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No dia em que o filho faz 21 anos, um pai dá a ele o melhor conselho que conhece: para ser alguém na vida, evite ter ideias. Machado de Assis fez disso uma das sátiras mais afiadas do país.
Autor: Machado de Assis – Publicação: 1881, no jornal Gazeta de Notícias
Foi o primeiro conto de Machado que li, e funciona muito bem como porta de entrada. O texto parece descrever gente que todo mundo conhece, mais de 140 anos depois de publicado.
O conto é só um diálogo, à noite, depois do jantar de aniversário. O pai chama o filho, Janjão, e explica o plano: ele deve se tornar um medalhão. A palavra, na época, era usada para o figurão, aquele homem importante e respeitado que, olhando de perto, não tem nada dentro.
Do que trata Teoria do Medalhão?
O pai quer que Janjão chegue aos 45 anos como um medalhão completo. Para isso, monta um programa de formação às avessas. As lições principais:
- não ter ideias: ideias próprias são perigosas, porque exigem defesa;
- decorar frases feitas: o filho deve guardar expressões prontas, de efeito garantido, e usá-las em qualquer ocasião;
- evitar a ironia: a ironia é coisa de quem pensa, e quem pensa assusta;
- usar a publicidade: fazer o nome circular, dar jantares, aparecer nos jornais, ser elogiado.
No fim, o pai compara o próprio conselho a O Príncipe, de Maquiavel. É a piada final: um manual de poder para quem não tem nada a dizer.
Por que o conto é tão sagaz?
Porque quem fala é o pai, sério, carinhoso, convencido de que está fazendo o melhor pelo filho, e Machado fica escondido atrás dele. A crítica vem toda pela boca de quem a gente deveria levar a sério.
E o alvo é muito preciso: a mediocridade bem-sucedida, mais do que a ignorância pura e simples. É a pessoa que aprende a parecer culta, a parecer sábia, a parecer importante, e que sobe exatamente por isso. É parente do efeito Dunning-Kruger, com uma diferença: o medalhão sabe muito bem o que está fazendo. Por trás do personagem está o bacharelismo do Império, o culto ao diploma que Machado ridicularizou a vida toda.
O que o Medalhão diz sobre a educação?
Bastante, e é por isso que o conto conversa tanto com o que o blog discute em Ensino e Formação. O pai de Janjão monta uma pedagogia completa, só que do avesso: ensina o filho a não pensar.
Três ecos atuais:
- o palestrante motivacional: frases de efeito, carisma, pouca substância, tema do post professores não são coaches;
- o diploma como medalha: o título que vale mais do que a formação, discussão de faculdade ainda vale a pena?;
- o texto pronto: o sonho do pai de Janjão era um repertório de frases que dispensasse pensar. Hoje existe máquina para isso, e o post sobre autoria e ChatGPT discute o que sobra do autor quando o texto vem pronto.
Onde ler Teoria do Medalhão?
O conto está em domínio público e pode ser lido de graça. Ele faz parte de Papéis Avulsos, livro de contos que Machado lançou em 1882, e a Biblioteca Nacional disponibiliza o livro digital completo. O mesmo livro traz O Espelho, outro conto desta seção.
É curto: dá para ler em vinte minutos, e vale reler em voz alta, como se fosse você dando o conselho. Para ir mais fundo, um artigo da revista Aletria, da UFMG, lê o conto como retrato da vida pública brasileira da época.
Se gostou, O Alienista é o Machado satirizando a ciência, e O Espelho mostra outra pessoa que só existe pelo olhar dos outros.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte se você já conheceu algum medalhão, sem precisar dizer o nome.