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Jacobina defende uma tese estranha: cada pessoa tem duas almas, uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro. Para provar, conta o dia em que não conseguiu se ver no espelho.
Autor: Machado de Assis – Publicação: 1882, no jornal Gazeta de Notícias
O subtítulo já avisa o tom: “Esboço de uma nova teoria da alma humana”. Machado escreveu um conto de terror psicológico disfarçado de conversa de salão, e eu acho que ele nunca foi tão atual quanto na era do perfil nas redes sociais.
A cena é simples. Cinco homens discutem filosofia numa noite, numa casa em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Jacobina, que nunca discute, aceita falar uma vez, com uma condição: ninguém pode interromper.
O que é a alma exterior?
É a grande ideia do conto. Para Jacobina, além da alma de dentro, cada pessoa tem uma alma exterior: algo de fora que completa quem ela é. Pode ser um objeto, uma profissão, um título, o olhar dos outros.
Quem perde essa alma exterior perde metade da existência. E ela pode mudar ao longo da vida, de natureza e de tamanho.
Repare como isso lembra a persona de Jung, a máscara social que apresentamos aos outros. A diferença é que, em Machado, a máscara vai engolindo o rosto. A pessoa só existe enquanto alguém a vê no papel.
O que acontece com o alferes Jacobina?
Aos 25 anos, pobre, Jacobina é nomeado alferes da Guarda Nacional, um posto modesto que, para a família, parece uma glória. A tia Marcolina o convida para passar uns dias no sítio dela e o trata como um príncipe. Todo mundo só o chama de “senhor alferes”.
O título vai ocupando tudo:
- a família só vê o alferes, e o rapaz de antes some da conversa;
- a tia muda o espelho de lugar, e coloca no quarto dele o objeto mais valioso da casa, um espelho antigo que teria chegado ao Brasil com a corte de D. João VI;
- o próprio Jacobina passa a se ver assim, e o homem por trás do uniforme vai ficando fraco.
Até que a tia viaja para cuidar de uma filha doente e os escravizados do sítio fogem. Jacobina fica completamente sozinho. Sem ninguém para chamá-lo de alferes, ele olha no espelho e não se reconhece: vê uma figura borrada, apagada.
O que o conto diz sobre nós hoje?
Muito. Troque o uniforme por um perfil numa rede social e o conto continua funcionando. A alma exterior de hoje tem curtida, seguidor e cargo no LinkedIn.
O post sobre Byung-Chul Han discute uma sociedade em que cada pessoa vira a própria vitrine, e o que acontece quando ninguém mais está olhando. E a pergunta inversa, o que sobra de alguém quando o grupo o rejeita, aparece no post sobre cancelamento digital.
Onde ler O Espelho?
O conto está em domínio público. Faz parte de Papéis Avulsos, de 1882, o mesmo livro de O Alienista e da Teoria do Medalhão, e a Biblioteca Nacional disponibiliza o livro digital completo.
É curto, uns vinte minutos, e a Cultura Genial tem um bom resumo para quem quer revisar antes da prova. Se gostou, a Teoria do Medalhão é o mesmo tema visto pelo lado de quem aprende a fabricar a própria alma exterior. E O Alienista mostra o que acontece quando alguém de fora decide quem você é.
Como Jacobina se recupera no final?
Spoiler: clique para ler o desfecho
Desesperado, Jacobina tem uma ideia: veste a farda de alferes e se olha de novo no espelho. A imagem volta inteira, nítida, completa.
Durante os dias em que fica sozinho, ele repete o ritual: veste a farda, se olha por um tempo, tira, volta a vestir. É assim que aguenta até a família voltar.
Quando termina a história, Jacobina se levanta e vai embora, sem deixar ninguém comentar. Os amigos ficam com a teoria e com a pergunta: qual das duas almas é a de verdade?
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte qual é a sua alma exterior hoje.