Viés de confirmação: o que é, exemplos e como reduzir

Depois de formar uma opinião, informações que combinam com ela podem parecer mais convincentes. O viés de confirmação ajuda a explicar como procuramos, avaliamos e até recordamos evidências. Reconhecê-lo, porém, exige mais do que simplesmente acusar quem discorda de estar enviesado.


O que é viés de confirmação?

O viés de confirmação é um conjunto de tendências pelas quais podemos procurar, interpretar ou recordar informações de maneira favorável a uma crença, expectativa ou hipótese que já temos.

Ele pode aparecer em momentos diferentes:

  • na busca, quando procuramos principalmente evidências compatíveis com nossa ideia;
  • na avaliação, quando examinamos com mais rigor aquilo que a contraria;
  • na memória, quando informações favoráveis ficam mais acessíveis.

Isso não significa que toda pessoa conscientemente ignore evidências contrárias.

Também não significa que manter uma crença diante de uma crítica seja, por si só, prova de viés. Às vezes, a evidência contrária simplesmente é fraca.

O problema está em usar critérios diferentes conforme a conclusão nos agrada ou não.

O clássico problema 2–4–6

Em 1960, o psicólogo Peter Wason apresentou aos participantes três números:

2 – 4 – 6

Eles deveriam descobrir a regra utilizada pelo pesquisador. Para isso, podiam propor novas sequências e receber a informação de que elas obedeciam ou não à regra.

Muitos participantes formulavam hipóteses como:

“números pares aumentando de dois em dois.”

E testavam:

  • 8 – 10 – 12;
  • 20 – 22 – 24;
  • 100 – 102 – 104.

Tudo funcionava.

Só que a regra de Wason era muito mais ampla: quaisquer três números em ordem crescente.

O problema é que aquelas sequências confirmavam a hipótese inicial sem realmente distingui-la de várias outras.

O experimento original pode ser consultado em On the Failure to Eliminate Hypotheses in a Conceptual Task.

Procurar confirmação é sempre irracional?

Não.

Essa ressalva é importante.

Testar aquilo que esperamos encontrar pode ser útil. Se um mecânico suspeita de uma falha específica, faz sentido procurar sinais compatíveis com ela.

A dificuldade começa quando só procuramos esses sinais.

Se várias explicações produzem o mesmo resultado, encontrar aquilo que nossa hipótese previa não permite concluir que ela é a correta.

Às vezes, a reflexão mais informativa é justamente:

“O que eu encontraria se minha explicação estivesse errada?”

Isso muda o tipo de evidência que procuramos.

O fenômeno ainda aparece em pesquisas atuais?

Em 2024, Vincent Berthet, Predrag Teovanović e Vincent de Gardelle retomaram três paradigmas clássicos relacionados ao viés de confirmação.

Duzentos participantes realizaram nove tarefas, envolvendo:

  1. busca por informações;
  2. avaliação de evidências;
  3. memória.

Os pesquisadores encontraram tendências favoráveis à informação confirmatória nos três componentes e evidências de alguma estrutura comum entre medidas obtidas em tarefas diferentes.

Ao mesmo tempo, o próprio estudo enfatiza que o conceito reúne manifestações distintas e que sua interpretação tem sido discutida na literatura.

Vale consultar A common factor underlying individual differences in confirmation bias.

Ou seja: há boa razão para continuar falando em viés de confirmação.

Só não precisamos transformá-lo numa explicação universal para qualquer pessoa que mantém uma opinião.

Como ele aparece no cotidiano?

Nas buscas

Compare:

“benefícios do trabalho remoto”

com:

“problemas do trabalho remoto”

As duas pesquisas já orientam a procura para lados diferentes.

Uma alternativa melhor pode ser formular a busca de maneira menos comprometida:

“efeitos do trabalho remoto sobre produtividade”

Ainda haverá escolhas e limitações, mas a pergunta começa menos inclinada.

No trabalho

Um gestor acredita que determinado funcionário é desorganizado.

A partir daí, atrasos podem confirmar rapidamente a impressão, enquanto entregas corretas recebem menos atenção.

O comportamento do funcionário precisa ser avaliado.

Mas a hipótese inicial também.

Nos estudos

O estudante acredita que aprende melhor apenas relendo.

Lembra das ocasiões em que a releitura pareceu funcionar e pode prestar menos atenção às situações em que reconhecia o conteúdo durante o estudo, mas não conseguia recuperá-lo depois.

A experiência pessoal continua sendo informação.

Só não precisa ser a única.

Viés de confirmação não é viés de disponibilidade

Os conceitos podem se combinar, mas descrevem processos diferentes.

Na heurística de disponibilidade, algo parece frequente ou provável porque exemplos vêm facilmente à memória.

No viés de confirmação, informações podem receber tratamento diferente conforme sua relação com aquilo que já acreditamos.

Já a dissonância cognitiva trata da tensão que pode surgir quando crenças, atitudes e comportamentos entram em conflito.

Não precisamos colocar todo erro de julgamento na mesma gaveta.

Como reduzir o viés de confirmação?

Não existe botão para desligá-lo, mas algumas práticas tornam o raciocínio mais exigente.

1. Formule uma hipótese alternativa

Se acha que a produtividade caiu por falta de esforço, considere também:

  • instruções pouco claras;
  • ferramentas inadequadas;
  • sobrecarga;
  • problemas de coordenação.

Agora existem explicações concorrentes para testar.

2. Procure evidência que possa contrariar sua ideia

Em vez de perguntar apenas:

“O que mostra que estou certo?”

acrescente:

“O que eu esperaria observar se estivesse errado?”

3. Use o mesmo rigor para os dois lados

Uma pesquisa favorável à sua opinião também precisa ter método adequado, boa amostra e conclusões proporcionais aos dados.

Concordância não melhora metodologia.

4. Defina antecipadamente o que faria você mudar de ideia

Essa pergunta é desconfortável, mas útil:

“Existe alguma evidência que me faria rever esta posição?”

Se a resposta for “nenhuma”, talvez já não estejamos apenas avaliando evidências.

Colocar uma ideia em risco

Pensamento crítico não exige começar cada manhã sem acreditar em absolutamente nada.

Precisamos de hipóteses, expectativas e conhecimentos prévios para interpretar o mundo.

O cuidado é não construir um sistema no qual qualquer resultado consiga confirmar a mesma conclusão.

Uma boa explicação não é aquela que acumula apenas exemplos favoráveis. É aquela que também aceita correr o risco de estar errada.

Se nenhuma evidência pode derrubar uma ideia, confirmar essa ideia fica fácil demais.


Se conhece alguém que pesquisa uma pergunta já sabendo exatamente qual resposta pretende encontrar, compartilhe este texto. Às vezes, vale procurar também aquilo que estragaria a hipótese.


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