankenstein e a boa intenção

Victor Frankenstein não queria fazer mal a ninguém. Queria vencer a morte. O romance nasceu em 1816, na Villa Diodati, às margens do lago de Genebra, quando Lord Byron desafiou os amigos a escrever uma história de fantasmas, e foi publicado em 1818. Mary Shelley e seu círculo acompanhavam o galvanismo: desde Luigi Galvani, nos anos 1780, sabia-se que a eletricidade fazia músculos de sapos mortos se contraírem. A pergunta estava no ar: seria a eletricidade o segredo da vida?

O dilema moral vem depois. A criatura pede uma companheira, e Victor começa a fazê-la, mas destrói o trabalho ao imaginar uma nova espécie mais forte que a humana. A análise completa do livro está em Por que os monstros envelhecem bem e no guia Frankenstein Por Dentro. A diferença entre conhecer e fabricar, que o romance encena, aparece em Ciência e Tecnologia: qual é a diferença.

A demonstração que não aconteceu

O Projeto Manhattan reuniu, entre 1942 e 1945, cientistas americanos e europeus que tinham fugido do nazismo, movidos pelo medo de que Hitler tivesse a bomba primeiro. Quando o primeiro teste explodiu em Alamogordo, no Novo México, em 16 de julho de 1945, a Alemanha já tinha se rendido. A decisão sobre o uso ficou assim:

  • O que parte dos cientistas propôs. Em junho de 1945, um grupo liderado por James Franck, em Chicago, recomendou demonstrar a bomba numa área desabitada, diante de observadores, antes de qualquer uso contra pessoas. Em julho, Leo Szilard reuniu dezenas de assinaturas numa petição ao presidente.
  • O que o governo decidiu. Um comitê consultivo rejeitou a demonstração. O presidente Harry Truman autorizou o ataque, com o argumento de que uma invasão do Japão custaria mais vidas.
  • O resultado. Hiroshima, em 6 de agosto, e Nagasaki, em 9 de agosto. Mais de 100 mil mortos até o fim daquele ano, e milhares de outros nas décadas seguintes.

O argumento oficial era um cálculo de vidas, a lógica do utilitarismo.

Quem financia decide

Gleiser tira do episódio uma conclusão que contraria quem culpa os cientistas por tudo: o uso de uma descoberta tende a ser decidido por quem a financia. A tecnologia de edição genética CRISPR, apresentada em 2012, pode corrigir doenças e pode alterar embriões. Em 2018, o pesquisador chinês He Jiankui anunciou os primeiros bebês com genes editados e acabou preso. As regras para o resto ainda estão em debate enquanto a técnica avança.

Há cientistas que tentam decidir por conta própria. Em 2023, Geoffrey Hinton deixou o Google para poder falar livremente sobre os riscos da inteligência artificial, a tecnologia que ajudou a criar.


Ética na ciência: regras de conduta

Decisões éticas são complicadas; princípios, nem tanto. Gleiser propõe quatro, que valem no laboratório e fora dele:

  • Não manipular dados. O que foi medido está medido. Alterar um resultado custa a reputação e contamina o trabalho de todos que dependem dele.
  • Desconfiar da vaidade. A ambição de ser famoso empurra para atalhos. O foco é o trabalho e quem pode se beneficiar dele.
  • Deixar os dados decidirem. Ter fé nas próprias ideias é legítimo; deixar que essa fé esconda o que está diante dos olhos é o começo do obscurantismo.
  • Ouvir quem discorda. Entender por que o outro pensa diferente antes de julgá-lo, e aceitar que ele pode ter razão.

Victor Frankenstein fugiu da criatura no instante em que ela abriu os olhos. A ética na ciência pede o gesto oposto: acompanhar o que se cria, discutir em público quem vai usá-lo e para quê, e lembrar que a motivação original da ciência é ampliar o conhecimento e aliviar o sofrimento.


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