Solaris: quando o objeto de estudo resiste ao método

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Autor: Stanisław Lem – Publicação: 1961

Em Solaris, cientistas tentam compreender um planeta coberto por um oceano aparentemente vivo. O oceano responde, provoca e devolve aos humanos aquilo que eles não conseguem explicar. Nenhuma teoria dá conta.

A maioria dos romances sobre alienígenas entrega uma chave no final. A criatura fala, o código é decifrado, a intenção se revela. Lem segura essa recompensa a vida inteira do livro. O oceano de Solaris continua opaco da primeira à última página, e o leitor, junto com os cientistas, precisa decidir o que fazer com isso.

E tem um detalhe na história editorial do livro que parece piada cósmica. Durante quarenta anos o mundo anglófono leu Solaris numa tradução de segunda mão: o texto foi vertido do polonês para o francês e, do francês, para o inglês. O próprio site oficial de Lem compara o resultado ao telefone sem fio. A tradução direta do polonês, feita por Bill Johnston, só apareceu em 2011, e mesmo assim primeiro em audiolivro e ebook, porque os direitos do impresso emperraram. Um romance sobre a impossibilidade de traduzir uma mente estranha passou meio século sendo lido através de um intermediário.


O que acontece em Solaris?

A história se passa numa estação científica instalada sobre o planeta Solaris, coberto por um oceano imenso que intriga pesquisadores há décadas.

Existem teorias, relatórios, congressos e uma disciplina acadêmica inteira dedicada ao assunto, a solarística, com bibliografia própria e escolas rivais. Lem inventa a bibliografia toda, com autores, títulos e polêmicas, e essa brincadeira é parte do argumento: dá para produzir uma montanha de literatura sobre algo que continua sem ser compreendido.

O psicólogo Kris Kelvin chega à estação para investigar o que está acontecendo com a equipe. Logo percebe que o oceano afeta os pesquisadores de um jeito muito direto: figuras ligadas ao passado de cada um começam a aparecer ali dentro.

Elas têm presença, comportamento, consistência. O oceano parece materializar memórias, com preferência pelas que envolvem culpa, desejo e assunto mal resolvido. Kelvin reencontra Harey, uma mulher do passado dele. Ela está ali, concreta. E ele sabe que aquilo não é exatamente ela.

O romance se desenrola nessa tensão: como lidar com algo que tem a forma do que você conhece e escapa de todas as categorias que você tem para explicar.

Por que o oceano de Solaris não pode ser compreendido?

Aqui está o centro do livro, e o trecho que envelheceu melhor.

Lem monta uma situação em que a ciência faz tudo que pode. Observa, classifica, formula hipóteses, testa, acumula dados. Os pesquisadores produzem centenas de estudos, criam tipologias para as formações do oceano, debatem modelos. E não avançam.

Repare que isso não é um ataque à ciência, e ler assim empobrece o romance. O que Lem mostra é mais fino: o método encontra um limite quando o fenômeno estudado se recusa a agir como objeto passivo. O oceano age. Responde a estímulos. Produz estruturas complexas. E permanece indeterminado se aquilo é tentativa de comunicação, reação automática ou algo para o qual ainda não existe vocabulário.

No caminho, o livro expõe uma tentação bem conhecida de qualquer pesquisador:

  • Diante do desconhecido, a mente traduz para categorias familiares: mente, sistema, organismo, inteligência.
  • Quando a tradução parece encaixar, é fácil confundir nomear com compreender.
  • O acúmulo de estudos cria sensação de domínio enquanto o fenômeno continua escapando.
  • Ao batizar o que não entende, a ciência corre o risco de embrulhar ignorância em linguagem técnica.

A atitude que Lem parece defender é rara e exige estômago: investigar sem fingir controle, descrever antes de concluir, aceitar que uma explicação pode funcionar em parte e ainda assim não alcançar o fenômeno inteiro. É a mesma disputa sobre o que conta como verdade que aparece em Platão, Nietzsche e a verdade em disputa.

O oceano de Solaris funciona como espelho?

O que o oceano faz com os cientistas pesa tanto quanto o que ele esconde sobre si mesmo.

As materializações funcionam como espelhos involuntários. O oceano devolve aos humanos algo que eles carregam dentro e que não pediram para rever. Permanece em aberto se aquilo é comunicação, efeito colateral, teste ou acidente, e a ambiguidade é proposital.

Lem faz aqui uma escolha que Huxley e Dick não fazem. Em Admirável Mundo Novo o mecanismo de controle é identificável. Em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? o critério de humanidade é discutível, mas existe. Em Solaris o fenômeno resiste a qualquer enquadramento. Sem chave, sem revelação, sem resposta no último capítulo.

O resultado é que as certezas dos pesquisadores, o método deles, a noção que têm de si mesmos, tudo isso é abalado sem que ninguém os ataque. Bastou devolver o que eles tentavam manter guardado. Esse eixo conecta o romance às outras obras reunidas no ensaio sobre identidade e substituição na ficção científica: nos três, a identidade é corroída por mecanismos que dispensam violência, por conforto, métrica e projeção.

Solaris ainda é atual?

O romance continua relevante porque o problema que ele descreve virou rotina.

Modelos de inteligência artificial, sistemas preditivos e algoritmos de recomendação produzem efeitos previsíveis em alguns pontos e profundamente opacos em outros. Funcionam sem que se saiba exatamente por quê. Respondem sem que se possa afirmar com segurança que entendem ou decidem.

Lem capturou em 1961 uma situação que hoje é cotidiana em vários campos: conviver com algo que age sobre você sem se tornar transparente. O livro não oferece consolo. O oceano continua enigma na última página, e talvez seja essa a contribuição mais forte da obra: o conhecimento às vezes avança quando aceita dizer que ainda não sabe, em vez de inventar uma resposta que serve só para acalmar quem estuda.

Vale a pena ler Solaris?

Vale, com um aviso importante.

  • Não é leitura de aeroporto. Há capítulos inteiros de bibliografia inventada sobre a solarística, densos de propósito. Tem gente que os adora e gente que os pula. Se você pular, o livro ainda funciona.
  • A história humana é curta e intensa. A parte com Kelvin e Harey tem umas duzentas páginas e prende como poucos livros do gênero.
  • Escolha bem a edição. Se for ler em inglês, procure a de Bill Johnston. Em português, as traduções feitas direto do polonês são as que valem.
  • O filme (em nada) não substitui o livro. A versão de Tarkovsky é boa, mas trata de outra coisa. Lem reclamou disso em vida.

Se quiser conhecer melhor o autor antes, o verbete de Stanisław Lem dá o contexto. Lem era um sujeito feroz, que achava quase toda a ficção científica americana ingênua e dizia isso em alto e bom som.

Depois de Solaris, o caminho natural é ver a memória sendo editada por decreto em 1984.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – Lem imaginou um oceano que resiste a todas as explicações. O mais revelador é o que essa resistência faz com quem tenta explicar.


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