Problema da indução: por que Hume duvidou que o sol nasce amanhã?

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Toda manhã o sol nasceu, e nada nisso prova que vai nascer amanhã. David Hume apontou o buraco no raciocínio que sustenta boa parte do que se chama de conhecimento.


Escócia, 1748. David Hume publica um livro curto, escrito para ser lido fora das universidades, e faz uma pergunta que parece boba.

Por que você tem certeza de que o pão de amanhã vai alimentar como o de hoje?

A resposta óbvia é “porque sempre foi assim”. Hume mostrou que essa resposta, examinada de perto, sustenta muito menos do que parece. A dúvida dele atravessou quase três séculos e continua aberta na filosofia da ciência.

O que é o problema da indução?

Indução é o raciocínio que parte de casos observados e chega a uma regra geral ou a uma previsão. Ele está em toda parte:

  • o sol nasceu todos os dias, então vai nascer amanhã;
  • o remédio funcionou nos testes, então vai funcionar no próximo paciente;
  • todo cisne visto até hoje era branco, então todos os cisnes são brancos.

O problema aparece quando se pergunta o que garante o salto. Nenhuma lista de casos passados, por maior que seja, garante pela lógica que o próximo caso siga a mesma regra. A natureza poderia mudar amanhã sem contradição nenhuma.

E aqui vale prestar atenção na armadilha. Justificar a indução dizendo que ela sempre funcionou é usar a própria indução para defendê-la. O argumento anda em círculo.

Por que Hume dizia que o hábito sustenta a indução?

Na seção IV da Investigação sobre o Entendimento Humano, Hume nota que ninguém observa uma causa produzindo um efeito. O que se observa é uma coisa acontecendo depois da outra, muitas vezes seguidas.

A mente, diante dessa repetição, cria um costume. Viu fogo e calor juntos mil vezes, espera calor na milésima primeira. Para Hume, essa expectativa vem do hábito, e nenhuma demonstração lógica a sustenta.

Repare que Hume nunca recomendou parar de confiar na experiência. Ele dizia que a vida seria impossível sem ela. O ponto dele era outro: a confiança funciona, e a razão sozinha não consegue explicar por quê.

Um século antes, Francis Bacon tinha feito da observação acumulada o motor da ciência, como mostra o texto sobre o método indutivo de Francis Bacon. Hume mostrou a rachadura nesse alicerce.

O que é o peru indutivista?

Em Os Problemas da Filosofia, de 1912, Bertrand Russell contou a história de uma galinha alimentada todos os dias pelo mesmo homem, até o dia em que esse homem lhe torce o pescoço.

O filósofo Alan Chalmers, no livro O que é ciência afinal?, muito usado em cursos brasileiros, trocou a galinha por um peru.

O peru observa que recebe comida às nove da manhã. Anota em dias de sol e de chuva, de calor e de frio. Depois de meses, conclui com segurança: “sou alimentado todas as manhãs às nove”. Na véspera de Natal, é degolado.

A historinha resume três lições:

  1. muitas observações aumentam a confiança, e nenhuma quantidade delas garante a regra;
  2. premissas verdadeiras podem levar a uma conclusão falsa quando o raciocínio é indutivo;
  3. quem observa raramente enxerga as causas por trás da regularidade que vê.

Como Popper respondeu a Hume?

Karl Popper aceitou o diagnóstico de Hume e mudou a pergunta. Se a indução não pode ser justificada, a ciência precisa de outro caminho.

Para Popper, a ciência avança por conjecturas e tentativas de refutação. Nenhuma quantidade de cisnes brancos prova que todos os cisnes são brancos. Um único cisne negro derruba a regra, e os europeus encontraram cisnes negros na Austrália em 1697. Desde então, “cisne negro” virou expressão para o acontecimento raro que derruba uma certeza.

Assim nasceu o critério da falseabilidade: uma teoria científica é aquela que diz o que deveria acontecer e, portanto, pode ser desmentida.


A ciência consegue viver sem indução?

A resposta de Popper teve críticos. Quando uma teoria resiste a muitos testes, cientistas confiam cada vez mais nela, e essa confiança crescente lembra muito a indução que Popper queria dispensar.

Outras respostas tentaram conviver com o problema em vez de resolvê-lo. A linha probabilística trata o conhecimento como graus de confiança, atualizados a cada nova evidência. A linha pragmática argumenta que, se algum método de previsão funciona, a indução também funciona.

O verbete sobre o problema da indução da Stanford Encyclopedia of Philosophy mostra que nenhuma dessas saídas virou consenso.

Na prática, a ciência trabalha com confiança provisória, sempre aberta a revisão. A dúvida de Hume virou cuidado de método. E ela pertence a uma disputa maior, entre quem confia na razão e quem confia na experiência, tema de empirismo e racionalismo.


Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte qual certeza do seu dia a dia seria a do peru.

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