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O número de Dunbar é a estimativa de que uma pessoa sustenta cerca de 150 relações estáveis. A ideia ajuda a pensar vínculos nas redes sociais, mas o valor exato é contestado pela própria pesquisa.
SÉRIE · A praça pública em disputa
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O que é o número de Dunbar?
Na década de 1990, o antropólogo britânico Robin Dunbar observou, em primatas, uma correlação entre o tamanho relativo do neocórtex e o tamanho dos grupos em que cada espécie vive.
Aplicando essa proporção aos humanos, chegou a cerca de 150.
Depois reforçou a estimativa com exemplos históricos – aldeias, unidades militares, comunidades religiosas – e descreveu camadas concêntricas de proximidade:
- cerca de 5 pessoas no círculo íntimo;
- 15 de confiança próxima;
- 50 de contato regular;
- 150 de relação ativa.
Cada camada custa tempo e atenção. É esse custo que dá sentido à ideia: vínculo exige manutenção.
150 é um limite fixo do cérebro?
Aqui a pesquisa pede cautela.
Em 2021, uma reanálise publicada na Biology Letters refez as contas com dados mais recentes de primatas e outros métodos estatísticos.
As estimativas para humanos variaram de cerca de 16 a 109 pessoas, conforme o método, com intervalos de confiança enormes – num dos modelos, de 4 a 520. Para os autores, cravar um número único é inútil.
Dunbar contestou a reanálise, e o debate continua.
Repare no que sobra quando o número perde a precisão. A ideia de que relações próximas são poucas porque custam caro continua bem apoiada. O que enfraquece é o 150 como teto biológico.
O que as redes sociais contam como conexão?
O Facebook limita perfis pessoais a 5.000 “amigos”. O Instagram mede alcance em seguidores. O LinkedIn exibe o tamanho da “rede” como credencial.
Nenhuma dessas métricas distingue camada. Um colega de escola que você não vê há vinte anos e a pessoa com quem você fala todos os dias ocupam o mesmo lugar na contagem.
Para a plataforma, a diferença pesa pouco: conexão gera dado, e dado gera receita.
Mais conexões significam menos solidão?
A pesquisa não encontra essa relação de forma consistente. Alguns dados ajudam a medir o descompasso:
- Em 2024, uma pesquisa da Associação Americana de Psiquiatria encontrou que 30% dos adultos de 18 a 34 anos se sentiam sós todos os dias ou várias vezes por semana.
- Num estudo com adultos mais velhos, ter mais seguidores mútuos elevou ao mesmo tempo a sensação de novas conexões e a solidão, quando as trocas eram superficiais.
- Uma revisão de 2025 com 40 ensaios clínicos sobre intervenções digitais contra a solidão encontrou efeito quando havia componente social ativo – grupos, conversa direta.
A distinção mais citada é entre uso ativo (conversar, trocar mensagens, ligar para alguém) e uso passivo (rolar o feed, assistir a stories).
Ela ajuda, mas simplifica: o efeito do mesmo hábito varia bastante de pessoa para pessoa.
O limite aparece também nas redes?
Dois estudos sugerem que sim, ao menos para os vínculos ativos.
Em 2011, pesquisadores analisaram 25 milhões de conversas de 1,7 milhão de usuários do Twitter (atual X) ao longo de seis meses.
Os usuários conseguiam manter, no máximo, entre 100 e 200 relações estáveis de troca; acima disso, a interação com cada contato caía.
Em 2015, o próprio Dunbar e colegas encontraram, no Facebook e no Twitter, as mesmas camadas de proximidade observadas fora das redes.
Um estudo de 2003 usou um termômetro curioso: as listas de cartões de Natal de famílias britânicas.
Somando as pessoas de cada casa que recebia cartão, a rede média chegou a cerca de 150 – número próximo da estimativa original, medido por um hábito concreto de manutenção de vínculos.
A ideia também inspirou decisões práticas.
A fabricante americana W. L. Gore, conhecida pelo tecido Gore-Tex, ficou famosa por limitar suas unidades a cerca de 150 funcionários, para que todos se conhecessem.
É um uso do número como regra de bolso – compatível com a leitura cautelosa que a reanálise de 2021 recomenda.
O que o número ainda ensina?
Mesmo sem precisão, a ideia de Dunbar organiza uma pergunta útil: quanto do seu tempo social vai para quem está nas camadas de dentro?
A disputa pela atenção que move as plataformas também é social. Cada minuto gasto administrando contatos distantes sai de algum lugar.
E o passo seguinte já começou: companhias artificiais que simulam presença para ocupar o espaço que as relações deixaram vazio.
Contar conexões supõe que do outro lado há alguém.
No próximo texto, a hipótese de que boa parte da rede já não tem gente – e o que os dados dizem sobre ela.
A PRAÇA PÚBLICA EM DISPUTA
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