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Noam Chomsky é o linguista americano que revolucionou o estudo da linguagem com a gramática gerativa e ajudou a fundar a ciência cognitiva. Fora da universidade, virou um dos críticos mais duros da política externa americana e da mídia.
Filadélfia, 1939. Um menino de dez anos escreve, para o jornal da escola, um editorial sobre a queda de Barcelona na Guerra Civil Espanhola. Tema pesado para a idade, e não seria o último.
Quase noventa anos depois, esse mesmo menino é um dos autores mais citados da história. Mudou a linguística antes dos trinta, foi preso protestando contra a Guerra do Vietnã e, já idoso, comprou briga com o ChatGPT. Poucas pessoas conseguiram ser tão rigorosas num laboratório de ideias e tão barulhentas na praça pública ao mesmo tempo.
E tem um detalhe que aproxima Chomsky do Brasil: desde 2023, ele vive em São Paulo com a mulher, a brasileira Valeria Wasserman, onde se recupera de um AVC que afetou a fala.
Quem é Noam Chomsky: resumo rápido
- Nasceu: em 7 de dezembro de 1928, na Filadélfia, Estados Unidos.
- Formação: linguística na Universidade da Pensilvânia, com doutorado em 1955.
- Onde trabalhou: no MIT, por mais de seis décadas, e depois na Universidade do Arizona.
- Área: linguística, ciência cognitiva e filosofia política.
- A ideia que deixou: a capacidade de linguagem é inata e compartilhada por toda a espécie humana.
- Por onde começar: Estruturas Sintáticas (1957), para a linguística, ou A Manipulação do Público (1988), para a política.
O que é a gramática gerativa de Chomsky?
Nos anos 1950, a psicologia dominante, o behaviorismo de B. F. Skinner, via a linguagem como um comportamento aprendido por imitação e recompensa. Na ficção, Anthony Burgess levou essa fé no condicionamento ao extremo em Laranja Mecânica (1962).
Chomsky chegou dizendo que essa conta não fechava. Em 1957, publicou Estruturas Sintáticas, um livrinho de pouco mais de cem páginas, e, dois anos depois, uma resenha demolidora do livro de Skinner sobre comportamento verbal.
Os argumentos dele eram três:
- A linguagem é inata. As crianças aprendem línguas complexíssimas rápido demais, e ouvindo frases incompletas demais, para que tudo se explique por imitação.
- Existe uma gramática universal. Por baixo das diferenças, todas as línguas humanas compartilham uma estrutura comum, que viria com o equipamento biológico da espécie.
- A gramática é gerativa. Um conjunto finito de regras gera um número infinito de frases, e é por isso que você entende esta aqui sem nunca tê-la lido antes.
Repare no alcance disso. A proposta ajudou a fundar a ciência cognitiva e puxou a linguística para perto da filosofia da mente. Chomsky, aliás, gostava de lembrar que René Descartes já tinha visto na linguagem a marca mais clara da mente humana.
O que é a hierarquia de Chomsky?
Tem uma contribuição que muita gente usa sem saber de onde veio.
Em 1956, Chomsky classificou as gramáticas formais em quatro níveis, do mais simples ao mais poderoso. A tal hierarquia de Chomsky virou matéria obrigatória nos cursos de computação, porque liga cada tipo de linguagem a um tipo de máquina capaz de reconhecê-la, até chegar às máquinas imaginadas por Alan Turing.
O que Noam Chomsky pensa sobre política?
Em paralelo, Chomsky virou uma das vozes mais críticas do próprio país.
Foi um dos primeiros acadêmicos americanos a se opor à Guerra do Vietnã e chegou a ser preso numa marcha até o Pentágono, em 1967. Em 1988, com Edward Herman, publicou A Manipulação do Público, uma análise de como a grande mídia filtra o que chega ao público em democracias liberais.
A posição rendeu admiração e hostilidade em doses parecidas. Entre colegas, sempre ficou a pergunta de como o mesmo homem conseguia ser tão frio na linguística e tão apaixonado na política. Para Chomsky, as duas coisas vinham do mesmo lugar: a recusa em aceitar uma explicação só porque ela é a oficial.
O que Noam Chomsky disse sobre o ChatGPT?
Em março de 2023, semanas antes do AVC, Chomsky assinou com Ian Roberts e Jeffrey Watumull um artigo no New York Times chamado “A falsa promessa do ChatGPT”.
A tese era direta: os modelos de linguagem preveem a próxima palavra com base em estatística, mas não têm gramática, intenção nem compreensão. Para ele, uma máquina que imita a fala sem entender o que diz pode até impressionar, só que não explica nada sobre a linguagem humana.
A crítica irritou os entusiastas da IA e também pesquisadores que consideram a gramática universal uma teoria ultrapassada. Mas colocou de novo na mesa a pergunta de Turing: o que significa uma máquina “falar”? O mesmo debate aparece, por outro ângulo, no perfil de Yuval Harari.
A obra política e linguística dele está reunida no site oficial, e a Britannica tem um bom resumo da trajetória. Os livros circulam em dezenas de línguas, e a pergunta que ele fez às máquinas, afinal, continua sem resposta.
Críticas a Noam Chomsky
Chomsky é um dos autores mais citados do mundo, e tanto a linguística quanto a política dele têm opositores:
- a gramática universal: linguistas como Daniel Everett, que estudou a língua dos Pirahã, na Amazônia, contestam que todas as línguas compartilhem a mesma estrutura; outros explicam a aquisição da linguagem pelo uso, sem regras inatas;
- as mudanças de teoria: críticos apontam que o programa de Chomsky trocou de modelo várias vezes, o que dificulta testá-lo;
- as posições políticas: ele foi acusado de minimizar crimes do Khmer Vermelho no Camboja nos anos 1970 e de defender o direito de um negacionista do Holocausto publicar; Chomsky respondeu que defendia a liberdade de expressão, sem endossar as ideias.
Mesmo os adversários reconhecem que a linguística moderna se organizou a favor ou contra as ideias dele.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte se você acha que uma máquina pode entender o que diz.