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Um homem fica cego parado no semáforo, e a cegueira branca se espalha pela cidade. José Saramago usou a epidemia para mostrar a velocidade com que a vida em comum desmorona quando o Estado só sabe isolar.
Autor: José Saramago – Publicação: 1995
Quem leu Ensaio sobre a Cegueira em 2020, no meio da pandemia, teve uma experiência estranha. Um livro de 1995 parecia estar descrevendo as notícias da semana: o medo do contágio, o isolamento improvisado, a falta de comida, a desconfiança entre vizinhos.
Saramago ganhou o Nobel de Literatura em 1998, três anos depois deste livro, e ele é provavelmente a melhor porta de entrada para a obra dele. É também o mais duro.
Do que trata Ensaio sobre a Cegueira?
Um homem está parado no carro, esperando o sinal abrir, e de repente não enxerga mais nada. A cegueira dele é estranha: em vez de escuro, ele vê tudo branco, como se estivesse mergulhado num mar de leite.
Logo, quem teve contato com ele também cega. O médico que o examina, os pacientes da sala de espera, o ladrão que roubou o carro dele. O governo reage do único jeito que sabe: isola os cegos num manicômio abandonado, vigiado por soldados com ordem de atirar.
No meio deles está uma única pessoa que continua enxergando: a mulher do médico, que finge estar cega para acompanhar o marido. Ela vira os olhos do grupo, e o leitor vê tudo pelo que ela vê.
O que acontece na quarentena do manicômio?
É a parte mais difícil do livro, e a mais importante. Sem ninguém que cuide deles, os internos vão perdendo tudo:
- a higiene: sem enxergar, sem água corrente e sem ajuda, o lugar vira um depósito de sujeira;
- a comida: o governo deixa caixas na porta, e quem chega primeiro leva;
- a ordem: um grupo armado toma conta da comida e passa a exigir pagamento, primeiro em objetos, depois em abusos contra as mulheres;
- a solidariedade: some em muitos, mas resiste em alguns.
O lugar onde tudo acontece não foi escolhido por acaso. Um manicômio, o mesmo tipo de instituição que Machado de Assis ridicularizou em O Alienista e que Nise da Silveira tentou humanizar. Saramago usa o espaço que a sociedade reserva para esconder quem ela não quer ver.
Por que Saramago escreve sem nomes e quase sem pontuação?
É a primeira coisa que assusta o leitor. Os parágrafos são enormes, os diálogos vêm sem travessão, separados por vírgulas e letra maiúscula. E ninguém tem nome.
Os personagens são chamados pelo que os define: o primeiro cego, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o velho da venda preta, o rapazinho estrábico. Até o cachorro que aparece no fim é o cão das lágrimas.
Há uma lógica nisso:
- sem nomes, os personagens viram qualquer pessoa, inclusive você;
- sem pontuação comum, o leitor precisa prestar atenção, quase como quem lê sem enxergar direito;
- com a voz do narrador misturada às falas, a história parece contada por alguém que viu tudo de perto.
Dá trabalho nas primeiras páginas. Depois, o ritmo pega, e você não consegue mais parar.
O que o livro diz sobre a pandemia de covid?
Saramago escreveu sobre uma epidemia imaginária, e mesmo assim o livro mostra mecanismos que a pandemia deixou à vista:
- a quarentena improvisada, decidida com medo e pouca informação;
- a desinformação, com rumores ocupando o lugar do que ninguém sabe explicar;
- a desigualdade, em que os mais fortes tomam os recursos dos mais fracos;
- o cuidado, porque o grupo da mulher do médico sobrevive justamente por cuidar uns dos outros.
O post sobre o obstáculo epistemológico mostra como a pandemia também foi uma crise de informação. E quem gosta de avaliar a ciência por trás das histórias vai achar útil o post sobre como avaliar a ciência no sci-fi: a cegueira de Saramago não segue nenhuma regra de contágio real, e é de propósito. Ela é metáfora, e o título já avisa que o livro é um ensaio.
Vale ler Ensaio sobre a Cegueira?
Sim, com o mesmo aviso de outros livros duros desta seção: há cenas de violência sexual que pesam muito.
- É uma leitura que marca. Difícil esquecer a mulher do médico e o grupo dela.
- O estilo pede paciência. As primeiras trinta páginas são as mais difíceis.
- Rende muita discussão. Funciona bem em sala, do ensino médio à faculdade, e aparece em listas de vestibular.
- Tem continuação e filme. Ensaio sobre a Lucidez, de 2004, volta à mesma cidade. E o filme de Fernando Meirelles, de 2008, abriu o Festival de Cannes.
A Fundação José Saramago reúne a obra e a vida do autor.
Se quiser seguir, Eu Sou a Lenda conta outra epidemia, vista pelo último homem que restou. 1984 mostra um Estado que controla o que as pessoas podem ver e saber. E O Conto da Aia é outra distopia em que o corpo das mulheres vira moeda.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte se você também leu este livro durante a pandemia.