Toda semana aparece um produto, uma terapia ou um guru dizendo que é científico. André Demambre Bacchi escreveu um guia curto para separar o que passou pelo teste do que só pegou o jaleco emprestado.
Autor: André Demambre Bacchi – Publicação: 2024
“Comprovado cientificamente” virou selo de embalagem. Aparece em xampu, em curso online, em chá emagrecedor. Quando uma expressão serve para tudo, ela para de dizer alguma coisa. Este livro tenta devolver o sentido a ela.
O autor tem o currículo certo para a tarefa. André Bacchi é farmacêutico, doutor em ciências fisiológicas com ênfase em farmacologia pela Universidade Estadual de Londrina e professor do curso de Medicina da Universidade Federal de Rondonópolis, em Mato Grosso, onde dá aulas de epidemiologia e bioestatística. Também escreve para a Revista Questão de Ciência, a mesma casa de Natalia Pasternak e Carlos Orsi. Ou seja: passa o dia ensinando futuros médicos a desconfiar de estudo mal feito.
Quem é André Bacchi e do que trata o livro?
Bacchi faz divulgação científica desde 2016, e o livro tem cara de quem já respondeu as mesmas dúvidas centenas de vezes nas redes. Os temas, segundo ele próprio em entrevista ao InterD, são estes:
- o que é ciência e o problema de separá-la da pseudociência;
- uma história rápida da filosofia da ciência, da Revolução Científica aos pensadores atuais;
- lógica, vieses cognitivos e pensamento probabilístico;
- o método científico, ou melhor, os métodos;
- ceticismo, negacionismo e a suposta neutralidade da ciência;
- a própria divulgação científica.
É bastante coisa para um livro curto, e ele dá conta porque escolhe exemplos do dia a dia em vez de experimentos famosos.
Como o livro define ciência?
Sem fórmula mágica. Bacchi trata a ciência como um conjunto de métodos ajustados a perguntas diferentes, e não como uma receita única de laboratório.
O exemplo que ele usa é ótimo. Um historiador que estuda as causas da Segunda Guerra não faz ensaio clínico. Um pesquisador que testa um remédio não faz análise de arquivo. Os dois fazem ciência, cada um com a ferramenta que a pergunta pede. É a mesma ideia defendida no post que pergunta se o método científico existe: o que une as ciências é o compromisso com a evidência e com a crítica, mais do que um passo a passo.
O que separa ciência de pseudociência?
Aqui o livro entra no chamado problema da demarcação, que ocupa filósofos há quase um século. Bacchi passa pela proposta de Karl Popper, a de que uma teoria científica precisa poder ser refutada, explicada aqui no blog no post sobre falseabilidade.
Mas ele não fica só em Popper. A pergunta que atravessa o livro é mais prática: uma afirmação foi testada de modo que pudesse falhar? Se a resposta é não, ela pode até ser bonita, antiga ou reconfortante. Ainda falta a ela o que torna uma afirmação científica.
Tem um exemplo no livro que eu acho muito honesto. Uma planta usada em rituais espirituais de uma comunidade merece respeito nesse contexto. Vender a mesma planta numa farmácia como tratamento para depressão é outra história, e aí cabe a quem vende apresentar a evidência.
Como usar o livro para avaliar uma notícia?
Este é o ganho mais imediato. Bacchi parte da frase que todo mundo já ouviu: “funcionou comigo”. Ele não despreza o relato. Trata como observação, o começo de uma hipótese. Antes de virar conclusão, o relato precisa passar por três filtros:
- Placebo. A pessoa melhoraria com qualquer coisa que acreditasse estar tomando?
- Regressão à média. Ela começou o tratamento no pior momento, que passaria de qualquer jeito?
- Variação natural. A doença tem altos e baixos por conta própria?
Um capítulo inteiro trata do viés de confirmação, que ele chama de raiz de vários outros vieses. Se o assunto te interessa, o blog tem um post só sobre o viés de confirmação. E, para aplicar tudo isso a um caso concreto, o texto sobre NMN e resveratrol usa quatro perguntas parecidas para avaliar suplementos antienvelhecimento.
Vale ler Afinal, o que é ciência?
Vale, principalmente para quem quer um livro de entrada que não seja um manual de faculdade.
- É brasileiro e atual. Os exemplos são daqui, as polêmicas são as que você viu no grupo da família.
- Pede atenção em alguns trechos. A parte de filosofia da ciência tem termos técnicos. O autor explica, mas não dá para ler no ônibus. Uma resenha do Psicoletivo aponta o mesmo.
- Serve para professor. Muitos capítulos funcionam soltos em sala, do ensino médio à graduação.
- Conversa com um clássico. Quem já leu Alan Chalmers, que aparece no post sobre o problema da indução, vai achar aqui uma versão mais leve e mais próxima.
Se quiser ver o método aplicado crença por crença, Que Bobagem! é o complemento natural. Para os limites do que a ciência consegue responder, A Ciência Tem Todas as Respostas?. E, para uma ficção sobre cientistas diante de algo que nenhum método resolve, Solaris.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte qual “comprovado cientificamente” mais te irrita na embalagem.