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Homeopatia, astrologia, curas quânticas: Natalia Pasternak e Carlos Orsi conferem, crença por crença, o que a pesquisa encontrou. Foi deste livro que saiu o post sobre placebo aqui do blog.
Autores: Natalia Pasternak e Carlos Orsi – Publicação: 2023
Tem livro que a gente lê e guarda. Que Bobagem! eu li e usei. Um dos primeiros textos deste blog, sobre o efeito placebo, nasceu da leitura deste livro. Então esta resenha é também um acerto de contas com uma fonte.
Os autores dispensam muita apresentação para quem acompanhou a pandemia. Natalia Pasternak é microbiologista e foi uma das cientistas ouvidas pela CPI da Covid, em 2021. Carlos Orsi é jornalista de ciência e escritor. Os dois fundaram o Instituto Questão de Ciência, que publica a Revista Questão de Ciência, dedicada a checar alegações que circulam com cara de ciência.
Do que trata o livro Que Bobagem!?
Cada capítulo pega uma crença popular e faz sempre o mesmo percurso: de onde ela veio, o que promete, como foi testada e o que os testes mostraram. O método aparece logo na introdução, “Um modo de olhar para o mundo”, e é o que dá unidade ao livro.
O tom é irônico desde o título. Os autores acham que muitas dessas práticas são, literalmente, bobagem, e não disfarçam. Quem gosta de texto com posição vai se divertir. Quem prefere neutralidade de enciclopédia vai torcer o nariz em alguns trechos.
Quais crenças o livro analisa?
São doze capítulos temáticos, que dá para agrupar assim:
- saúde: homeopatia, acupuntura e medicina tradicional chinesa, curas naturais, curas energéticas e modismos de dieta;
- mente: psicanálise e “psicomodismos”, além da paranormalidade;
- céu e passado: astrologia, discos voadores, pseudoarqueologia e deuses astronautas;
- visões de mundo: antroposofia e o casamento entre “poder quântico” e pensamento positivo.
O capítulo das dietas conversa bem com o texto sobre saúde do intestino, em que uma descoberta legítima vira promessa de prateleira. E o dos discos voadores lembra a seita estudada por Leon Festinger, que esperou a chegada de uma nave à meia-noite e reinterpretou tudo quando ela não veio.
Por que a homeopatia continua tão popular?
É o capítulo mais didático, e foi o que mais me marcou. A homeopatia nasceu em 1796, com o médico alemão Samuel Hahnemann, a partir de duas ideias: semelhante cura semelhante, e quanto mais diluído, mais forte.
O problema está na segunda. Nas diluições altas, muito usadas, a chance de restar uma única molécula da substância original no frasco é praticamente zero. O que sobra é água, ou açúcar.
Então por que tanta gente melhora? As explicações que o livro e a pesquisa sobre o tema oferecem cabem em três:
- O placebo. A expectativa de melhora muda a percepção dos sintomas.
- A regressão à média. A gente procura tratamento no pior momento, e o pior momento costuma passar sozinho.
- A consulta. O homeopata escuta por uma hora. O médico do convênio, por dez minutos. A atenção também trata.
Nenhuma dessas razões depende do frasco. É exatamente o raciocínio que desenvolvi no post sobre placebo, e a mesma lógica explica parte do sucesso do biohacking, só que com aplicativo e pulseira no lugar do glóbulo.
Por que o capítulo sobre psicanálise gerou polêmica?
Porque nenhum outro tema do livro tem tantos defensores com diploma, consultório e associação de classe. Em 2023, logo depois do lançamento, psicanalistas e acupunturistas responderam em jornais e revistas, e o livro saiu da bolha da divulgação científica. O Correio Braziliense chegou a lembrar que a briga tem mais de um século.
Os dois lados, em resumo:
- os autores: a psicanálise faz afirmações sobre a mente que não geram previsões testáveis, a mesma objeção que Karl Popper fazia a Freud, e que também pesa sobre Carl Jung;
- os críticos: a psicanálise nunca pretendeu ser ciência experimental, há estudos clínicos com resultados favoráveis para terapias de base psicanalítica, e chamar tudo de pseudociência ignora diferenças entre escolas. A Folha de Pernambuco reuniu algumas dessas respostas.
A acupuntura entrou na mesma confusão por um motivo prático: no Brasil, ela é reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina. Os autores sustentam que o reconhecimento institucional não substitui ensaio clínico bem controlado.
Minha leitura: o capítulo cumpre o que o livro propõe, que é perguntar pela evidência. Quem discorda dele deveria discordar com evidência também, e parte dos críticos fez isso. Outra parte respondeu com indignação, sem dados.
Vale ler Que Bobagem!?
Vale, e eu indicaria principalmente para quem acredita em uma ou duas das coisas da lista.
- Os capítulos são independentes. Dá para começar pelo tema que mais te interessa.
- As notas são generosas. Cada afirmação tem fonte, e o livro funciona como mapa de estudos.
- O tom vai irritar alguém. É o preço da ironia. Se a ideia é convencer um parente, talvez seja melhor emprestar o capítulo certo do que o livro inteiro.
- Serve como manual de autodefesa. Mesmo quem nunca tomou homeopatia aprende a reconhecer o padrão: promessa grande, teste pequeno, explicação elástica.
Se quiser seguir no assunto, Afinal, o que é ciência? organiza a teoria por trás de tudo isso, e o autor escreve para a mesma revista de Pasternak e Orsi. Para os sinais de alerta em formato de lista, tem ciência, opinião e pseudociência. E, para ver numa distopia o que acontece quando uma sociedade perde a paciência com o pensamento difícil, Fahrenheit 451. A versão clássica do mesmo método está em O Mundo Assombrado pelos Demônios, de Carl Sagan.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte qual capítulo você leria primeiro.