Laranja Mecânica: o que sobra de alguém sem escolha?

Atualizado em

Alex é violento, sedutor e narra a própria história numa gíria inventada. Quando o Estado o condiciona a passar mal só de pensar em violência, Anthony Burgess pergunta o que sobra de uma pessoa sem escolha.


Autor: Anthony Burgess – Publicação: 1962

As primeiras páginas de Laranja Mecânica parecem escritas em outra língua. Alex e seus droogs bebem leite batizado no Korova, saem pela noite e falam de “horrorshow”, “viddy” e “gulliver”. Dá vontade de largar. Não largue. Em vinte páginas o cérebro aprende sozinho, e esse aprendizado já é parte do experimento do livro.

A gíria se chama nadsat e mistura inglês com russo. Burgess, que era linguista, viajou para Leningrado em 1961 e aproveitou o vocabulário. Segundo a Fundação Anthony Burgess, ele dizia que a língua servia para ensinar russo ao leitor sem que ele percebesse.

Do que trata Laranja Mecânica?

Alex tem quinze anos e lidera uma pequena gangue. As noites dele são feitas de assaltos, espancamentos e violência sexual, e ele narra tudo com prazer. Nas horas vagas, ouve Beethoven.

Até que é preso. Na prisão, aceita participar de um tratamento experimental que promete soltá-lo em duas semanas. O tratamento funciona, e é aí que o livro fica interessante de verdade.

A estrutura tem três partes:

  1. Alex livre, praticando violência;
  2. Alex preso e tratado, perdendo a capacidade de praticá-la;
  3. Alex devolvido ao mundo, sem defesa diante de quem quer se vingar dele.

O que é o tratamento Ludovico?

É o coração do livro. Alex recebe uma droga que provoca náusea e, ao mesmo tempo, é forçado a assistir a filmes de violência, com os olhos presos abertos. Depois de algumas sessões, basta pensar em violência para passar mal.

Há um efeito colateral cruel: a trilha de alguns filmes é Beethoven. Alex perde também a música que amava.

A técnica parece exagero de ficção, mas é a versão extrema de uma ideia real: o condicionamento, a mesma lógica que Admirável Mundo Novo aplica a uma sociedade inteira. Associe um estímulo a uma sensação vezes suficientes e o comportamento muda.

Laranja Mecânica é uma crítica ao behaviorismo?

Em boa parte, sim. Nos anos 1950 e 1960, o behaviorismo de B. F. Skinner dominava a psicologia e defendia que o comportamento humano podia ser moldado por recompensa e punição, como o de um animal de laboratório. A disputa entre Skinner e quem pensava diferente aparece no perfil de Noam Chomsky.

Burgess coloca a pergunta na boca do capelão da prisão: um homem que é forçado a ser bom ainda é bom? O Estado do livro não quer saber. Quer ruas tranquilas e prisões vazias.

Três dilemas que o livro deixa:

  • liberdade ou segurança: vale apagar a escolha de alguém para proteger os outros?
  • cura ou punição: o tratamento é medicina ou castigo disfarçado?
  • quem decide: o mesmo Estado que “cura” Alex usa o caso dele como propaganda.

O debate continua. Os neurodireitos discutem hoje se uma tecnologia pode alterar a mente de alguém sem consentimento, e o post sobre se o livre-arbítrio existe mostra o tamanho da pergunta por trás de tudo. Até os nudges, os empurrõezinhos que governos usam para guiar escolhas, são parentes distantes e muito mais leves dessa ideia.

Qual a diferença entre o livro e o filme de Kubrick?

O filme de Stanley Kubrick, de 1971, é tão famoso que muita gente acha que conhece o livro. A diferença mais importante está no fim.

  • O capítulo 21. A edição americana do livro, usada por Kubrick, cortou o último capítulo. Nele, Alex, aos dezoito anos, começa a se cansar da violência e imagina ter um filho. Ele amadurece sozinho, sem tratamento.
  • O sentido muda. Sem o capítulo, a história termina com Alex “curado” da cura e feliz em voltar à violência. Com o capítulo, Burgess defende que as pessoas podem mudar por escolha própria.
  • Burgess reclamou a vida inteira. Ele passou décadas explicando que o filme era bom, mas contava outra história. A página do livro na Wikipédia conta a história do capítulo cortado.

O melhor caminho é ler o livro inteiro, com o capítulo 21, e depois ver o filme. Os dois juntos rendem uma ótima discussão sobre o que é amadurecer.

Vale ler Laranja Mecânica?

Vale, com um aviso: o livro é violento, e a violência é narrada com prazer pelo próprio agressor.

  • É curto. Cerca de 200 páginas.
  • A língua é parte da experiência. Muitas edições trazem glossário, mas tente ler sem ele.
  • A pergunta é enorme. Poucas obras discutem livre-arbítrio de um jeito tão direto, sem facilitar nada para quem lê.
  • Pede estômago. As cenas da primeira parte são duras. Não é uma leitura para qualquer momento.

Se quiser seguir, O Conto da Aia mostra outro Estado que decide sobre o corpo das pessoas. Nação Dopamina explica, pela neurociência, como prazer e dor moldam o comportamento. E O Alienista conta outro caso de ciência que decide quem é normal.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte se você conheceu primeiro o livro ou o filme.


Deixe um comentário