Fundação, de Asimov: dá para prever o futuro de uma sociedade?

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Um matemático calcula que o Império Galáctico vai cair e que a barbárie vai durar trinta mil anos. Isaac Asimov criou a psico-história para perguntar se a estatística consegue prever o comportamento de multidões.


Autor: Isaac Asimov – Publicação: 1951

Fundação é um livro de ficção científica quase sem batalha espacial. Quase tudo acontece em conversas, negociações e golpes de esperteza. E mesmo assim é um dos livros mais influentes do gênero. Em 1966, a série inteira ganhou um prêmio Hugo especial de melhor série de todos os tempos, desbancando O Senhor dos Anéis.

Asimov tinha vinte e poucos anos quando começou a escrever as histórias, publicadas em revista entre 1942 e 1950. A ideia veio da leitura de Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon. Asimov pensou: e se um império galáctico caísse do mesmo jeito, e alguém pudesse ver isso chegando?

Do que trata Fundação, de Isaac Asimov?

O Império Galáctico domina milhões de planetas há doze mil anos e parece eterno. O matemático Hari Seldon discorda. Pelos cálculos dele, o Império vai cair, e a galáxia vai viver trinta mil anos de barbárie antes que outro império surja.

A queda não pode ser evitada. Mas pode ser encurtada. Seldon monta um plano para reduzir a barbárie a mil anos, e cria a Fundação, uma colônia de cientistas num planeta da borda da galáxia, Terminus.

O livro é uma sequência de episódios, cada um algumas décadas depois do anterior:

  • os psico-historiadores, quando Seldon é julgado pelo Império;
  • os enciclopedistas, quando Terminus percebe que está sozinha;
  • os prefeitos, com o político Salvor Hardin enganando reinos vizinhos;
  • os comerciantes, quando a Fundação troca a religião pelo comércio como forma de influência;
  • os príncipes mercadores, com o comércio virando arma.

A cada crise, um holograma de Seldon aparece num cofre e explica o que acabou de acontecer, como quem já sabia.

O que é a psico-história?

É a ciência inventada de Seldon, e a grande ideia do livro. A psico-história ignora o indivíduo e prevê o que bilhões de pessoas vão fazer juntas, da mesma forma que a física prevê o comportamento de um gás sem saber para onde vai cada molécula.

Ela só funciona sob duas condições:

  1. a população precisa ser enorme, porque indivíduos são imprevisíveis e só as médias se comportam bem;
  2. a população não pode saber das previsões, porque quem sabe o futuro age para mudá-lo.

A segunda condição é a mais interessante, e é a mesma que aparece em Devs: o que acontece quando alguém vê a própria previsão? A ideia de uma inteligência capaz de calcular o futuro inteiro tem nome antigo, o demônio de Laplace, um dos experimentos mentais mais famosos da história. Asimov trocou o átomo pela multidão.

Dá para prever o comportamento de uma sociedade?

Em parte. As ciências sociais conseguem prever tendências: crescimento populacional, efeito de uma alta de juros, resultado provável de uma eleição. Mas sempre com margem de erro, e quase nunca com séculos de antecedência.

John Stuart Mill já discutia isso no século XIX, e o post sobre o Livro VI do Sistema de Lógica explica o ponto: explicar não é o mesmo que prever, e prever não é o mesmo que controlar.

Ainda assim, a ideia de Asimov marcou gente de verdade. O economista Paul Krugman, Nobel de 2008, já contou que quis ser economista por causa de Hari Seldon. A economia, disse ele, era o mais perto que dava para chegar da psico-história.

Qual a diferença entre o livro e a série da Apple?

A série, que estreou em 2021, usa o livro como ponto de partida e muda quase tudo.

  • Os personagens mudaram. Vários foram trocados de gênero, idade ou função, e alguns foram criados do zero.
  • A ação aumentou. O livro é conversa e esperteza. A série tem batalhas, perseguições e efeitos.
  • O Império virou protagonista. A série criou uma dinastia de imperadores clonados, que não existe no livro.
  • O tempo ficou mais curto. No livro, as gerações passam e os personagens morrem. A série inventou formas de manter os mesmos rostos por séculos.

No fim das contas, a série é bonita e vale como entretenimento, mas é outra obra. Para conhecer a ideia de Asimov, só o livro.

Vale ler Fundação?

Vale, principalmente para quem gosta de ideias mais do que de explosões.

  • É curto e rápido. Cerca de 250 páginas, divididas em histórias que se leem como capítulos.
  • Tem cara de anos 1940. As mulheres quase não aparecem, e todo mundo fuma. Leia sabendo da época.
  • É o primeiro de uma série. Os dois livros seguintes completam a trilogia original, e o segundo traz o Mulo, um personagem que bagunça todos os cálculos de Seldon.
  • Conversa com o resto de Asimov. Os mesmos temas de previsão e controle aparecem em Eu, Robô.

A Britannica resume a vida e a obra do autor, que escreveu ou editou mais de quinhentos livros, e a página da série na Wikipédia mostra a ordem de leitura.

Se quiser seguir, A Última Pergunta é o conto preferido do próprio Asimov, sobre o fim do universo. O Cair da Noite mostra uma civilização que entra em colapso diante do desconhecido. E Sapiens conta a história real de como impérios sobem e caem.


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