Carl Jung: quem foi e o que é o inconsciente coletivo?

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Introvertido, extrovertido, arquétipo, sombra: boa parte desse vocabulário vem de um psiquiatra suíço que rompeu com Freud e foi buscar nos mitos aquilo que todas as mentes humanas têm em comum.


Zurique, 1957. Num congresso internacional de psiquiatria, um senhor de 82 anos para diante de pinturas feitas por pacientes de um hospital do Rio de Janeiro. Círculos, mandalas, figuras que lembram mitos antigos.

O senhor era Carl Gustav Jung. A médica que levou as obras até ali era a brasileira Nise da Silveira.

Você talvez nunca tenha lido Jung, mas fala a língua dele. Quando diz que alguém é introvertido, que precisa encarar a própria sombra ou que um personagem é um arquétipo, está usando palavras que ele criou ou popularizou.

Quem foi Carl Jung: resumo rápido

  • Nasceu: em 26 de julho de 1875, em Kesswil, na Suíça.
  • Morreu: em 6 de junho de 1961, em Küsnacht, perto de Zurique, aos 85 anos.
  • Formação: medicina na Universidade da Basileia, onde se formou em 1900; o doutorado veio em 1902.
  • Onde trabalhou: no hospital psiquiátrico Burghölzli, em Zurique, ao lado de Eugen Bleuler.
  • A ideia que deixou: abaixo da memória pessoal, a mente guarda padrões comuns a toda a espécie humana.
  • Por onde começar: O Homem e Seus Símbolos (1964), pensado para o público leigo.

Por que Jung rompeu com Freud?

Em 1907, Jung foi a Viena conhecer Sigmund Freud. A primeira conversa durou cerca de treze horas. Freud passou a ver nele o herdeiro da psicanálise, e Jung chegou a presidir a Associação Psicanalítica Internacional, fundada em 1910.

Os pontos de atrito foram estes:

  • a libido: para Freud, energia sexual; para Jung, energia psíquica geral, capaz de se manifestar de várias formas;
  • a religião: Freud a via como ilusão; Jung via nos símbolos religiosos uma expressão legítima da mente;
  • o inconsciente: Freud o tratava sobretudo como depósito do que foi reprimido; Jung acreditava numa camada mais funda, compartilhada por todos.

O livro Símbolos da Transformação, de 1912, selou a ruptura. Jung passou a chamar a própria linha de psicologia analítica.

O que é o inconsciente coletivo?

Para Jung, a mente tem três camadas:

  1. consciência: o que você sabe que pensa e sente;
  2. inconsciente pessoal: lembranças esquecidas ou reprimidas da própria história;
  3. inconsciente coletivo: uma camada herdada, comum a toda a humanidade, feita de predisposições para imaginar e reagir de certos modos.

Jung notou que pacientes produziam, em delírios e sonhos, imagens parecidas com mitos que nunca tinham lido. Concluiu que essas imagens tinham uma origem comum, anterior à biografia de cada um.

Repare que é a mesma observação que Nise da Silveira faria décadas depois, no Engenho de Dentro.

O que são os arquétipos de Jung?

Arquétipos são os moldes do inconsciente coletivo: formas vazias que cada cultura preenche com as próprias histórias. Os mais conhecidos são:

  • persona: a máscara social, o papel que você apresenta aos outros;
  • sombra: o lado que você rejeita em si mesmo e costuma enxergar nos outros;
  • anima e animus: na formulação de Jung, a imagem do feminino no homem e do masculino na mulher;
  • si-mesmo: o centro que organiza a personalidade inteira.

Ao processo de integrar essas partes, Jung deu o nome de individuação. Os círculos e mandalas que tantos pacientes desenhavam seriam, para ele, sinais desse esforço de organização.

Introvertido e extrovertido: o que Jung quis dizer?

Em Tipos Psicológicos, de 1921, Jung descreveu duas atitudes: a introversão, voltada para o mundo interno, e a extroversão, voltada para fora. Combinou as duas com quatro funções: pensamento, sentimento, sensação e intuição.

Décadas depois, Katharine Briggs e a filha, Isabel Myers, transformaram essa tipologia no teste MBTI, popular em empresas. Jung não participou da criação do teste, e a psicologia científica questiona a validade dele, como mostra o texto sobre a segunda temporada de The Mind, Explained.

Qual a relação de Jung com o Brasil?

A ponte foi Nise da Silveira. Nos anos 1950, a psiquiatra escreveu a Jung e mandou fotografias das mandalas pintadas por pacientes do hospital do Engenho de Dentro. Em 1957, ele abriu em Zurique a exposição das obras e recebeu Nise para estudar no instituto que leva o nome dele.

A história completa, inclusive o que ela fez com a psicologia junguiana no país, está no perfil de Nise da Silveira.

Um artigo da revista Psicologia USP mostra como ela comparava o terapeuta a um escafandrista, alguém que mergulha nas imagens do inconsciente.

Críticas a Carl Jung

As críticas mais comuns são estas:

  • difícil de testar: conceitos como inconsciente coletivo e arquétipo não geram previsões que possam ser refutadas, a mesma objeção que Karl Popper fazia à psicanálise, retomada por Natalia Pasternak e Carlos Orsi em Que Bobagem!;
  • a aproximação com o esoterismo: o interesse por alquimia, astrologia e sincronicidade afastou muitos cientistas;
  • a atuação nos anos 1930: Jung presidiu uma sociedade internacional de psicoterapia durante o nazismo e escreveu sobre diferenças entre uma psicologia “judaica” e uma “germânica”; defensores lembram que ele ajudou colegas judeus, e o tema ainda divide os biógrafos.

A ideia de que símbolos e imagens dizem algo sobre a mente atravessou a arte, a literatura e a terapia. A Britannica resume a cronologia da obra.


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