Byung-Chul Han: o que é a sociedade do cansaço?

Ninguém manda você trabalhar até a exaustão, e mesmo assim ela chega. Byung-Chul Han chamou isso de sociedade do desempenho, onde cada pessoa vira o próprio patrão e o próprio carrasco.


Fim de expediente, notebook fechado, e a cabeça continua trabalhando. A lista do dia seguinte já está pronta antes do jantar.

Ninguém exigiu isso de você. Mesmo assim, a sensação é de que nunca dá para parar.

Um filósofo sul-coreano que vive em Berlim escreveu um livro de pouco mais de cem páginas sobre essa sensação. Publicado na Alemanha em 2010, Sociedade do Cansaço chegou ao Brasil em 2015 e virou um dos ensaios de filosofia mais lidos do país. O título ganhou vida própria e aparece em conversas de trabalho, em memes e em debates sobre saúde mental.

Quem é Byung-Chul Han: resumo rápido

  • Nasceu: em 1959, em Seul, Coreia do Sul.
  • Formação: começou estudando metalurgia na Coreia; na Alemanha, cursou filosofia, literatura alemã e teologia em Friburgo e Munique, com doutorado sobre Heidegger.
  • Onde trabalhou: foi professor da Universidade de Artes de Berlim, entre outras instituições alemãs.
  • A ideia que deixou: a forma mais eficiente de exploração é aquela que cada pessoa faz de si mesma, acreditando que está livre.
  • Por onde começar: Sociedade do Cansaço (Vozes, 2015).
  • Outros livros: Sociedade da Transparência, Psicopolítica e Não-coisas.

O que é a sociedade do cansaço?

Michel Foucault descreveu a sociedade disciplinar: prisões, quartéis, fábricas e escolas, com regras impostas de fora e verbos como “não pode” e “deve”.

Para Han, esse modelo perdeu força no século XXI. O verbo que domina agora é “pode”. Você pode ser o que quiser, pode empreender, pode render mais.

Repare no efeito. Quando a ordem vem de fora, dá para resistir a ela. Quando vem de dentro, com cara de liberdade, a pessoa se cobra sem descanso e chama isso de escolha.

Han fala num excesso de positividade: estímulos demais, tarefas demais, possibilidades demais. As doenças típicas da época, para ele, nascem desse excesso.

Han usa uma imagem do mito grego. Prometeu, acorrentado enquanto uma águia devora o fígado que se regenera todos os dias, vira para ele o retrato do sujeito de hoje: a águia é a própria pessoa, e o fígado é o trabalho que nunca termina.

O que é a sociedade do desempenho?

Na sociedade do desempenho, cada pessoa funciona como empresa de si mesma. Han destaca alguns traços desse modo de viver:

  • autoexploração: o trabalho excessivo vem da própria pessoa, e por isso parece liberdade;
  • multitarefa: fazer várias coisas ao mesmo tempo, que Han compara à atenção dispersa de um animal em alerta;
  • fim do tédio profundo: sem tempo vazio, some o espaço em que nascem ideias novas;
  • cansaço solitário: cada um se esgota sozinho, e o esgotamento isola em vez de unir.

O mesmo diagnóstico aparece quando se discute o ritmo imposto pelas telas, tema de a tecnologia e o tempo humano.

Por que o burnout virou sintoma da época?

Han chama depressão, déficit de atenção e burnout de doenças neuronais da sociedade do desempenho. O burnout, para ele, é o colapso de um eu que exigiu demais de si mesmo.

O tema ganhou peso institucional. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde incluiu o burnout na Classificação Internacional de Doenças como fenômeno ocupacional, ligado ao estresse crônico no trabalho que não foi bem administrado.

Vale um cuidado. O diagnóstico de Han é filosófico e ajuda a pensar a época. Quem se reconhece nessa exaustão deve procurar um profissional de saúde.

A cobrança ganhou formas novas com as ferramentas digitais. Até a inteligência artificial, vendida como alívio, já tem um cansaço próprio estudado por pesquisadores, a fadiga de IA.


Críticas a Byung-Chul Han

Han é lido no mundo inteiro, e também é muito criticado. As objeções mais comuns são estas:

  • generaliza demais: os livros fazem afirmações amplas com poucos dados que as sustentem;
  • esquece quem ainda tem chefe: entregadores de aplicativo e trabalhadores vigiados por algoritmos continuam sob controle externo, e bem rígido;
  • repete ideias: muitos livros curtos retomam os mesmos argumentos com títulos novos;
  • oferece pouco caminho prático: o elogio da contemplação e do ócio soa distante para quem precisa de dois empregos.

A resenha de Elton Corbanezi na revista Tempo Social, da USP, mostra como o livro foi recebido no Brasil e onde o argumento convence mais.

Mesmo os críticos reconhecem que Han deu nome a algo que muita gente sentia. E a aposta dele num tempo livre de cobrança lembra uma experiência brasileira: os ateliês da psiquiatra Nise da Silveira, onde ninguém exigia resultado.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte qual cobrança você faz a si mesmo que ninguém pediu.

Deixe um comentário