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Descartes confiava na razão; Locke, na experiência. A disputa entre racionalistas e empiristas definiu a filosofia moderna e volta toda vez que alguém pergunta como sabe o que sabe.
Inverno de 1619, sul da Alemanha. Um jovem soldado francês passa o dia trancado num quarto aquecido por uma estufa e decide duvidar de tudo o que aprendeu. O soldado é René Descartes.
Setenta anos depois, em Londres, John Locke publica um livro que compara a mente de quem nasce a um papel em branco.
Os dois queriam responder à mesma pergunta: de onde vem o conhecimento? As respostas deles criaram as duas grandes correntes da filosofia moderna.
Qual a diferença entre empirismo e racionalismo?
O racionalismo afirma que a razão é a fonte principal do conhecimento seguro. O empirismo afirma que todo conhecimento começa nos sentidos.
As diferenças aparecem em quatro pontos:
- origem das ideias: para racionalistas, algumas já nascem com a mente; para empiristas, todas vêm da experiência;
- ferramenta principal: dedução, no racionalismo; observação e indução, no empirismo;
- modelo de saber: a matemática, para os racionalistas; as ciências naturais, para os empiristas;
- nomes centrais: Descartes, Spinoza e Leibniz de um lado; Locke, Berkeley e Hume do outro.
A raiz da disputa é antiga. Platão desconfiava dos sentidos e Aristóteles partia deles, como mostra a diferença entre Platão e Aristóteles.
O que defendiam os racionalistas?
Descartes queria uma base que nenhuma dúvida conseguisse derrubar. Duvidou dos sentidos, que às vezes enganam, e até da realidade do mundo, que poderia ser um sonho.
Sobrou uma certeza: enquanto duvida, quem duvida está pensando. Daí o “penso, logo existo”, publicado no Discurso do Método em 1637.
A partir dessa certeza, Descartes reconstruiu o conhecimento por dedução, como numa demonstração de geometria. Algumas ideias, como a de perfeição ou as verdades matemáticas, ele considerava inatas: a experiência apenas as desperta.
Spinoza e Leibniz seguiram a mesma confiança na razão, cada um com seu sistema. Leibniz chegou a responder a Locke num livro inteiro, os Novos Ensaios, com uma imagem que ficou: a mente seria como um bloco de mármore com veios, que já indicam a forma da estátua que pode sair dali.
O que defendiam os empiristas?
No Ensaio sobre o Entendimento Humano, de 1689, Locke atacou as ideias inatas. Para ele, a mente começa vazia e se enche de ideias por dois caminhos: a sensação, que vem dos sentidos, e a reflexão, que observa o próprio pensamento.
Berkeley levou o empirismo mais longe e duvidou da matéria fora da percepção. Hume chegou ao ponto mais radical. Dividiu o conteúdo da mente em impressões, vivas e diretas, e ideias, cópias mais fracas delas, e tratou como suspeita qualquer ideia sem impressão de origem. Mostrou também que nem a relação de causa e efeito pode ser observada, só a repetição de uma coisa depois da outra.
Séculos antes, Guilherme de Ockham já desconfiava de entidades que a experiência não mostra, ideia que sobrevive na navalha de Ockham. E Francis Bacon fez da observação o centro da ciência, como mostra o método indutivo de Francis Bacon.
Como Kant tentou resolver a disputa?
Immanuel Kant contou que Hume o tirou de um “sono dogmático”. Na Crítica da Razão Pura, de 1781, ele propôs uma saída que combinava as duas correntes.
Para Kant, todo conhecimento começa com a experiência, e a mente entra com uma estrutura própria para organizá-la. Espaço, tempo e a ideia de causa funcionam como lentes que a mente aplica a tudo o que percebe.
Kant comparou a virada à de Copérnico. Até ali, supunha-se que o conhecimento se ajustava aos objetos; ele propôs examinar como os objetos se ajustam à forma como a mente conhece.
A frase mais lembrada resume o acordo: “pensamentos sem conteúdo são vazios, intuições sem conceitos são cegas”. Os sentidos fornecem o material, e a razão dá a forma.
O verbete sobre racionalismo e empirismo da Stanford Encyclopedia of Philosophy mostra como a discussão continua na filosofia contemporânea.
Empirismo e racionalismo no Enem: o que costuma cair?
O tema aparece com frequência nas provas de humanidades. Alguns sinais ajudam a reconhecer cada corrente no texto da questão:
- dúvida metódica, ideias inatas, dedução, matemática: racionalismo, quase sempre Descartes;
- papel em branco, sensação, experiência, observação: empirismo, quase sempre Locke;
- hábito, costume, crítica à causalidade: Hume;
- síntese entre razão e experiência: Kant;
- ideias inatas contra papel em branco: o contraste clássico das questões que comparam autores.
Uma boa forma de testar o entendimento é pensar em qualquer coisa que você sabe e perguntar de onde ela veio. A resposta quase sempre mistura as duas fontes, e foi exatamente isso que Kant tentou explicar.
Se fizer sentido para você, comente e compartilhe – e conte de que lado da disputa você se sente mais perto.