Atualizado em
O materialismo histórico procura compreender a sociedade olhando também para aquilo que permite sua existência concreta: trabalho, propriedade, produção e distribuição de recursos. Em Marx, ideias e instituições importam, mas não surgem fora das condições históricas em que as pessoas vivem.
O que é materialismo histórico-dialético?
O materialismo histórico-dialético é uma perspectiva associada à tradição marxista para compreender como sociedades se organizam e se transformam.
Há uma pequena precisão histórica importante: Marx desenvolveu aquilo que ficou conhecido como concepção materialista da história.
A expressão “materialismo dialético” foi sistematizada posteriormente na tradição marxista, e não aparece como um método pronto batizado dessa maneira pelo próprio Marx.
Isso não invalida o termo, amplamente utilizado nas Ciências Humanas. Só evita transformar uma tradição intelectual extensa em um manual que Marx teria deixado pronto.
O que significa “materialismo”?
Aqui, materialismo não significa simplesmente acreditar no que é físico e negar ideias, religião e cultura.
O ponto de partida é mais concreto: seres humanos precisam produzir as condições de sua própria existência.
Toda sociedade precisa organizar, de alguma maneira:
- alimentação;
- moradia;
- trabalho;
- ferramentas;
- circulação de bens;
- distribuição de recursos.
E essas atividades envolvem relações entre pessoas.
- Quem possui o quê?
- Quem trabalha?
- Quem decide?
- Como aquilo que é produzido será distribuído?
Para Marx, compreender uma sociedade exige investigar também essas relações.
E por que “histórico”?
Porque essas formas de organização mudam.
Trabalho escravizado, servidão feudal e trabalho assalariado diferem em mais do que a forma de executar tarefas: envolvem relações distintas de propriedade, poder e produção.
Aquilo que parece natural em determinada época pode ter surgido historicamente e desaparecer depois.
No Prefácio de Contribuição à crítica da economia política, de 1859, Marx apresenta uma de suas formulações mais conhecidas dessa perspectiva: ao produzir a vida social, as pessoas encontram relações que não escolheram individualmente e que condicionam as possibilidades de sua época.
Isso não significa que seres humanos sejam marionetes da estrutura. Significa que ninguém começa sua história do zero.
Essa ideia conversa diretamente com a imaginação sociológica: biografias individuais acontecem dentro de condições históricas que já estavam em movimento.
O que são forças produtivas e relações de produção?
Dois conceitos ajudam a entender um pouco melhor.
Forças produtivas
Incluem elementos utilizados para produzir:
- conhecimento;
- técnicas;
- ferramentas e máquinas;
- matérias-primas;
- capacidades e habilidades humanas.
Relações de produção
Dizem respeito a como as pessoas se relacionam durante esse processo:
- quem controla os meios de produção;
- quem trabalha;
- quem toma decisões;
- como o trabalho é organizado;
- como os resultados são apropriados.
Uma fábrica, portanto, não é formada apenas por máquinas. Ela também contém relações sociais.
O que há de dialético nessa análise?
A dialética chama atenção para relações, mudanças e tensões internas aos processos sociais.
Um sistema pode produzir efeitos contraditórios.
Por exemplo:
- uma nova tecnologia pode aumentar enormemente a produtividade e, ao mesmo tempo, alterar empregos, qualificações e relações de controle.
- Uma sociedade pode produzir mais riqueza sem que seus benefícios sejam distribuídos igualmente.
“Contradição”, aqui, não significa simplesmente alguém afirmar uma coisa e depois dizer o contrário.
Significa observar tensões que surgem dentro da própria organização social.
Base e superestrutura: Marx achava que a economia explica tudo?
Essa é uma das simplificações mais frequentes.
A tradição marxista costuma distinguir:
- base: forças produtivas e relações de produção;
- superestrutura: instituições políticas e jurídicas, além de formas culturais e ideológicas.
O esquema ajuda.
O problema começa quando vira: “economia determina automaticamente todo o resto.”
Leis, instituições, cultura, política e ideias também participam dos processos históricos. Uma lei trabalhista, por exemplo, pode modificar concretamente relações entre empresas e trabalhadores.
Portanto, materialismo histórico funciona melhor como forma de investigar relações do que como fórmula segundo a qual cada fenômeno teria uma causa econômica escondida.
Um exemplo atual: inteligência artificial e trabalho
A IA generativa oferece um bom exercício.
Podemos perguntar apenas: “A IA é uma tecnologia melhor?”
Porém, uma análise inspirada no materialismo histórico acrescentaria:
- Quem controla os sistemas?
- Que tarefas são automatizadas?
- Quem recebe os ganhos de produtividade?
- Que conhecimentos profissionais ganham ou perdem valor?
- Quem decide como a tecnologia será incorporada ao trabalho?
- Trabalhadores ganham autonomia ou viram objeto de mais controle?
A Organização Internacional do Trabalho estimou em 2025 que aproximadamente um em cada quatro trabalhadores no mundo está em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa.
A própria OIT ressalta que exposição não significa desaparecimento automático do emprego: a transformação das tarefas é um resultado mais provável em grande parte dos casos.
Esse é exatamente o tipo de distinção desenvolvido em Inteligência Artificial no Mercado de Trabalho: ameaça ou oportunidade?
Marx obviamente não escreveu sobre modelos de linguagem. A utilidade de uma teoria social não depende de seu autor ter previsto cada tecnologia futura.
Depende de as perguntas que ela oferece ainda ajudarem a investigar o que mudou.
Para que serve essa teoria hoje?
O materialismo histórico perde força quando vira resposta automática.
Reduzir cultura, política, gênero, raça ou religião a simples “efeitos da economia” empobrece fenômenos que possuem histórias e dinâmicas próprias.
Sua contribuição está em lembrar que ideias e instituições também acontecem em um mundo onde pessoas: trabalham, produzem, possuem, negociam, disputam e distribuem recursos.
Quando queremos compreender uma sociedade, perguntar o que as pessoas pensam continua importante.
Marx acrescenta uma segunda pergunta: em que condições materiais essas pessoas vivem e produzem aquilo que pensam?
Talvez essa seja uma maneira mais útil de guardar o materialismo histórico. Não como uma fórmula para explicar tudo, mas como um lembrete de que nenhuma sociedade vive apenas de ideias.
O materialismo histórico-dialético serve como ferramenta de análise, e cabe menos num slogan do que parece. Se esse texto te fez pensar, por favor, compartilhe.