Respostas de um Astrofísico: o que Tyson diz aos leitores?

Durante anos, Neil deGrasse Tyson recebeu cartas de gente comum com perguntas sobre Deus, vida, morte e alienígenas. O livro reúne as respostas, e quase todas cabem numa conversa de cozinha.


Autor: Neil deGrasse Tyson – Publicação: 2019

Todo divulgador de ciência famoso recebe mensagens. A maioria ignora, ou deixa a assessoria responder. Neil deGrasse Tyson respondeu muitas delas pessoalmente, ao longo de cerca de vinte anos, e guardou cópias. Respostas de um Astrofísico é essa correspondência organizada em livro.

O detalhe que me ganhou logo de cara: a edição brasileira, da Record, de 2020, traz uma carta que Tyson escreveu especialmente para os leitores daqui. É o tipo de gesto que combina com o resto do livro, que é um astrofísico conversando, de igual para igual, com quem resolveu escrever para ele.

Do que trata Respostas de um Astrofísico?

São cartas curtas de amigos e de desconhecidos, cada uma seguida da resposta de Tyson. Não há capítulo técnico nem gráfico. O que aparece é a variedade de coisas que passam pela cabeça das pessoas quando elas olham para o céu.

Os temas vão longe:

  • a origem e o fim do universo;
  • vida, morte e o medo de não existir;
  • alienígenas e teorias da conspiração;
  • religião e filosofia;
  • racismo, terrorismo e política;
  • educação e pseudociência.

Na abertura, Tyson lamenta que escrever cartas tenha virado arte perdida. O livro inteiro é uma pequena defesa do hábito de parar, pensar e responder por escrito.

Que perguntas as pessoas mandam para Tyson?

Dá para separar os remetentes em alguns grupos, e cada um puxa uma faceta diferente do autor:

  1. Os angustiados. Gente que leu sobre o fim do universo e perdeu o sono. Aqui Tyson costuma ser mais gentil.
  2. Os desconfiados. Quem acha que a ciência esconde alguma coisa, da chegada à Lua a fenômenos inexplicáveis. Aqui ele é paciente, mas firme.
  3. Os provocadores. Quem escreve para discordar, às vezes com raiva. Aqui aparece o Tyson mais seco, às vezes seco demais.
  4. Os curiosos. Estudantes, pais, professores. Aqui ele se diverte.

O que une as respostas é o método. Tyson raramente diz “você está errado” sem mostrar como chegou à conclusão contrária. Ele expõe o raciocínio, cita o dado e deixa a pessoa com uma ferramenta, além da resposta.

Como Tyson responde sobre ciência e religião?

É o tema que mais aparece, e onde ele mais escolhe as palavras. Tyson se define como agnóstico e evita o papel de militante contra a fé. A posição dele, repetida em várias cartas, é que a ciência descreve como o mundo funciona e que o problema começa quando alguém usa um texto religioso para negar um dado da natureza.

É uma linha parecida com a de Einstein, que falava de um Deus que se manifesta na ordem do universo, discussão que aparece no post sobre o Deus de Spinoza. Tyson é menos poético e mais prático: para ele, a pergunta útil é o que dá para testar.

Quem é Neil deGrasse Tyson, para responder tanta carta?

Tyson dirige o Planetário Hayden, em Nova York, e apresentou a nova versão de Cosmos, em 2014 e 2020. Também é o astrônomo que comprou briga nacional ao tirar Plutão da lista de planetas do museu, anos antes de a União Astronômica Internacional fazer o mesmo. A história, com as cartas furiosas de crianças, está no perfil de Neil deGrasse Tyson.

Ou seja, ele está acostumado a apanhar por correspondência. Este livro mostra o outro lado: o que ele faz quando a carta chega com uma pergunta de verdade.

E tem um fio que liga Tyson a Carl Sagan, além da série. Aos dezessete anos, ainda estudante, ele recebeu uma carta de Sagan convidando para uma visita a Cornell. Tyson conta que aprendeu ali como queria tratar os jovens que um dia escrevessem para ele. A conexão entre os dois está no post sobre Cosmos, a série.

Vale ler Respostas de um Astrofísico?

Vale, com a expectativa certa.

  • É leitura de cabeceira. Cada carta tem uma ou duas páginas. Dá para ler três antes de dormir.
  • Funciona como aula de conversa. Se você é professor ou já discutiu ciência com parente em almoço de domingo, vai anotar argumentos.
  • Não ensina astrofísica de forma organizada. Quem quer isso deve começar por Astrofísica para Apressados, do mesmo autor. Uma resenha da Chemistry World faz o mesmo alerta.
  • O tom às vezes soa arrogante. A mesma resenha reclama disso. Eu achei que, na maioria das vezes, é franqueza com quem escreveu sem pensar muito.

Quem quiser ouvir o próprio Tyson falando do livro tem uma conversa longa com Michael Shermer, em inglês.

Daqui, dá para seguir para Cosmos, o livro de Sagan que Tyson ajudou a levar para uma nova geração. Para outra física respondendo às perguntas grandes, só que com menos paciência para o misticismo, tem A Ciência Tem Todas as Respostas?. E, para entender o que separa uma resposta científica de um palpite, Afinal, o que é ciência?.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte qual pergunta você mandaria para um astrofísico, se ele respondesse.


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